László Krasznahorkai traz-nos a imutabilidade do mundo em “O Tango de Satanás”

"O Tango de Satanás", de László Krasznahorkai

László Krasznahorkai é, provavelmente, o mais famoso escritor húngaro vivo. Várias vezes associado ao, também húngaro, Béla Tarr (realizador que adaptou algumas das obras de Krasznahorkai ao cinema), são ambos, um na literatura e outro no cinema, manifestações do mesmo universo sombrio, brutal e implacável. Marcada por um obsessivo pessimismo e uma profunda angústia existencial, a obra de Krasznahorkai é a de um profeta do caos e tal está bem patente na sua primeira obra, O Tango de Satanás, agora traduzida do húngaro para português pelas mãos de Ernesto Rodrigues, em edição da Antígona.

Nesta sua primeira obra, de 1985, o foco é numa cooperativa em declínio, algures na Hungria, onde a chegada de um homem há muito dado como morto ganha contornos proféticos. Como em livros subsequentes, está presente a obsessão com a harmonia (e, consequentemente, com a desordem), quer em termos temáticos, estilísticos ou estruturais, e O Tango de Satanás está, portanto, estruturado como um tango, com seis passos, correspondentes a seis capítulos, para a frente, e seis passos para trás, cada capítulo um longo parágrafo sem quebras e pejado de frases longas.

A opressão inicial que se pode sentir sobre o texto é própria da obra de Krasznahorkai. Este não é um mundo fácil e, portanto, entrar nele requer esforço de imersão e compreensão daquilo que está em jogo. Nessa cooperativa, já toda a esperança desapareceu na ruína alastrante, a chuva não cessa e os habitantes deambulam, camponeses e lavradores, odiando-se enquanto cobiçam as mulheres uns dos outros, um mecânico, o director da escola, um doutor, constantemente bêbedo, que observa obsessivamente os vizinhos da janela e escreve os seus passos num caderno, duas jovens prostitutas, a sua bêbeda mãe, o seu perverso irmão e a demente irmã mais nova.

László Krasznahorkai / Fotografia de Valuska Gábor

Como escape, o plano de alguns incluía fugir com o dinheiro que sobrava à cooperativa, mas, com o anúncio da chegada profética de Irimiás (e do seu ajudante Petrina), um homem dado como morto e no qual depositam uma cega confiança por algo que terá tido lugar no passado, abortam o seu plano a braços com um novo raio de esperança e, como quem espera por Godot, reúnem-se no bar da cooperativa, cheio de teias de aranha (na verdade, as teias que os envolvem a eles, personagens), discutindo, bebendo e dançando.

Não é apenas a espera, os próprios Irimiás e Petrina têm algo de Beckettiano, e é ao mesmo tempo trágico e cómico que os habitantes da cooperativa acreditem ver chegar a sua salvação na figura de alguém que, mais do que vigarista, revela ser um oficial subalterno dos serviços secretos, também ele um peão na mão de outros.

Os relatórios que escreve são alterados por funcionários desses mesmos serviços secretos antes de serem apresentados ao chefe (que, em princípio, os arquivará sem nunca os ter lido), e Krasznahorkai deleita-se em pôr estes burocratas medíocres a criticar a prosa do relatório de Irimiás, em tudo idêntica à do próprio Krasznahorkai. Incompreensível, dizem eles, trocando-a pela mais banal linguagem.

Se O Tango de Satanás pode parecer uma crítica à colectivização e ao regime comunista no qual a Hungria estava instalada, acaba, mais que isso, por ser uma constatação da imutabilidade do sistema. Até porque o próprio livro parece ausente do tempo, premente uma imobilidade arrasadora. O doutor, que da janela da sua casa observa os restantes, acredita poder intervir sobre a vida deles ao escrevê-las no seu bloco de notas, e, no fundo, toda essa observação é aquilo de que é constituído o livro, porque o narrador é afinal o doutor, mas a sua capacidade de intervenção cinge-se, afinal, a não mais do que a dos restantes. No fim há o início e tudo isto é um tango que se repete, e repete, e repete. Um círculo hermeticamente fechado, de onde a possibilidade de salvação está ausente, e onde Satanás dança com todos.

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