Quarentena. O direito à preguiça

por Rui Cruz,    5 Abril, 2020
Quarentena. O direito à preguiça
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Hoje foi um daqueles dias em que não fiz nada. Não me apeteceu. Acordei, fiquei mais umas duas horas na cama a ver coisas, levantei-me porque estava com fome, meti asas de frango picantes no forno, vim para o sofá ver Wrestling, fui buscar as asas, enchi um copo de vinho, comi e agora estou a escrever isto, mais nada. Estamos em quarentena, mas não é por isso que domingo deixa de ser domingo e os especialistas de saúde mental dizem que é importante tentar manter as rotinas dos tempos pré-Covid. Desafio aceite e superado.

Mas a verdade é que, apesar disto me ter sabido pela vida, não consigo não me sentir mal por ter passado o dia sem fazer nada. É que começas a abrir as redes sociais ou falas com um amigo e percebes que, de repente, toda a gente decidiu que ia usar a quarentena para se transformar num canivete suíço de talentos. É pessoal a treinar com uma intensidade digna de uma montagem ao som do “Heart’s on fire”; é pessoal a fazer pão de três sementes, com alfarroba e bigode de manatim e a mostrar que os brasileiros é que têm razão, somos todos padeiros; é pessoal a fazer directos já a entrevistar o engenheiro civil que fez o cabelo do Marante; é pessoal a ler a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra toda numa manhã… e depois olho para mim com uma nódoa de molho barbecue na camisola e a rir-me com a luta do Undertaker e sinto-me mais inútil do que um panda numa orgia. Há malta a aprender línguas! Línguas! Há pessoas que estão fechadas em casa e a aprender uma língua nova enquanto eu passei o dia todo sem usar a minha para dizer uma só palavra que fosse! E o mais estranho é que são às centenas. Eu chego ao ponto de pensar “queres ver que sou o único a abrir uma garrafa de vinho às 15 horas para ver o “Senhor dos Anéis”? Então mas esta malta está toda a fazer o caminho de Santiago na passadeira enquanto lê Tolstoi”?

E isto chateia-me. Não facto desta malta fazer coisas, acho muito bem que o façam, mas o facto de eu me sentir mal por não ter sido produtivo, como se esta quarentena me tivesse retirado o direito à preguiça. Acho que toda a gente tem direito a uns dias de apatia durante isto, penso até que é normal que assim seja (isto até dava um bom manifesto não estivesse eu com preguiça para o escrever), que haja dias em que, devido ao enfado, às preocupações, ao efeito de repetição ou ao sentimento de vida adiada, uma pessoa tenha necessidade de simplesmente desligar, corpo e cabeça. Mas parece que há uma certa pressão social para não os teres, para aproveitares todos os segundos que tens livres (no pun intended) para produzires alguma coisa, para melhorares alguma coisa em ti, para aprenderes coisas novas, para resolveres o problema de Israel e Palestina e encontrares a Atlântida, como se menos do que isso fizesse de ti pouco digno de ir apanhar sol à varanda.

O que quero dizer com isto, basicamente, é que: estás a ter uma quarentena super produtiva, já fizeste uma carrada de coisas que tinhas guardado para fazeres, todos os dias são uma aventura para ti e não são 4 paredes que vão impedir-te de aprenderes a fazer caça submarina porque-até-tens-banheira-e-é-quase-a-mesma-coisa-os-limites-estão-na-tua-cabeça? Óptimo, fico mesmo contente por isso e por estares a conseguir tirar o melhor de uma má situação, mas não julgues a malta que ainda não tirou o pijama, não os faças sentirem-se mal. Até porque, neste tempo de crise em que tantas empresas correm risco de fechar portas, são eles que impedem a falência da Dona Ermelinda.

E aqui ficam as sugestões do dia.

Comédia:

Taylor Tomlinson – Quarter-Life Crisis

Música:

Depeche Mode- Songs Of Faith And Devotion

Cinema:

Todd Haynes – Velvet Goldmine

Literatura:

Marquês de Sade – Justine ou os Infortúnios da Virtude

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