Entrevista. Pedro Mafama: “A cultura musical africana influenciou muito a nossa cultura musical, incluindo ter dado origem ao fado”

Pedro Mafama / Fotografia de Fernando Marques

Pedro Mafama é dos artistas emergentes mais entusiasmantes no panorama musical português. A maneira como bebe de vários géneros e os une para criar algo novo mostra uma visão plural, direccionada e intemporal. É verdadeiramente um artista dos tempos que correm mas nunca esquece aqueles que vieram antes dele.

Por Este Rio Abaixo é o culminar do percurso de um autor que está ainda a dar os seus primeiros passos. A Comunidade Cultura e Arte sentou-se com Pedro Mafama para falar sobre o seu primeiro longa duração, a origem da mistura musical que apresenta, e os segredos sonoros do futuro na música do passado.  

No início da tua carreira, apresentavas uma fusão de ritmos urbanos como o tarraxo com trap. Quando é que percebeste que querias fazer esta ponte entre o tradicional e o contemporâneo? 
Era uma pesquisa que vinha de trás. Já tinha feito trabalho de artes plásticas na faculdade que retratava esse assunto, tinha começado uma marca de roupa — que acabou por não ir para a frente — que fazia essa ponte também. Eventualmente, culminou tudo num projecto musical em que havia um panorama que estava a pedir este tipo de música, e vi a minha oportunidade e fui. Comecei a perceber que se eu queria mesmo homenagear a cultura popular que eu admirava, tinha de devolver a minha cultura popular. Fui percebendo que a cultura popular global parece super deslocalizada mas vem muito de géneros regionais — o trap vem de um género regional do sul dos Estados Unidos, o dancehall é muito jamaicano. Comecei a olhar à minha volta e a ver o que é que era específico desta zona e que tivesse a ver com as minhas memórias de infância. Comecei a ir buscar a batida de kizomba que eu ouvia no carro a passar na minha rua às três da manhã na Graça, as músicas que eu ouvia com os meus amigos quando ia ao Vasco da Gama passear ao fim-de-semana e que as pessoas estavam a ouvir nos altifalantes dos telemóveis no metro. E aí vais dar às kizombas, aos kuduros, aos tarraxos… Depois juntei com fado e culturas folclóricas para contrapôr esse lado da Lisboa de agora com a Lisboa e Portugal mais tradicional.

Foi um voltar às tuas origens em termos de paixão musical.
Sim, uma sintonia entre a música que eu estava a ouvir e as minhas experiências, aquilo que eu tinha crescido a ouvir e as coisas que estavam à minha volta. Tentei procurar uma música que traduzisse a minha rua, a minha escola, a minha cidade, e eventualmente o meu país. Hoje em dia sinto que encontrei uma sonoridade que posso ouvir no Minho — o “Algo Para a Dor” tem um ritmo muito minhoto — sinto que posso ouvir o “Linda Forma de Morrer” no Alentejo e aquilo fazer imenso sentido. Sinto que criei um estilo que reproduz a minha rua, o meu bairro, a minha cidade e o meu país.

Apresentavas elementos do trap e uma atitude hedonista mas também algo muito trágico que para mim tinha um sentimento de fado. Consideras esses dois aspectos uma homenagem a esses dois géneros?
Posso ser de uma geração diferente de um cantor de fado, e posso estar nostálgico com coisas diferentes e a viver um tipo de boémia diferente do que ele viveu, mas na verdade estamos todos a lidar com as mesmas coisas. Estou em 2021 a ter as minhas experiências, e sinto que essa melancolia me une a uma geração anterior, e sinto que expressar a melancolia através de uma sonoridade que se relacione com o fado é muito interessante, é um veículo óptimo para expressar melancolia.

Fotografia de Fernando Marques

Qual é a história que tu queres contar com o teu álbum?
O nome do disco é um piscar de olhos e ao mesmo tempo um caminho diferente do disco do Fausto [Por Este Rio Acima]. Eu estou a homenagear a tradição e aquilo que nós recebemos da nossa cultura musical, e ao mesmo tempo estou a apontar um novo caminho. Fui fazendo as músicas pouco a pouco — há aqui músicas no disco que têm dois ou três anos — e depois a certa altura comecei a afunilar este projecto. Surgiu o nome, e a partir desse momento foi muito mais fácil construir tudo à volta deste conceito. O disco tem uma narrativa meia escondida de uma história de alguém que está na cidade e parte para o mar. Há um momento de viragem no disco que é o “Barca”, uma homenagem ao Auto da Barca do Inferno (ou um piscar de olhos), em que eu estou a falar na perspectiva do Diabo, que está a convidar-te para embarcares, e a personagem embarca. A partir daí, tens o “Contra a Maré”, o “Ribeira”, o “Borboletas da Noite”, em que já falo de caravelas e do Adamastor, o disco tem uma narrativa de começar em terra e partir para o mar. É como escapar dos nossos demónios e partir em busca de alguma coisa. 

