Entrevista. Raquel André: “Como é que um artista se torna artista?”

por Miguel Fernandes Duarte,    15 Setembro, 2019
Entrevista. Raquel André: “Como é que um artista se torna artista?”
Raquel André / Fotografia de Afonso Sousa
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Depois de Colecção de Amantes e Colecção de Coleccionadores, Raquel André está de volta com Colecção de Artistas, o terceiro movimento da sua colecção de pessoas, para ver no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 18 a 29 de Setembro. Falámos com ela sobre o seu novo espectáculo e sobre como todo este projecto começou.

Miguel Fernandes Duarte: Começo por perguntar como foi que começaste a coleccionar pessoas.
Raquel André: Comecei a coleccionar pessoas em 2014, quando estava a viver no Brasil. Emigrei para o Rio de Janeiro. Primeiro era para fazer uma residência artística de 5 meses e fiquei lá 7 anos. Mas foi muito transformadora, essa mudança. Sair de Portugal para o Brasil, um oceano de distância. Não é assim aquela emigração de ires para França, para a Europa, mudas radicalmente de paisagem. Foi quando percebi de onde vinha. Mais até do que conhecer os outros e essa nova cultura brasileira, foi muito conhecer-me a mim, perceber de onde vim. Esse distanciamento deu-me essa possibilidade. Já tinha trabalhado com coleccionismo em colecções anteriores, em dupla com o Tiago Cadete. Tínhamos feito outras criações através de colecções, mas de objectos. No Brasil, primeiro comecei nesta curiosidade sobre mim, sobre o outro. De repente, atravessas um oceano e estás com pessoas que falam a mesma língua que tu, mas que parece outra língua. Têm uns hábitos e cultura parecidos com os nossos, mas é toda uma experiência e modos de estar e de relação, também, de corpo-a-corpo. Talvez por causa da temperatura e por fazer muito calor haja muito mais corpo, uma relação de afecto e proximidade diferente.

MFD: E de que forma é que isso afectou o teu processo de criação?
RA: Um processo de criação nunca acontece assim de forma linear, mas nessa altura eu estava a mudar muitas vezes de casa porque não conseguia fazer um contrato de casa, estive ilegal durante muito tempo. [risos] Então, em 4 anos, mudei 14 vezes de casa. Comecei a questionar-me o que era isso de ter uma casa, se a minha casa era aqui, se era lá. E também era uma idade muito específica. Morei no Brasil entre os meus 24 e 30 anos, aquela altura de emancipação, de passar para a fase adulta, sozinha, mulher e artista no Brasil. Numa dessas casas eu tinha um vizinho por quem passava todos os dias. Sabíamos que eramos vizinhos e cumprimentávamo-nos com aquele sorriso de “bom dia”, mas nunca falávamos, e isso começou a intrigar-me. Como é que começamos a falar com alguém? Porque é que às vezes estás com um desconhecido no autocarro e começas a falar com essa pessoa e contas coisas super intensas? Ou então estás a trabalhar no escritório com alguém durante anos e nunca tiveste a intimidade de contar alguma coisa mais intensa, mais íntima. Porque é que há pessoas com quem essa fronteira da intimidade é atravessada muito facilmente e com outras não? Como é que se entra na casa de uma pessoa? O que significa entrar em casa de alguém? O que é isso de abrires o teu espaço? E depois, metaforicamente, o que é isso de abrires a tua intimidade a alguém? Porque às vezes até podes convidar alguém para a tua casa e não estar a ser nada íntimo. Depois, também questionando todas as relações contemporâneas, a tecnologia, em que fotografamos tudo, comprovamos tudo. E enquanto estamos a comprovar estamos a viver ou estamos a comprovar que vivemos? Como é que a tecnologia está nas relações contemporâneas? Costumo dizer que os meus pais não tiveram imagem entre eles. Hoje em dia quando vais conhecer alguém fazes um google search antes de conhecer aquela pessoa. Tu já viste mais imagens daquela pessoa antes de a ver ao vivo. E tudo bem, mas será que isso não afectou a nossa forma de estar e relacionar com outros? As nossas projecções? Essa relação com a imagem. Não que eu seja contra as tecnologias, só estou a questioná-las. Essa rapidez. Então a colecção de pessoas começou primeiro como um projecto fotográfico em que pus na cabeça que ia pedir a um desconhecido para ir à sua casa e para ele me fotografar dentro da sua casa como se eu fizesse parte dessa casa. O que seria necessário para que essa imagem se tornasse verdade? Como é que tu, que não sabes a minha história, olhavas para essa imagem e dizias “ah ok, estavas em casa, esta fotografia foi tirada na tua casa”. Conheci uma pessoa num café e comecei a falar com essa pessoa e, como já estava com isto na cabeça, de repente disse-lhe que gostava de fazer este projecto e ele “Ah, está bem, quando quiseres podes lá ir a casa”. Depois aquilo passou, escrevi-lhe e fiquei 16 horas em casa dessa pessoa. Conheci o namorado, a mãe, almoçámos, jantámos, cozinhámos juntos, tirámos imensas fotografias. Só que, lá está, nesse encontro eu saí de lá completamente arrebatada. Como é que isto é um trabalho artístico para mim e foi completamente transformador? Conheci uma pessoa, tivemos conversas super profundas, de repente conheci a intimidade desta pessoa, foi num bairro do Rio ao qual eu nunca tinha ido, portanto também toda a viagem de autocarro… E eu pensei: “Tenho de encontrar-me com outra pessoa”. E o projecto foi crescendo assim.

