Fernando Pessoa e as máscaras

Durante a pandemia de covid-19, o uso de máscaras revelou-se uma medida eficaz para prevenir a transmissão da doença da doença. Ultimamente têm passado por nós, na rua, máscaras de todos os materiais, formas, cores e feitios. Contudo, as máscaras nem sempre serviram o propósito de proteger o rosto, ocultando a expressão. No teatro da Antiguidade, além de sublinharem as feições das personagens em palco, faziam ressoar a voz do ator pela plateia, destacando a sua representação. O próprio Fernando Pessoa declarava, em carta a Adolfo Casais Monteiro: “o que sou essencialmente — por trás das máscaras involuntárias do poeta (…) — é dramaturgo”. Nesse sentido, os heterónimos foram as máscaras que permitiram projetar a obra de Pessoa, “plural como o universo”, até aos nossos dias.

Neste contexto, Fernando Pessoa dificilmente encontraria melhor apelido. O seu nome próprio foi atribuído em homenagem ao santo do dia em que nasceu que, tendo Fernando como nome de batismo, mais tarde o trocaria por António. O apelido Pessoa, herdado do pai, deriva, etimologicamente, do termo latino ‘persona’ que, na Antiguidade, designava as máscaras utilizadas, no teatro, pelos atores. 

Deste modo, no “dia triunfal” da sua vida, o seu “drama em gente” subiu ao palco da sua cómoda alta, no “teatro íntimo do ser”. George Steiner, em As Artes do Sentido, destaca que “é raro um país e uma língua ganharem num só dia quatro poetas maiores.” Nesse dia, segundo o poeta, foi o que supostamente aconteceu. Fernando Pessoa multiplicou-se em vários, fragmentou-se em outros, sendo a soma das partes maior do que o todo. Atrás de cada máscara existe uma fisionomia própria, uma personalidade distinta, uma biografia original, um estilo ímpar. Estas máscaras conferiam identidade a cada rosto, isto é, a cada obra poética.

Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos, foi a primeira máscara a entrar em cena. Era louro e de olhos azuis. Tendo apenas a instrução primária, não trabalhava, vivendo de um pequeno rendimento. Com uma linguagem espontânea e objetiva, recusa qualquer metafísica. É o “Descobridor da Natureza”, o “Argonauta das sensações verdadeiras”, o poeta das árvores, das flores, das ervas, dos rios e das pedras. 

Seguidamente, Fernando Pessoa regressou a si próprio. Era um homem de perfil esguio, rosto oblongo e bigode triangular. Usava pequenos óculos redondos, chapéu de feltro e gabardina, quase sempre. Trabalhava como correspondente estrangeiro em casas comerciais. Era frequentador assíduo dos cafés da Baixa lisboeta, entre os quais, A Brasileira e o Martinho da Arcada. “O poeta é um fingidor” — a poesia do Pessoa ortónimo procura exprimir intelectualmente as emoções, revelando um conflito permanente entre o pensar e o sentir. A dor de pensar e a fragmentação do eu são temas recorrentes na sua obra.

Depois de redigidos os poemas de Chuva Oblíqua, outra máscara surgiu — o heterónimo Ricardo Reis, moreno e “um pouco mais baixo, mais forte e seco que Caeiro”. Médico de formação, exilou-se voluntariamente no Brasil, por ser monárquico. Nos seus poemas, procura seguir os modelos da Antiguidade Clássica, na sua solenidade marmórea. O seu epicurismo triste busca, em vão, uma aceitação da finitude da vida.

Por último, entrou em cena Álvaro de Campos, de cabelo liso, apartado ao lado e usa monóculo. Estudou engenharia na Escócia. É o poeta da modernidade, da civilização e da técnica, dos “maquinismos em fúria” que pretende “sentir tudo de todas as maneiras.”

As suas máscaras, porém, não ficariam por aqui: o Barão de Teive, António Mora ou Raphael Baldaya são apenas alguns exemplos, além de Bernardo Soares, autor do célebre Livro do Desassossego que, por ser um semi-heterónimo, é apenas meia-máscara, tal como Alexander Search, autor de inúmeros poemas em língua inglesa, entre os quais Day of Sun, que se tornou um êxito na voz do cantor Salvador Sobral.

Importa sublinhar que os heterónimos não são alter-egos ou pseudónimos. “O autor não esconde um mesmo texto sob nomes diferentes: ele é vários autores apenas e na medida em que é vários textos” (Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado). Estas máscaras oferecem a Fernando Pessoa a possibilidade de criar sujeitos poéticos que não ele-mesmo.  

Em vida, Fernando Pessoa publicou apenas um livro de poemas em português (Mensagem), além da sua colaboração em revistas literárias de vanguarda, com destaque para Orpheu. Hoje em dia, é sobretudo lembrado pela genialidade das suas criações heteronímicas. Quando a sua vida se extinguiu, a representação chegou ao fim, a cortina desceu. Os aplausos viriam apenas mais tarde, depois de desconfinadas as máscaras, da arca onde guardava os seus poemas. 

Crónica de Carlos Lemos
O Carlos é Médico e assistente convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

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