Filipe Sambado: ‘É um disco mais sobre mim na sociedade e não tão de mim para mim’

por Sara Miguel Dias,    18 Abril, 2018
Filipe Sambado: ‘É um disco mais sobre mim na sociedade e não tão de mim para mim’
Filipe Sambado / Fotografia de Beatriz Gaspar – CCA
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Na véspera do lançamento do seu segundo LP, homónimo e com os Acompanhantes de Luxo, encontrámo-nos com o Filipe Sambado, cantautor, produtor e impulsionador de uma geração nova de músicos que se anda a fazer sentir na cena musical Lisboeta. Ainda que adoentado, numa tarde em que se manifestaram as quatro estações do ano, Sambado cedeu um pouco do seu tempo para nos aguçar a curiosidade e deixar algumas reflexões sobre o processo que resultou neste sucessor do aclamado Vida Salgada, Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo, disponível no Bandcamp desde sexta-feira, 13 de Abril.

Para começar, uma coisa que salta logo à atenção por comparação ao álbum anterior é o facto de o partilhares com Os Acompanhantes de Luxo, em vez de fazeres o álbum só em nome próprio, como no Vida Salgada, em que tinhas sido tu a gravar tudo.
Sim, teve a ver com o processo de concertos. Nós como andávamos a tocar juntos achámos que faria sentido ter este disco em conjunto, e como tínhamos algum receio que no futuro as agendas de cada um deixassem de coincidir, ou eventualmente mudar alguns elementos da banda, fazia sentido que agora pudéssemos guardar este registo. Foi isso, acabámos por partilhar o processo criativo. Eu trazia a base das canções e eles faziam os arranjos, e etc.

E a produção? Que também optaste por ceder.
Basicamente eu já queria trabalhar com o Rui [Antunes] num disco meu e não tinha acontecido no anterior e neste já tínhamos falado disso e fazia sentido. Entretanto apareceu o convite da Valentim [de Carvalho], mas já estava decidido o percurso que ia ser feito, portanto manteve-se.

Exacto, este álbum vai ser editado pela Valentim de Carvalho, não é? Mudaste, nunca tinhas editado com eles.
Não, nunca tinha feito nada com uma editora assim maior. Houve um convite da Valentim, o Rui Portulez, que é o AR da Valentim, viu um concerto meu no Lounge e veio ter comigo, e depois tivemos umas reuniões para definir o percurso que poderia fazer e surgiu um convite de quatro discos, que é o que vamos fazer.

Filipe Sambado / Fotografia de Beatriz Gaspar – CCA

Relativamente àquilo que já tinhas feito antes sonicamente, o que fizeste de diferente neste álbum?
A nível de composição salta muito à vista a participação deles, ganha um cunho que lhes pertence e contribui para o disco. Depois a nível estético de produção, havia um lado que me interessava retirar daquilo que andava a fazer, e ganhar com aquilo que eu vejo no trabalho do Rui, que trabalha mais com a distorção e não com efeitos – se bem que o disco acaba por ter muitos efeitos que acabam por vir mesmo dos instrumentos e não das vozes, as vozes são sempre vozes mais limpas. É um disco que acaba por estar mais ligado entre si, nesse sentido sónico.

E tematicamente há alguma ligação transversal entre as músicas?
Entre as músicas? Sim, é um disco que é mais sócio-político ou assim, que é um disco sobre mim nestes dois anos, mas mais sobre mim como indivíduo na sociedade e não tão de mim para mim e nas minhas emoções, como foi o Vida Salgada, que foi um disco mais emotivo. Este, a nível temático, é mais parecido com uma “Telhados de Vidro” ou mesmo uma “Aprender e Ensinar” e não tanto com a “Vida Salgada” ou a “Nó do Peito”.

Então optaste por tomar uma rota, mais do que pessoal, narrativa.
Ela continua mesmo a ser só pessoal, a diferença é que na fase emocional em que estava optei por me agarrar menos aos sentimentos e tentar falar mais de como tinha de sair de certos sítios. E problemas maiores impõem-se para além dos problemas emocionais, problemas económicos ou assim, então acaba por ser um disco mais de problemas de adulto.

