TYRON e a dualidade de slowthai

por Miguel de Almeida Santos,    21 Março, 2021
<i>TYRON</i> e a dualidade de slowthai
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Esquerda, direita. Tinto, branco. Mais um copo, chichi cama. Há uma dualidade inerente à nossa existência em quase todas as suas etapas; um duo de escolhas, duas faces de uma mesma moeda, um yin para cada yang. E ainda que haja decisões que pareçam óbvias ou cenários cuja solução é de caras, no início há sempre uma encruzilhada. slowthai sabe-o e apresenta agora a sua dicotomia pessoal em TYRON, de Northampton para o mundo.

Ao longo de pouco mais de 30 minutos distribuídos por 14 temas, o rapper britânico consegue vincar a sua dualidade de forma clara e facilmente perceptível. Se Nothing Great About Britain o consagrou como uma das mais excitantes caras do hip hop das terras de Sua Majestade, a sequela dessa estreia de peso traz Tyron Frampton de volta para o chão, mostrando um homem afectado pelas vicissitudes da vida e sem pudor em mostrá-lo, por mais doloroso que seja. Mas a sua principal virtude está em conseguir trazer o ouvinte para o centro dos seus problemas, com uma empatia vincada que já é apanágio da sua obra. 

O álbum, dividido em duas partes, torna fácil a compreensão do seu raciocínio. Todos os temas da primeira parte são musculares, possantes, titulados em maiúsculas. “CANCELLED” mostra Skepta em grande forma num hook intoxicante, aliando-se ao seu compatriota na luta contra a cancel culture, ambos insurgindo-se com voracidade. A música é particularmente relevante no rescaldo da controvérsia em que slowthai esteve envolvido, assim como “VEX”, um piscar de olhos ao grime inglês, de refrão sussurrado mas raivoso, como um dedo do meio a toda a toxicidade que rodeia o artista. Já a “sagrada” “DEAD” mostra que slowthai está seguro de que, no final do dia, a sua memória viverá através da sua música. São músicas que nos confrontam com a sua pujança, culminando na confessional e pessimista “PLAY WITH FIRE” (“Why do I feel like I’m holding the short straw?“).

slowthai / Fotografia de Jono White

Se a primeira parte do álbum é para bombar em festas, a segunda parte é para a ressaca e para nos convencermos de que seremos melhores da próxima. “i tried” é a balada deste projecto, entoada com confiança e dita numa só respiração, invocando a velha máxima de que errar é humano. “If Hell’s meant for sinning, Heaven’s never been for me”, diz-nos antes de se concentrar em “focus”, com a potente batida de Mount Kimbie e Kenny Beats a lembrar algo saído do universo de James Blake. “terms” aproveita um excelente hook de Dominic Fike para discutir esta estranha relação que slowthai tem com milhares de pessoas e o seu estatuto de celebridade. É uma relação agridoce, que lhe trouxe tudo o que tem, mas também problemas que nunca esperaria, algo que a batida de água no bico espelha exactamente.

São temas pessoais com os quais qualquer pessoa se consegue relacionar. Quantas vezes já tentámos e desistimos, em que nos empenhámos na concentração e reconhecemos as decisões que tomamos e as suas implicações? Quantas vezes remámos contra a maré e lutámos para levar a nossa avante como slowthai descreve em “push” (“When push comes to shove, you gotta push”)? Quantas vezes nos queixámos de tudo e mais alguma coisa (“We want ‘em all until we have them, happier with rations”), mas nos esforçámos para procurar significado no que é realmente importante, como a brilhante e esperançosa batida de “nhs” nos comanda? Quantas vezes já vimos o nosso coração ser destroçado por outra pessoa como se nunca tivesse sido nosso, como “feel away” tão fielmente retrata? TYRON aborda temáticas universais a qualquer ser humano, ampliadas pela lente do artista.

Enfrentar os nossos demónios não é possível sem alguns momentos desconfortáveis. É aí que o murro no estômago que é “adhd” entra e onde o álbum acaba. Vemos slowthai no auge da sua vulnerabilidade, seco e directo ao assunto, sem entoações ou acentuações no seu flow. É um sentido desabafo, permeado por negrume, de um homem embrenhado em solidão. A última estrofe, dardejante e dilacerante, não deixa ninguém indiferente e pede para abraçarmos com força quem nos é mais querido. É uma lembrança de que a luta para sermos melhores é constante e que nem tudo é glamoroso e bonito; há momentos em que a cama é o túmulo para a nossa mente. 

O segundo álbum de slowthai é literalmente um álbum em nome próprio e diz-nos muito sobre o seu autor. Diz-nos que por trás de cada banger e concerto esgotado há uma pessoa, um humano que sente e que se sente atormentado por todas as questões que são inerentes a todos nós. Ainda que a primeira parte do álbum seja menos entusiasmante — pela natureza menos profunda dos temas e porque temas como “WOT” esbatem a fronteira entre canção e interlúdio — é um ponto de partida para a narrativa que slowthai consegue demonstrar em pouco tempo e de forma bem encadeada, recorrendo a mensagens comuns a todos nós com a sua abordagem pessoal e única. TYRON nem sempre é bonito mas é sempre verdadeiro, é a existência humana transposta para versos sentidos e batidas bem produzidas.

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