MFD: No filme do Éric Róhmer, La Collectioneuse (A Coleccionadora), sobre uma rapariga que, de certa maneira, colecciona amantes, uma das personagens diz, a certa altura, que o coleccionador é “o desgraçado que só pensa no que é adicional. Nunca chegará a satisfazer-se com um objecto isolado. Terá sempre de possuir o conjunto.” Tens medo de perder a essência de alguma coisa por coleccionares tantas?
RA: Hmm, talvez por ser uma colecção de pessoas isso não aconteça. Eu tinha medo disso, ao coleccionar 237 amantes, mais 36 coleccionadores, mais 18 artistas e todos os espectadores que eu também estou a coleccionar – acho que já coleccionei umas 1000 pessoas. Mas acho que, principalmente nestes encontros de um para um, eu fico sempre tão nervosa, é sempre um abismo tão grande de encontrar alguém…

MFD: Nunca se torna banal.
RA: Exacto. Agora às vezes aquilo de que tenho medo é também esta coisa ética de fazer um trabalho artístico com os encontros. Faço um espectáculo, escrevo histórias sobre estas pessoas, fiz um livro, quero fazer um filme, e tenho um pouco de medo de perder essa força. Só que depois, quando apresento os espectáculos, como se parte do princípio que é verdade (porque teatro) [risos], como é coisa documental, as pessoas sabem que estas pessoas existem, eu sinto sempre essa nova vida desse objecto que eu coleccionei. Porque é a primeira vez que eu estou a falar daquele artista, ou daquele amante àquelas pessoas. Então parece que nasce outra vez. Então é como se a colecção não se objectificasse e se tornasse viva de novo. Porque é impossível coleccionar pessoas. Mas pode ser possível por ser um trabalho artístico e pode ser que não se objectifique por depender deste momento vivo em que apresento as colecções.

Raquel André / Fotografia de Afonso Sousa

MFD: A Colecção de Amantes, que vais agora apresentar pela primeira vez, é a tua terceira colecção de pessoas, depois da Colecção de Amantes e da Colecção de Coleccionadores. Porquê coleccionar artistas?
RA: A minha vida tornou-se isto, e quando pensei nestes quatro tipos de pessoas [amantes, coleccionadores, artistas e espectadores], acho que são variantes minhas e também de curiosidade de me entender. Primeiro como pessoa que ama e que tem relações com os outros, e que teve muito a ver com a minha situação no Brasil naquele momento, depois tornei-me uma coleccionadora, que não era, e quis saber o que aconteceu comigo e perceber porque é que as pessoas guardam coisas. E os artistas têm muito a ver com isto: o que é que acontece para seres artista? É que eu não percebo o que aconteceu na minha vida para que isto acontecesse. [risos] E às vezes parece tão abstracto, tão questionável se aquilo que faço é ou não trabalho e nós questionamos isso sobre o mundo da arte. Eu tenho estas perguntas no espectáculo: como é que se determina o valor monetário de uma obra de arte? Como é que se determina o valor do trabalho de um artista? E como é que um artista se torna artista? E essa é a grande pergunta que ponho aos artistas que coleccionei. O que é que aconteceu na tua vida para te tornares artista? Eu não sou nada erudita, não faço uma coisa muito bem. Eu não toco um instrumento muito bem, eu não danço nada bem, eu não canto nada bem.