Relativamente aos singles, lançaste a “Deixem lá”, que já tens tocado em concertos, e agora a “Só Beijinhos”, porque escolheste estas duas músicas?
Sim, sim, já as tenho vindo a tocar muito em concertos há algum tempo. Na verdade a “Só Beijinhos” foi um presente, não é single de saída. A “Deixem Lá” é o primeiro single, o próximo será a “Alargar o Passo”, e a “Só Beijinhos” era mais um miminho para enquanto o disco não saia ir pondo qualquer coisa na net. Escolhi estas mais naquela perspectiva comercial, não sei, de chamar à atenção talvez por serem mais catchy, acho que foi mais por aí.

Por falar em ser mais catchy, ou chamar mais a atenção, acho que foi com o “Vida Salgada” que as pessoas começaram mais a saber quem tu eras.
Sim, a prestar mais atenção

E isso parece ter surgido um bocado numa fase em que se viu a Vodafone.fm, ou a Antena 3, a prestarem mais atenção à música portuguesa. Achas que esse prestar mais atenção se deveu também a esses meios, como também ao facto de te teres esforçado para fazer música que pudesse mais facilmente ser consumida?
Não sei, há varias coisas que aconteceram nas rádios portuguesas que permitiram a muitos artistas ter mais alcance e vice-versa, acho que a música portuguesa também tem crescido e tem merecido uma atenção maior. Da parte das rádios, por exemplo, sei que numa altura a Antena 3 tinha uma cota obrigacionista de música portuguesa a ser transmitida. No caso da Vodafone não é assim, que não é uma rádio pública por isso não tem serviço público a cumprir, mas a Vodafone sempre foi muito ligada a músicos portugueses, tal como a Radar e agora a Super Bock também estão a fazer. Acho que é as duas coisas, eles começaram a apostar mais, mas eu não sei quem é o ovo nem a galinha nesta equação. Realmente a música portuguesa tem vindo a melhorar bastante, tem havido um gosto particular em cantar-se em português e já não há aquela coisa de não se querer que as bandas portuguesas cantassem em inglês, agora está tudo mais proliferado e aceite. Independentemente de que língua cantares, desde que faças um bom trabalho, está tudo a fluir.

Pois de facto parecia que as bandas que cantavam a inglês eram um bocado shunned da sociedade há uns tempos.
Sim, eu senti isso, parecia que bandas que cantavam a inglês eram um bocado tratadas como personas non gratas ou assim. Agora está mais fixe. Desde que faças bem e com a intenção certa, a malta vai prestar atenção.

Filipe Sambado / Fotografia de Beatriz Gaspar – CCA

E quanto às músicas que ainda não saíram, que vão sair amanha, há alguma que estejas particularmente curioso de ver a reacção?
Tenho curiosidade com o disco todo, que vai tendo varias oscilações de ímpeto, e isso é interessante. É um disco com muitos singles, muita música imediata, e por isso estou um bocado curioso com o disco em geral. Agora assim de repente vem-me à cabeça a “Onda” que é uma música mais garageira e violenta do que as outras. Mas acho que o disco no geral vai ser bem recebido.

Houve alguma coisa que tenhas ouvido neste últimos tempos que tenha influenciado o som do álbum?
No início, quando estava a começar o disco, andava a ouvir muito The Stooges e muito Fleetwood Mac. Depois já não estava mais a ouvir tanto isso, numa fase final estava a ouvir muito o Eccojams e o Floral Shoppe de Macintosh Plus, e estava mais nessa de vaporwave e houve uma certa prevalência na parte da estrutura das músicas, que acaba por ser contaminada por isso. Não se nota muito, notou-se mais para nós, no processo de fazê-las, não tanto no resultado, que elas não soam a vaporwave de todo, é mais na construção das partes, como elas se repetem, como encravam entre si, secções musicais que ficam meio encravadas e em repetição em loops curtos, mas no todo da música elas soam a canções normais. Por exemplo, a vaporwave não tem em consideração a estrutura da canção, e nós mantemos a estrutura da canção.

