Hoje à noite n’O Sótão. Navegando pelas heranças da música lusófona com João Selva

Capa do disco

O segundo álbum de João Selva, depois de Natureza, de 2017, é um verdadeiro hino à tropicalidade crioula. Navegar está imbuído de texturas de funk, disco e muita brasilidade, transformando um diário de viagem numa exuberante colecção de oito faixas. João Selva é o embaixador da música brasileira em França, nunca falhando em transmitir um melancólico desejo por felicidade, que é, ao mesmo tempo, doce e amargo. O contexto negativo político e social do seu país faz com que Selva aposte em mensagens de resiliência e tolerância que clamam pela união do seu país e daqueles que falam a sua (nossa) língua. Contando com a preciosa produção de Bruno Hovart (também conhecido como Parchworks, Voilaaa, Mr President ou Uptown Funk Empire), Navegar foi gravado no fim de 2019, depois de uma volta pelo Brasil em que os dois combinaram a inspiração da viagem com o amor pela herança musical dos países lusófonos que partilham o Atlântico.

Em oito faixas, João Selva leva-nos por momentos que combinam uma belíssima poesia, carregada de um realismo fantástico — muito característico da literatura sul-americana do século XX —, com irresistíveis ritmos de forró, kompa, funaná ou semba. Navegar liga Salvador a Luanda ou o Rio à Praia, através da língua de todos os nós. Mas não só. Liga-as também através de uma energia viciante que inclui todos numa grande festa multicultural. João Selva lidera essa festa até ao raiar do dia, transportando-nos para dentro de um calor tropical. Estamos perante um nómada brasileiro a navegar livremente por este Atlântico que tão bem conhecemos. Editado pela Underdog Records, Navegar está disponível em vinil e é um dos melhores discos de música cantada em português de 2021.

E ainda…

O duo italiano Stump Valley volta-se para os anos 80, para nos levar pelas sensações inesquecíveis do lendário Melody Mecca Club, em Rimini. Melodj Mecca é o nome do seu mais recente EP, profundamente inspirado no movimento musical do qual o Melody Mecca foi precursor desde 1981, o qual atraía ‘peregrinos’ vindos de todas as partes de Itália. Disponível em vinil através da Soul Clap Records, este é um pequeno projecto de quatro faixas que combina as profundezas do deep house com a espiritualidade dos sons cósmicos provenientes de África.

O Sotão é uma webmagazine focada no mais alto quilate da música lançada por artistas e editoras independentes. Junto com a Comunidade Cultura e Arte contribui semanalmente com a rubrica Hoje à noite n’O Sótão, onde apresenta um novo projecto de música independente; e mensalmente com Álbuns com Pó.

Se quiseres ajudar a Comunidade Cultura e Arte, para que seja um projecto profissional e de referência, podes apoiar aqui.

Exit mobile version