Tudo é semente, mas nem tudo dá flor

Fotografia de Becca Romine / Unsplash

Nem sempre dá flor ou fruto, mas tudo cresce de uma semente e isto assemelha-se à nossa vida. O processo não é linear e por vezes as coisas não são o que aparentam. O retorno daquilo que damos ao universo chega até nós em diversas formas ou medidas. Por mais que se contemple as cores das flores ou a textura da fruta, o mais importante continuam a ser as raízes, o fuste, o ramo ou os troncos. O equilíbrio nem sempre está em voltares a receber do mesmo sítio, é a diferença entre ser e ter, o espaço que distingue a humildade da vaidade.

Nem a Rosa mais bonita do jardim evolui sem os restantes elementos, mata essa arrogância de achar que não precisas de ninguém, contudo o processo de experienciar o teu Ser em absoluto é só teu, uma alma gémea não te preenche, inspira-te a seres completo.

Devíamos desabafar mais com pessoas que não conhecemos, ouvir respostas e emoções imparciais, escutar o que precisamos e não o que queremos. Tenho aprendido imenso sobre mim ao conhecer cada vez mais os outros, a relativizar certos defeitos enquanto amplio virtudes. Quem é que detém o equador da vida? Para que possamos ter um ponto de contraste ou referência e saber o que é errado ou certo, verdadeiro ou ilusão? Todos os grandes impérios, civilizações e até as sociedades modernas, tendem a mistificar o desconhecido, a representar o medo no escuro. Acredito que muitos mitos tenham nascido desse cocktail emocional, da falta de conhecimento do que não nos é igual ou conhecido. Eu cresci a beber de várias fontes, a filtrar o engodo e não deixar a condescendência subtrair o valor da vida Humana e a sua liberdade. Há coisas boas e outras más em todas as culturas, diferentes primaveras mas algumas com as mesmas raízes. 

As dores e resistências fazem parte do crescimento, não desistas à primeira sombra para alcançar o ponto de luz, não te deixes desidratar à primeira chuva só porque o Sol vai demorar mais uns dias abrir, aceita os ramos partidos e as folhas velhas, orgulha-te das tuas rugas e que ao final do dia sejam de tanto rir. Não te censures tanto, como saberás que estás certo se não fizeres o errado? Afinal existem boas ideias com maus resultados e até os grandes rios mudam de percurso.

Nem tudo tem de estar organizado, há ordem no caos, desaprende as formas, o fogo é abstrato e a água inquieta. Talvez seja num pequeno passo sem chão que descubras que sabes voar. Como diz António Damásio, professor de Neurociência, Psicologia e Filosofia “A estranha ordem das coisas”, deixar os sentimentos construírem a nossa personalidade.

Talvez alguns de nós nem cheguem a encontrar quem nos ame como nós amamos, mas nem por isso devemos deixar de regar e nutrir. Há frutos sazonais, há flores autóctones e outras forasteiras. Desbrava solo, embate em rochas e volta a encontrar o rumo. Somos todos feitos de carbono e transformações. Para mim a Lua está sempre cheia, o Sol sempre aqui esteve nos dias cinzentos e o Mar bravo. Deixei de insistir tanto para voltar a existir mais, não sei se há feridas que não se curam com o tempo ou se ainda não tiveram o necessário, não tenho respostas para todas as minhas perguntas e começo acreditar que algumas é melhor não serem respondidas. 

Tudo é semente, mas nem tudo dá flor, há um sumo doce por detrás da amargura da casca e não se conhece só um sentido para jornadear. Todos temos diferentes ritmos de desenvolvimento e existimos em fases descoincidentes, não conhecemos a origem e tão pouco avistamos a conclusão. Está tudo em aberto, não me atrevo a fechar-me em caixas e caixinhas. Vou expandir a raíz para que a minha copa se eleve ainda mais. Respeitar o tempo dos meus ciclos de evolução porque a fruta podre cai sozinha.

Crónica de João Sequeira Grilo

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