Então preferes criar as tuas músicas com uma estrutura definida?
Não sei, não sei como prefiro. Há musicas que são muito imediatas, eu faço muitas musicas na cabeça. Faço muitas letras ao telemóvel, acontece ter uma letra e ter já uma melodia construída na cabeça, gravo muito ao telemóvel quando também estou a trabalhar, etc, e acabo por fazer muitas canções quase inteiras só com a melodia de voz ou a letra e só depois é que começo a trabalhar a guitarra, ou assim. Há músicas em que acontece ao mesmo tempo e outras que acontecem de fazer uns riffs que me interessam e não quero desperdiçar, e acabo por depois pegar numa letra que já tenho escrita e transpô-la para aquela; não tenho uma maneira muito certa de o fazer. Estruturalmente, se a musica permitir isso, como tenho às vezes canções um bocado cronológicas – a maneira como é escrita, primeiro vão abrindo leituras, depois fechando leituras ou qualquer coisa do género -, nessas alturas não posso estar a mudar as letras. Se for possível é o tipo de experiência que poderei fazer e às vezes faço. A música em que se nota mais esta questão das partes e construções é a “É Tu”. Nessa música nota-se bastante esse trabalho. Na “Indumentária” também se nota ligeiramente as tais quebras e repetições, mas acaba por ser a voz que lhes dá a estrutura de canção, vai fazendo o seguimento e ligando as partes.

E quando estás a criar, preferes que o teu processo criativo seja continuo, vá acontecendo, ou focas-te em retirar um pouco do teu tempo para isso?
Eu sou muito disperso, na vida, no geral. Sou o tipo de pessoa que está em casa e tem tarefas para fazer, tem de arrumar a casa, mas depois encontra não sei o quê e começa a tratar daquilo…

Procrastinação?
Não é bem procrastinar, porque eu fico com as tarefas mais ou menos feitas. É tipo, tenho de arrumar a gaveta das meias e prefiro ir lavar a louça. Nunca acabo a tarefa toda ao mesmo tempo, paro e vou fazer outra, depois volto àquela mais tarde, talvez no intervalo de outra que seria a principal naquela altura. E isso acontece um bocado com as músicas, não tenho um tempo dedicado a música muito estruturado, tento tê-lo quando vou para o estúdio, que são horas que tiro para ir para lá e estou a fazer só isso, mas mesmo aí acabo por fazer a mesma coisa da gaveta das meias: o objetivo hoje é fechar esta canção, mas não, vou pegar noutra ou começar outra de início e deixar aquela um bocado a meio, então acaba por ser assim, nunca fico a fazer uma canção até ela estar acabada, depois elas vão-se acabando aos poucos, quase na mesma altura.

Visualmente falando, qual foi a inspiração para o videoclip da “Deixem Lá”?
Nós tínhamos a certeza que não queríamos um vídeo muito ilustrativo da letra, mas tínhamos a ideia da disrupção de normas e tentámos criar uma visão de um preconceito daquilo que é uma estrutura de trabalho muito normativa: um gajo que trabalha num escritório, tem amigos no trabalho, uma namorada, só que tem uma cara que é um alien. Então a ideia era: ele vive num mundo super normativo, nada preconceituoso com a cara dele, toda a gente o adora sendo ele como é. E depois aparece uma segunda pessoa com o mesmo tipo de cara, e ele de certa forma começa a sentir uma falta de privilégio, porque afinal haver alguém parecido com ele pode ser mais chato do que para os amigos dele é ele ser diferente. Acaba por brincar um bocado com essa ideia, tivemos várias noites em conversas, eu e o Gonçalo Soares, no início até tínhamos a ideia do assalto a um banco, mas ia ficar muito caro o vídeo, e desistimos da ideia.

E as legendas?
Foram da autoria do Gonçalo, eu dei lhe liberdade total para o fazer e ele pôs ali um bocado aquilo que é o nosso calão, e o calão de uma série de pessoas hoje em dia. Era para tentar, em vez de fechar leituras, ir abrindo mais. Muitas vezes as legendas nem têm nada a ver com o que está a acontecer, é para quebrar ainda mais o ritmo do que está a ser visto.

