Um poncho andino de Lima

Ilustração de Gabriel Margarido Pais. Poncho andino, sobreposto a um mapa de Lima.

Neste período de quarentena, em que nos vemos obrigados a parar fisicamente, não há limites para onde a nossa mente nos pode levar. Olhando à volta do meu quarto, vejo objectos trazidos de viagens que fiz no passado e que, instantaneamente, espoletam memórias das mesmas. É uma forma de escapismo momentâneo que traz algum conforto em tempos incertos. Deixem-me levar-vos numa viagem à volta do meu quarto.

O nono objecto é um poncho andino que trouxe de Lima. A capital peruana já foi tema de outra crónica minha, mas agora tenho outras experiências para partilhar. Numa altura em que o país está a ser fustigado pela pandemia, recordo as coisas boas que vivi por lá e espero regressar em breve.

A última viagem que fiz foi ao Peru, em trabalho. A pandemia cortou-me as vazas, condenando a minha estadia a um fim repentino, com 24 horas de pré-aviso. Planos de fim-de-semana e expedições a destinos fora de Lima cancelaram-se, os souvenirs que havia prometido trazer tiveram de ser comprados a correr e novas relações teriam de se readaptar. Até porque, na verdade, o melhor souvenir que trouxe do Peru foi algo intangível e que nunca havia encontrado desta forma: o amor. Mas como não quero induzir diabetes nos leitores, focar-me-ei nas restantes experiências que tive neste fabuloso país.

Depois da Islândia — sobre a qual já discorri nesta série de crónicas — o Peru era o meu destino de sonho. O rigor do projecto em que estava inserido impediu que fizesse grandes planos turísticos, mas ainda assim permitiu que me imbuísse na cultura peruana. Apesar de na capital me ter movimentado mais pelos círculos dos bairros empresariais e de classe média-alta, consegui contactar um pouco com o lado mais autêntico da cultura através de museus, de conversas com locais e, em grande parte, da gastronomia. Ceviche, causatiradito, jalea, leche de tigre, anticuchos, chicha morada; eram apenas alguns dos vocábulos que faziam parte do meu dia-a-dia. Com todo o meu amor pela gastronomia portuguesa, devo dizer que não tive saudades dela uma única vez, pois a comida peruana é realmente maravilhosa.

Fora de Lima, uma descontraída viagem a Ica — mais especificamente ao oásis da Huacachina e às dunas do deserto que o rodeia — e ao parque nacional de Paracas confirmou o meu fascínio pelo Peru. Neste último, as paisagens amplas e desoladoras da terra infértil eram um pano de fundo quase alienígena, em que diferentes tonalidades de areia e terra contrastavam com os azuis fortes do céu e do mar. Apesar da influência da máquina turística ser notória, consegui ter experiências espectaculares e menos familiares.

Ainda assim, não consegui não deixar de sentir um pouco de culpa colonial passiva ao imaginar o que o país poderia ser se não tivesse estado sob o jugo da ocupação espanhola. As tradições dos períodos pré-colombianos (vulgo, antes da chegada de Cristóvão Colombo) que a população se esforça por manter são aquelas que, a par da sua beleza natural, atribuem ao Peru a sua aura mística. A sua riqueza cultural é corroborada pelo seu território ser considerado como um dos berços da civilização — a par da Mesopotâmia, do Egipto, da China, da Índia e da Mesoamérica.

Os mercados artesanais que se encontram espalhados por Lima são um repositório de peças alusivas a esse passado rico. O facto de belas cerâmicas estarem expostas ao lado de porta-chaves e ímanes de frigorífico deixava-me ligeiramente desconfortável, mas achei que, apesar de tudo, estaria a apoiar produtores mais locais. Por isso, no bairro de Pueblo Libre — um bairro mais clássico e cheio de história, onde podemos encontrar museus interessantíssimos, como o Museo Larco, cheio de artefactos pré-colombianos que pintam a história das civilizações peruanas antigas (incluindo uma colecção de artigos eróticos) — visitei o complexo artesanal onde vendedores nos aliciam com os seus bonitos produtos.

Apesar do calor do Verão do hemisfério Sul, uma senhora vendia mantas, capas e ponchos. Exposto no topo da banca, vi-o, em toda a sua glória: vermelho, branco e preto, com detalhes de alpacas e estatuetas, um poncho maravilhoso que, sempre que o visto com o respeito e admiração que o contexto do objecto merece, me faz sentir mais próximo de um país que rapidamente se tornou muito especial para mim. A quebra repentina do idílio que experienciava por lá tornou o desejo de regressar ainda mais ardente, algo que farei assim que puder.

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