Mundo pequenino

Nenny / DR

Por estes dias, deve andar a catrapiscar o olho nos relacionados do YouTube um Tiny Desk de C. Tangana. Quem não conhece ou desconfia, tem todas as razões para perder o medo e arriscar ser bem recebido com uma mesa faustosa, preparada para a primeira apresentação global de El Madrileño: há comida e vinho, como não poderia faltar. Há convidados (Antonio Carmona, Kiko Veneno, La Húngara e Niño De Elche, por ordem de entrada em cena), rumba, flamenco, tradição, modernidade, mistura fina de sabores, calor, ritmo e alegria. E sobretudo, há mundo a brotar, quer deste showcase memorável, quer de um álbum que suplanta largamente o histórico de Tangana no rap e não tem pejo em chamar os Gypsy Kings para a festa sem desassombro nem paródia, entre outras lendas como a voz e o violão de Toquinho, parceiro de sempre de Vinicius de Moraes.

O sortido do castelhano é provavelmente o álbum hispânico mais importante desde El Mal Querer da ex-namorada Rosalía, mesmo que não venha a ser tão transversal. Podia até tratar-se de uma ilha, ou de um arquipélago exótico, mas está muito longe de se tratar de um sintoma individual. Embora a premissa seja o romance entre tradição e modernidade da cultura hispânica, Antón Álvarez Alfaro (n. 1990) pensou-o não apenas para o Reino de Castela, nem somente para a monarquia espanhola, para o mundo hispânico ou latino. É um acto de consequências globais, nem poderia ser de outra forma para uma geração habituada a pensar, comunicar e viajar sem barreiras. As ferramentas de difusão e distribuição são o TGV necessário para dar forma a um sonho iniciado na década de 80, quando figuras influentes como as de David Byrne e Paul Simon reconheceram em África uma mina e trouxeram ritmos e melodias distantes para a sua obra. Peter Gabriel foi ainda mais longe e fundou a Real World para dar voz à World Music. As intenções eram boas mas na prática, o rótulo de música do mundo foi sempre mais exclusivo do que inclusivo e resultou num olhar superior de resto do mundo do Ocidente para com as culturas de países periféricos.

Porém, não podemos continuar a olhar para o presente com os olhos do passado. A música popular está a descentralizar-se para além do eixo anglo-americano e os exemplos chegam de toda a parte. Burna Boy, Wizkid e Tiwa Savage dão cartas a partir da Nigéria; do Gana chega Amaraae; da África do Sul emerge o amapiano, subgénero que reimagina localmente o deep house; da América do Sul, Lido Pimienta, Bomba Estéreo, Chancha Via Circuito ou Nicola Cruz apontam outras hipóteses para além de J Balvin, Bad Bunny, Maluma ou Chucky73; o Brasil de Anitta, cada vez mais uma estrela global, é o mesmo país de Emicida, Elza Soares, Liniker, Luedji Luana e tantos outros; da Índia, Prabh Deep dá-se conhecer em Tabia, um dos mais notáveis álbuns de hip-hop dos últimos tempos; e até em centros de decisão como o Reino Unido, rappers como Pa Salieu trazem a batucada do Gana para dar corpo à poesia da rua. São muitos mundos dentro de um mundo cada vez mais pequenino.

A tecnologia explica muito mas não tudo. Enquanto o cânone pop/rock da segunda metade do Séc. XX se define pelas grandes melodias de Beatles, Elvis Presley, Pink Floyd ou U2, o Séc. XXI alimenta-se do ritmo. É para o corpo que esta(s) música(s) fala(m), antes de mais. A fisicalidade é o maior inimigo da radicalização. Tudo aquilo que a sociedade parece separar, a dança une. Isso, aliado a um cansaço do eixo tradicional do pop/rock (guitarra, baixo e bateria), e à proximidade da terra, justifica através da música aquilo que o digital empurra: a democratização dos processos criativos e a construção de comunidades locais, tantas vezes maiores e mais afectivas daquelas que durante décadas nos foram apresentadas, sem alternativa possível.

Esta é também a grande janela de oportunidade para a música portuguesa fazer parte de um circuito global. Os novos fados, o rap crioulo, e a lusofonia têm campo aberto quando o assunto é mistura, inclusão e pluralidade em nome da identidade. E nem se pode dizer que esta via não esteja electrificada. Nos últimos meses, o canal Colors projectou Dino D’Santiago, Nenny (que também acaba de gravar um episódio para o Tiny Desk integrado na Black Spring do festival Afropunk), Carla Prata e Mayra Andrade, com impacto à escala global. A feira internacional de exportação Womex realiza-se este ano no Porto e no próximo em Lisboa. Os primeiros sinais apontam para uma visão conservadora do tema mas aguardemos. E nem um ano sem circuito global travou o entusiasmo pelas expressões locais. Pelo contrário, esta avalancha universal não parou de crescer. Cada vez ouvimos e sentimos mais música de outros mundos. Cada vez estamos menos dependentes de Londres e Nova Iorque para sabermos quem somos através do que ouvimos. Habituámo-nos a olhar para este circuito como um restaurante exótico, agora ele está na nossa rua.

Nos últimos anos, e sobretudo em 2020, a política regressou à agenda criativa após anos de absentismo quase total. Feminismo, desigualdade racial e desemprego voltaram a estar na ordem do dia das canções. É uma excelente notícia mas politicamente nenhuma outra transformação é tão democratizadora e plural quanto a da descentralização da música popular.

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