Continuando um bocado no aspecto visual, a apresentação é algo com que te preocupas muito, por exemplo, quando vais dar um concerto, uma actuação, seja pela forma de te vestires, e mesmo naquilo que estás a expressar nas músicas, como na “Deixem Lá”. Isso é algo que tens querido desde sempre manifestar ou algo que tens achado cada vez mais importante falar, na libertação sexual, igualdade?
Eu acho extremamente importante todo o trabalho e luta que está a ser feita pelo trato de igualdade de direitos entre todo o tipo de géneros, transgénero e possibilidade da terceira via também. Mas isto surge em vários momentos, de certa forma eu sempre fui uma pessoa que precisou de se expressar visualmente, e à medida que fui ganhando confiança para o fazer em concertos também fui ganhando confiança para o fazer no meu dia-a-dia. Isto começou um bocado na altura em que comecei a pintar as unhas, que era só isso, e comecei a ter cada vez mais vontade de vestir isto ou aquilo, e a partir do momento que o comecei a fazer no meu dia-a-dia começou também a ter uma repercussão social, na rua e tudo mais, e comecei a ter que lidar com coisas que não lidava, e daí vem a necessidade de falar sobre essas coisas, porque não poderia falar deste tipo de assuntos sem usar uma saia na rua e começar a ouvir bocas. Antes de o fazer não poderia escrever sobre o assunto. Agora que o faço e passo por algumas situações, começo a ter assunto para isso.

E ok, tu costumas-te apresentar de uma certa forma, mas houve um concerto na ZdB em que deste o concerto…
Todo nu. Porque nessa altura andava a apanhar com alguns comentários preconceituosos de pessoas que eu não esperava e basicamente foi uma maneira de dar resposta a mim próprio, a esse assunto. Em todas estas questões de género, de que eu também faço parte ativamente através da Maternidade e do apoio que dou ao Rama em Flor, ou da bolha social em que vivo e as pessoas com quem me dou, eu fazendo parte deste conjunto de pessoas que tenta fazer alguma coisa, e não tendo uma orientação sexual considerada homossexual, as razões que tenho para falar de algum assunto são sempre de apropriação indumentária, o lado queer que eu tenho tem sempre mais a ver com a roupa. Como esta transformação começou a ser feita neste período entre o Vida Salgada e agora, que também teve a ver com uma fase de descoberta pessoal e liberdade, é quase um jogo de máscaras ao contrário. Eu sentir que estou quase mascarado por ter que ser muito heteronormativo na minha roupa em vez de quando ponho o meu batom e o meu rimmel quando vou sair à noite, ou o meu vestido de renda. Parece que houve certas pessoas que começaram a achar que isto é que era uma máscara, e que não devia estar a fazer este tipo de escolhas. Esse concerto da ZdB acabou por ser um despir, um “então e se eu tirar a roupa toda, o que é que vocês têm para dizer agora?”. Daí ter vestido o manequim – a ideia era até ter um manequim que representasse o corpo feminino, mas acabei por não conseguir arranjar, sem problema -, vesti-lo com uma roupa minha, entrar, despir-me, dar o concerto todo nu de costas, e responder assim a esse tipo de comentários. E fiquei muito contente com esse concerto, por acaso, correu muito bem.

Curioso, sempre pensei que tivesse sido por teres lançado a “Ass Ambado” pouco tempo antes.
Não, não, a “Ass Ambado” é uma musica que é uma boca a outra pessoa, só isso.

Para finalizar, o que podemos esperar nos concertos de apresentação?
Então, o alinhamento vai ser o mesmo, vai ter umas músicas do Vida Salgada e duas do EP. No Lux vai ter a primeira parte das Ninaz, que são uma das bandas que mais acarinho neste momento, e gostava que fossem elas a fazer a primeira parte. Esperemos que seja uma noite divertida, boa música pelo menos, e bom ambiente.

 

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