MFD: Não há um talento específico. Porque existe aquilo do artista direccionado: o músico, o cantor..
RA: E eu sou o quê? Nem sou uma atriz, apesar de me ter formado como atriz e ter trabalhado para o teatro. Mas não é a minha cena, aliás, eu não trabalho com outros encenadores. Se calhar ninguém me convida por não ser boa atriz, nem isso. [risos] Então fico a pensar o que é isto que sou. E, ao mesmo tempo, é tão abstracto e tão difícil de dizer o que é, mas também tão concreto, faz tão parte da nossa cultura, do que somos. Que é uma coisa que eu tento que o espectáculo tenha. Que não seja só para a bolha artística, mas que todos tentemos perceber como é que eventos artísticos contam a nossa história pessoal. Todos temos um filme, ou uma música ou uma exposição ou um espectáculo, que nos tenha transformado. Que marque nem que seja o início ou fim de uma relação, ou quando percebemos uma perspectiva sobre o mundo de alguma forma. A arte como conhecimento, como experiência.

MFD: No fundo, somos todos, em pequena parte, coleccionadores de artistas. Dos que nos marcaram.
RA: Super. Como acho que todos nós temos um conjunto de objectos que contam a história da nossa vida. Nem que seja o nosso guarda-roupa. E isso para mim é encantador. Como é as pessoas que não se relacionam com o coleccionismo se relacionam com este trabalho? E todos nós temos a nossa colecção de amantes, as pessoas com quem nos atravessámos, mesmo que tenham sido só desejos ou projecções. Mesmo quem tenhamos tido só um parceiro, com quem vivemos a vida inteira… Fogo, que história.

MFD: E que diferentes desafios é que esta colecção te pôs, em relação às outras?
RA: Como performer, artista, na Colecção de Amantes eu trabalho com fotografia, na Colecção de Coleccionadores com vídeo, e aqui o desafio foi trabalhar só com o meu corpo, o meu corpo como arquivo. Porque as fotografias não chegam, questiona-se as limitações de uma imagem, o quanto ela é encenada. No vídeo, nos coleccionadores, eu nunca mostro os objectos e também crio essa tensão. Ou seja, não chega. E edito muito tudo aquilo. Aqui a proposta é ser através do meu corpo, como arquivo que também guarda. Os meus músculos, os meus ossos, os meus órgãos, a minha memória, a minha percepção. E lidando com a potência de transformação e de absorção que pode ter um corpo, como também de limitação. Eu não sou bailarina e coleccionei uma bailarina que me deu uma frase de movimento. Eu estou toda esfolada porque não consigo fazer aquela porcaria. [risos] Ou um músico que me deu as 13 primeiras notas da Carmina Burana. Pá, eu estou a passar-me. [risos] Tenho essa ideia de reportório e questiono também que história da arte é que está escrita e a escrita como poder capital. Quem é que dizia o que é que era a arte e o que não era. E interessa-me pensar tudo aquilo que não está escrito. Essa ideia de reportório, de passagem de corpo para corpo. E isso tem muito a ver com a história pessoal das pessoas. E na nossa história da arte tudo o que foi marginal foi reconhecido mais tarde, não no seu tempo, fazendo quase parte de uma imagem que temos de um artista, o marginal que não é entendido e depois morre e fica a valer milhões. Então também me interessa isso, não estar a escrever, não estar a documentar de nenhuma forma esses encontros e ser mesmo o meu corpo essa experiência, o acesso a essas pessoas através do meu corpo. É um desafio enorme porque nas outras colecções eu tenho quase uma coisa de conferencista. Apresento a colecção e sou essa contadora de histórias, mas a prova está num documento e, desta vez, está no meu corpo.

MFD: Então desta vez no palco não há nada além de ti e de alguns adereços.
RA: Sim, alguns adereços que preciso para fazer os fragmentos que os artistas me deram.

Raquel André / Fotografia de Afonso Sousa

MFD: Vais buscar as memórias dos encontros que tiveste, das colecções, e juntas com as memórias das outras pessoas. No caso dos artistas presumo que vás buscar histórias dos próprios artistas. Que relação é essa que tens com a memória?
RA: Acho que todo o trabalho das colecções é sobre isso. O que é que guardamos? Porque tentar coleccionar pessoas começa para mim na tentativa de guardar o efémero. O que é que conseguimos guardar? O que fica? E nesta coisa com o corpo é também tentar perceber que memórias são essas.

