MotelX 2019: “Carta Branca” a João Pedro Rodrigues

No âmbito das comemorações do seu 20° aniversário, a Agência da Curta Metragem promoveu o evento “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” que, durante um ano, percorrerá vários festivais de cinema. A organização do MotelX 2019 convidou o cineasta João Pedro Rodrigues para o efeito. Tal como acontece na montagem de planos nos seus filmes, o realizador programou 5 curtas portuguesas que dialogam entre si e com o género cinematográfico com diferentes graus de intensidade.

A sessão iniciou com “Plant In My Hand” (2014), de Pedro Maia, um filme experimental que explora o sentimento de losing someone we love, conforme nos diz a sinopse. O propositado desgaste da película confere ao filme uma textura muito peculiar, que, conjugado com os planos recortados do corpo e da face de Rita Lino e do espelho situado entre as suas pernas – que reflete uma rosa ou a luminosidade intensa do sol – proporcionam uma visceral e imersiva experiência. 

“Solo” (2012), de Mariana Gaivão, acompanha uma Bombeira (Isabel Abreu) em pleno período de fogos. O filme decorre sem diálogos, acompanhando a experiência da protagonista de forma intimista. As imagens do filme são trespassadas pelo cinza – do solo e do fumo – captadas pela câmara em planos estáticos ou movimentos subtis, numa tensão paralela à luta que contemplamos entre a mulher e a natureza.

Voltamos a encontrar uma mulher protagonista em “A Rapariga da Mão Morta” (2005), de Alberto Seixas Santos. O filme narra a história de uma insegura adolescente (Rita Martins) que faz de tudo para chamar a atenção da mãe. A curta é marcada por violentas elipses, que garantem ao espetador a liberdade de imaginar o que acontece nas partes intencionalmente omitidas da narrativa. A fragilidade e vazio interior da rapariga são projetados na prótese que substitui a sua mão, numa abordagem que encontra paralelo na curta seguinte da sessão.

“A Rapariga no Espelho” (2003), de Pedro Fortes, foi o prato forte do programa, no seu cruzamento entre o terror corporal de David Cronenberg e a multiplicação de dispositivos de captação de imagem (espelhos, câmaras, televisões) do cinema de Brian De Palma. Francisca (Núria Madruga) é promovida a responsável pelo teleponto de um programa apresentado por Vítor Stuart (Paulo Pires). Obcecada com o apresentador – ou com a imagem do mesmo, projetada nos ecrãs – Francisca aposta na sofisticação da sua angelical aparência, na tentativa de corresponder ao que imagina ser o ideal de mulher de Vítor. Uma alergia à lactose, aparentemente controlada, revelar-se-á o grande obstáculo na prossecução dos seus objetivos.

Por fim, “A Felicidade” (2008), de Jorge Silva Melo, um road movie, viagem entre a marginal (Cascais – Estoril) e o Hospital de Santa Maria, ao som de Mozart. A banalidade de uma conversa entre pai e filho, que é colocada em perspetiva pela voz off de Pedro Gil no final do filme, sobre o ecrã negro. Os planos no interior do carro e o prenúncio de morte, transmitem ao filme uma simultânea celebração e melancolia, que o aproxima bastante das obras do iraniano Abbas Kiarostami. 

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