Joan Baez trouxe a Lisboa uma última noite do seu folk de intervenção

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

O tempo passa. Hoje vivemos o tempo em que os jovens que ajudavam a revolucionar o panorama musical nos anos 60 estão agora a celebrar o seu 70º ou 80º aniversário. É admirável assistirmos à dedicação destas pessoas que ainda se dispõem a sair do seu país e a viajar de cidade em cidade para partilhar com quem os ouve desde sempre as canções que foram banda-sonora de tantas vidas. O tempo passa mas há quem permaneça, ao fim de muitas décadas – e as canções sobrevivem enquanto haja quem goste de as ouvir. Ao entrar no Coliseu dos Recreios na noite de sexta-feira, 1 de Fevereiro, vi-me rodeado de muitos rostos que tiveram o privilégio de assistir em primeira-mão às voltas que a música dava nos meados do século passado, e que revolucionaram o cânone daquilo que ainda hoje é percebido como a música moderna. Rostos de quem, pela escuta activa do que andava à ser feito, participou dessa forma no movimento. Rostos de quem quis marcar presença na última digressão mundial de Joan Baez.

A artista americana afirmou, numa entrevista dada o ano passado à revista Uncut, que a Fare Thee Well Tour marcaria a sua despedida dos palcos. Garantiu vir a regressar a estúdio e continuar a gravar música; mas não voltará a dar espectáculos ao vivo. Foi Lisboa a cidade escolhida para iniciar esta última viagem pela Europa, que correrá mais 12 cidades antes de atravessar o oceano e prosseguir nos Estados Unidos. Os bilhetes para o concerto no Coliseu esgotaram no início do outono, quatro meses antes da data. Sentia-se na sala o calor humano de quem queria receber uma das precursoras do folk contemporâneo – a carreira de Baez contribuiu para o desenvolvimento do género no início dos anos 60, e prolongou-se pelas décadas seguintes.

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

É debaixo de uma enorme ovação que é recebida em palco. Sozinha, com a sua guitarra, centrada. Quase toda a plateia se levanta para a aplaudir. Baez agradece o carinho do público português, e toca três canções de seguida, sem mais nenhum acompanhamento senão o do seu próprio dedilhado: “Don’t Think Twice”, “There but for Fortune” e “Farewell Angelina”. A simplicidade do folk que é capaz de emocionar: as palavras que se passeiam, convocando histórias e emoções, sobre uma bonita síntese melódica e harmónica – como se as composições se estivessem a poupar, e nessa reserva se potenciassem. Mas daquele ponto em diante juntam-se-lhe no palco mais dois músicos (um deles filho da própria artista), cujos apontamentos à guitarra, no banjo, baixo, violino, piano, bateria…. abrilhantam de pormenores os temas da cantora.

Baez interpretou quatro canções que apenas lançou no último álbum. Deixo-lhes aqui uma nota de destaque porque estiveram entre os mais bonitos do longo reportório que apresentou no Coliseu (foram quase 25!) – mostrando que ao fim de 77 anos permanece motivada para fazer boa música, e com sensibilidade para lhe conferir aquele sopro doce do seu jeito para as palavras. “Whistle Down the Wind” e “Silver Blade” foram os dois primeiros. Foi comum ao longo da noite termos direito a breves prefácios antes do início de cada canção, em que nos era oferecido um breve contexto sobre o conteúdo das letras. Porque as letras importam muito na música de Baez – ela que avisou bem cedo no concerto que iria tocar várias canções do mestre Bob Dylan.

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

As palavras da música de Baez reflectem o activismo com que sempre viveu; e que foi marca da sua carreira. “Deportees”, um tema de 1948 sobre imigrantes mexicanos que morreram numa travessia aérea rumo aos EUA, é repescado numa alusão directa à crise migratória actual que se vive entre aqueles dois países. “President Sang Amazing Grace” alude ao momento em que Obama cantou num memorial às vítimas de um tiroteio numa igreja episcopal metodista (arrepiante momento no Coliseu). “Silver Blade” numa alusão à progressiva emancipação das mulheres ao longo das últimas décadas. Ou – é possível querer-se um exemplo mais flagrante? – uma interpretação a capella de “Grândula Vila Morena”, cantada em português!, e que teve direito a uma das mais prolongadas ovações da noite. O público acompanhou a plenos pulmões e marcando o ritmo com o bater dos pés no chão – pormenor espontâneo que emocionou Joan no início da segunda estrofe.

Mas os momentos mais comoventes que o público teve a oportunidade de assistir foram precisamente aqueles em que Baez abordou a passagem do tempo, a idade e a finitude. Numa noite em que se sentia o sabor agridoce de uma despedida dos palcos, ouvimos “Hello in There”, uma canção que fala sobre a condição de se ser idoso (“agora também já sou velha!”, brincou Joan, que gravou o tema originalmente nos anos 70). “Another World”, um cover de Antony and the Johnsons, é um arrepiante retrato de um fim iminente, que se contempla, e uma ode à beleza da vida. E em “Forever Young”, já no segundo encore, somos encostados à cadeira – momento para guardar para sempre. O silêncio, a atenção, e o sorriso nos rostos dos que me rodeavam: tudo tão precioso. Sentia-se o pulso da felicidade e da gratidão. Nas primeiras filas vê-se um braço a estender-lhe um ramo de flores. Baez recebe-o, faz sinal que tem de ir dormir, e despede-se com um sorriso largo e o braço estendido. Foi uma noite cheia, musical e humanamente.

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