MFD: Mas o próprio corpo também é efémero, não é como o vídeo que lá fica.
RA: Esta colecção é isso, se eu morrer, acabou. E o que é que fica quando tu morres? Acho que nós artistas somos muito essa coisa. Deixamos um rasto, essa memória. Eu própria tenho muitas questões com a memória. Tenho muito medo de ter Alzheimer. A minha avó morreu com Alzheimer e foi muito brutal para mim perceber isso. Então tenho muito esse pânico, e sou disléxica, troco imenso as palavras, tenho muita dificuldade em decorar texto. Sofro imenso com isso, é mesmo um trabalho de decorar. Por exemplo, entrei numa viagem de começar a fazer os espectáculos em inglês e em francês e, como tenho dislexia tenho dificuldades em aprender outras línguas, então decorei os textos como se fossem músicas. Inglês até falo, mas francês não falo nada, então aprendi só o texto do espectáculo. Faço isso quase para mim própria, do género não vou morrer com Alzheimer porque estou a trabalhar imenso o meu cérebro. Dói-me. Tenho muito essa coisa quando estou a escrever as histórias das pessoas mais tarde. O que é que fica? O que é que guardei desse encontro. Hoje de manhã estava a bater texto e estava a tentar lembrar-me da cara de cada um dos artistas. Porque estive com eles um dia, algumas horas. Posso ir ver à internet, mas será que quando voltar a ver aquela artista vai ser a mesma coisa? Na Colecção de Coleccionadores, como era em vídeo, era sempre aquele vídeo. Nós guardámos aquelas pessoas através daquele vídeo e depois quando voltávamos a vê-los parecia que a pessoa estava a dizer outro texto, porque nós a sabíamos de cor daquele vídeo. [risos] Cristalizas aquela pessoa naquele texto e espaço, mas uma pessoa é muito mais do que isso, muito mais do que um espectáculo.

MFD: Estavas a falar de decorar textos para essas apresentações fora de Portugal. Que outras diferenças sentiste ao apresentar o teu espectáculo noutros países, noutras línguas?
RA: Primeiro, é mesmo essencial para mim que, nestes espectáculos que são tão íntimos e próximos e a falar sobre pessoas, fale numa língua mais próxima da audiência. As legendas são um filtro enorme e aprendi que era mesmo uma dedicação importante de eu ter. E depois é muito incrível atravessares um país, ires para outra cultura e estares a contar um espectáculo e isso bater nas pessoas à mesma, elas relacionarem-se contigo. Tem sido uma experiência muito incrível, muito transformadora.

MFD: Por fim, tens vindo a partilhar nas redes sociais pequenos episódios de antecipação à tua Colecção de Artistas. De que forma é que estes se relacionam com o espectáculo?
RA: Em todos os projectos da colecção pensamos em como vamos pôr estas colecções no mundo. Penso a comunicação como um projecto artístico. O António Pedro Lopes é um dos grandes pensadores da comunicação deste projecto, mas escrevemos todos e realizamos isto todos juntos. Tenho um pânico enorme de fazer espectáculos só para comunidade artística, quero conseguir que chegue e comunique com todos e como não sou um nome de mainstream, como é que conseguimos tornar isto mais acessível? Desta vez, também porque tivemos condições para o fazer, pensámos em fazer estes pequenos vídeos e fizemos assim uma viagem que começou com umas entrevistas que o António e o Bernardo [de Almeida] me fizeram sobre, lá está, eventos artísticos que me tenham transformado. Depois fomos escrevendo os episódios, lá está, na minha relação biográfica. Tem a ver com o meu passado, a minha relação com a arte na minha família, que tem a ver com o artesanto, e, depois, seguindo por aí, o folclore, o hip-hop, o facto de ter feito uma música com o Valete, depois o cinema, o teatro e tudo o mais. Está tudo no espectáculo, não tão evidente como ali, não são aquelas histórias que vou contar, mas para a comunicação coleccionei pessoas também. É sobre aquelas pessoas dos vídeos, mas é para as pessoas perceberem a linguagem, quase como um trabalho de casa para as pessoas irem alimentando e conhecendo como trabalhamos.

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