O cinema de animação na 18º edição do Monstra-Festival

Mais uma vez, Lisboa foi o palco nomeado para receber este ilustre festival de animação, conhecido pelo nome Monstra. Esta edição espalha-se pela cidade, no Cinema São Jorge, na Cinemateca, no Cinema Ideal entre outros locais. Encanta-nos com animações vindas dos quatro cantos do globo, mais de 500 filmes para o público em geral, onde se combinam várias técnicas, umas mais contemporâneas, outras mais tradicionais, umas mais abstractos outras menos, mas o que todas têm em comum é a capacidade de trazerem novos ventos de inspiração.

Este ano, a Estónia foi o país convidado pela organização, sendo ele o país europeu com maior produção de cinema de animação. Foram exibidos aproximadamente 140 filmes bastante diferenciados, trazendo à atenção do espectador a importância da historia do cinema de animação. Não esquecendo que a Estónia também foi o primeiro país da Europa a criar filmes em estereoscopia, e por isso o festival dedica-lhe uma sessão, só de curtas metragens estereoscópicas. Mas não é desta sessão que vamos falar, vamos focar-nos na sessão de competição  de curtas-metragens.

A primeira curta-metragem que nos apresentam, tem o nome de ‘Airport’ realizada pela Michaela Müller, uma produção entre Suíça e Croácia, e conta-nos uma distopia passada num moderno aeroporto cheio de passageiros similares. Um filme com uma animação muito bem trabalhada pela sua estética e narrativa, todo o filme contem pinceladas abstractas embora se perceba o suficiente para também ele ser realista, e inserir-nos dentro de um determinado contexto. Ficamos bastante atentos, porque é um filme que atravessa cores neutras, e por vezes aparece-nos informação com cores mais vivas, sejam placas, empregados de limpeza, ou seguranças, outra coisa que nos despertou curiosidade é inexistência de diálogos, embora tenha pequenos sons, e falas humanas, que criam um enquadramento social da situação. Vivemos nesta atmosfera confusa e não muito detalhada, passamos a identificar-nos com bagagens, filas, o check-in e o check-out, com toda a desordem de indicações e sinais, daqui para ali e dali para aqui…e assim se passa todo o filme, onde tudo acontece até as coisas mais  distantes e trágicas.

A segunda curta-metragem, ‘The Full Story’, de Daisy Jacobs e Christopher Wilder, vinda do Reino Unido. Começa de uma forma bastante chamativa onde vemos a casa de infância de Toby, um cenário muito colorido, cheio de pormenores pintados, como se fosse um quadro de padrões e cores combinadas. Toby anda a deambular pelas divisões do quarto, quando se apercebe que esta a revisitar memórias de criança, quando tudo se dividia entre a felicidade e o desgosto. A venda da casa transforma-o num velho trapo de lembranças que se mostram através de figuras humanas reais e a animação.

A terceira curta-metragem, chama-se ‘Negative Space’ de Max Porter & Ru Kuwahata com produção francesa, leva-nos até ao mundo de uma criança de 12 anos, e a forma como ele faz as malas. Uma animação bastante complexa e detalhada. Começa por ser curioso logo de início a temática oportuna de: como arrumar uma mala antes de viajar –  dobrar e desdobrar, enrolar, encaixar, tudo para que tudo caiba dentro daquele pequeno espaço. A criança aprendeu a arrumar tudo perfeitamente com o seu pai, de forma metódica e tradicional. As outras crianças, jogavam à bola com o pai, outros arranjavam o carro juntos, mas ele e o pai faziam malas, apenas malas. Mas é nesta onda sarcástica que todo o filme se amplia, entendemos onde encaixam as pequenas grandes coisas que fazem diferença na nossa vida afectiva. Neste caso, aquilo que importa não é o que estamos a fazer , mas sim com quem. Vemos meias, calças, cintos a passearem durante todo o tempo, mas o filme acaba de uma forma também ela muito bem pensada, vemos o pai da criança deitado no caixão. A criança aproxima-se do caixão e vê o pai ali sozinho, e diz “ Look at that empty space”. É aqui que tudo é posto de novo em retrospectiva, voltamos a repensar tudo aquilo que achamos que era superficial mas que afinal não é.

A quarta curta-metragem, ‘Late Season’ realizada pela Daniela Leitner de produção austríaca. Conta uma narrativa muito anedótica de um casal idoso e das suas memórias de juventude. Vemos fotos deles em novos, com uma vida bastante pitoresca, até nos apercebermos que a realidade deles agora é bastante lenta e acinzentada, sem sentimentos ou sensações, um sem o outro juntos na mesma casa. A realidade é lenta e feia, o casal desloca-se até à praia, estende a toalha, abre o chapéu e fica naquela onda de lerdeza até adormecer. É aqui que tudo muda, quando um caranguejo eremita, resolve largar a velha casota, e arranjar uma nova casa, o ouvido do velhinho, acontece o mesmo à velhinha. Cada um com um caranguejo eremita a habitar nos seus ouvidos, vemos as danças dos corpos, as deslocações na areia, vemos movimentos e interacções, ouvimos música e belos sons. E quando o casal acorda com uma onda em cima, encontram-se tão próximos um do outro que não entendem o que aconteceu, entendem que algo mudou e mudou para o que era antes, e  que era tão bom. A partir daqui tudo se torna um mundo de cor e luz, feliz e não sozinho. É um filme com uma temática divertida, com animações muito bem feitas, super dinâmico e que acaba também por ter uma mensagem intensa.   

A quinta curta-metragem, ‘Liberté’ de Jon Boutin, também ela uma produção francesa.  Um filme de 3 minutos que apela pelo pensamento sobre a vida e essencialmente pela palavra liberdade. Aparece-nos uma parafernália de coisas rápidas e desordenadas, e diz ele tudo para te poder conhecer e chamar-te liberdade.

A sexta curta-metragem desta sessão tem o nome de ‘Railment’ vinda do Japão e realizado por  Shunsaku Hayashi. Fala-nos do quotidiano e da sua constante repetição, encontramo-nos dentro do comboio com a personagem principal, passamos todo o filme dentro dele, vemos pessoas a sair e a entrar no comboio, rápido muito rápido. Percebemos que o que muda é a velocidade, velocidade dos passos e do próprio comboio. Todos os dias as pessoas repetem-se e fazem tudo aquilo, sair de casa a correr, correr para os transportes, e voltar a correr para os transportes e correr outra vez. Tudo se distorce e desaparece eventualmente como a personagem principal.  Quase dez minutos de plena rotina quotidiano, um filme bastante bem conseguido, muito artístico, tudo se transforma com as suas formas, cores, padrões, e os movimentos que aqui são tão preciosos.

A sétima curta-metragem, tem o nome de ‘The Box’, realizado por Dusan Kastelic com produção eslovena. Relata a falta de vida dentro de uma caixa azul, cheia de seres meio falecidos e miseráveis, até que nasce alguém que pensa fora da caixa, e não se deixar levar, só porque os outros 50 são todos iguais. Uma ideia simples, mas que dá que pensar, com uma animação muito bem feita e bastante detalhada, que junta algum humor e sapiência tudo na mesma caixa. 

E por último vimos a oitava curta-metragem portuguesa chamada ‘Das Gavetas Nascem Sons’, nestes seis minutos observamos as memórias do ouvido e as memórias da visão, uma viagem à infância toda ela uma experiência abstracta, que se transforma e desenvolve.   

Assim termina mais uma sessão de cinema de animação, que se encontramos na recta final da 18ª  edição do Monstra-Festival que acaba dia 18 de Março.

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