Ou seja, é um disco de escapismo, de fugirmos de nós mesmos para nos encontrarmos a nós mesmos.
O disco é feito em alturas em que eu andava a viver de forma mais hedonista, a afundar-me nos meus próprios problemas e vícios e nos meus próprios demónios. E a partir de certa altura na minha vida tive um momento de viragem, e o disco reflectiu isso. Há músicas que são feitas dentro desse momento mais obscuro e há músicas  como o “Ribeira” em que sou eu a tentar romper com isso, a dizer que sou feito para pescar, é um bater no peito e dizer que não vou ficar preso nesta depressão e nestes problemas e vou partir em busca de algo maior, tem momentos que são feitos depois dessa tempestade pessoal. O disco tem esse desejo de nos libertarmos e de partirmos em busca de algo mais.  

Mas a maneira como tu terminas o álbum não é tão esperançoso como a narrativa que descreves. Terminas a dizer “Eu quero esticar os limites do corpo”.
O final do disco é ambíguo. Se seguirmos esta narrativa em que o personagem parte para o mar e vê-se no meio de uma tempestade — que é o “Borboletas da Noite” — e depois se calhar naufraga e há a luz da tempestade, que é o “Linda Forma de Morrer”, o “Mar Morto” brinca um bocadinho com a ideia de que ou este náufrago foi levado até ao Mar Morto, ou então acabou só no mar, morto. E esse esticar os limites do corpo, na altura em que eu escrevi tinha um bocado a ver com isso, com uma perspectiva mais hedonista. Mas tem implícita a coisa de nos querermos ultrapassar, ultrapassar os nossos limites, e isso não precisa de ser só uma coisa de esticar a corda. Nós podemos esticar os limites do corpo a trabalhar a semana toda. Tive alturas da minha vida em que senti que estava a esticar os limites por estar a trabalhar demais e por estar a dormir pouco e quase a habituar-me a esse cansaço permanente. Há o vício de correres atrás dos teus sonhos também, há o vício do trabalho, em que estás a esticar a corda da mesma forma. Na altura era esticar os limites no sentido mais psicadélico, mas escolhi essa música para acabar o disco porque sinto que deixa as coisas em aberto. A música foi feita na perspectiva que estavas a pensar, mas eu pu-la lá porque dá outro espaço. Daqui a três anos, quando quiser esticar os limites do corpo num outro sentido, sinto que essa música se vai aplicar na mesma. Eu gosto de fazer as coisas com significados abertos. São letras muito pessoais mas que eu quero que se apliquem à minha vida agora e à minha vida daqui a cinco anos, nunca escrevo histórias muito fechadas. Daqui a três anos, posso estar a viver numa situação e estilo de vida completamente diferentes mas quero escrever músicas agora que o meu eu daqui a três anos também possa vivê-las com outras experiências. A poesia cria isto, acrescentar camadas de significado, tornar as palavras ambíguas.

Como é que foi trabalhar com o PEDRO?
Desde há muito tempo que o PEDRO segue o meu trabalho e deu-me a mão desde o início. O “Lacrau” foi produzido por ele, sempre acreditou em mim e percebeu a minha visão. Grande parte do disco foi feito com ele a retrabalhar maquetes que eu fazia e que ele levava para o próximo nível, mas uma parte do disco foi feita também já a trabalharmos os dois em conjunto. Temos uma sintonia muito boa, e ele percebe aquilo que eu quero fazer e quer-me ajudar a chegar lá de uma forma melhor. É muito fácil trabalhar com ele, e ele é incrível, cada vez que oiço as músicas surpreende-me com pormenores que ele deixou aqui e ali, é mesmo genial.

O que é que te levou aos Dead Combo?
Os Dead Combo têm esta forma de olhar para a cultura portuguesa em que incluem todas as culturas que fazem parte da nossa herança e um bocadinho da mistura cultural com que nós vivemos nas nossas cidades. Têm uma grande presença africana na música deles, grande influência das mornas, da música espanhola, têm uma sonoridade algo arabesca a certa altura. E têm muito o elemento português, têm muito o lado do fado. Têm uma forma de olhar para a música muito parecida com a minha, não vêem limites de território e de géneros, procuram só a melhor forma de traduzir aquilo que é a experiência deles nesta cidade — estou a falar principalmente do Lisboa Mulata que foi um disco que me influenciou imenso. E grupos como os Dead Combo e os Buraka Som Sistema e mesmo a Amália, tinha esta forma aberta de olhar para a cultura e tinha a mesma forma de olhar para a música. Sinto que [estes artistas] têm alguma coisa em comum com aquilo que eu estou a fazer.

E como é que surgiram as colaborações com outros artistas neste álbum?
Cada música pedia o convidado que eu escolhi: O “Cidade Branca” pedia que o ProfJam estivesse lá, o “Borboletas da Noite” pedia-me o Tristany, o “Linda Forma de Morrer” foi feito com a Ana, por isso fazia todo o sentido estar presente. Além de individualmente cada artista fazer sentido para cada música, o leque de artistas representa muito bem aquilo que me inspira na cultura portuguesa actual.

Como é que tu chegaste ao Tristany? Já conhecias o trabalho dele?
Sim, eu conhecia o trabalho dele já há algum tempo. Quando ele lançou “O MENINU KE BRINKAVA COM BONEKAS..” fiquei fascinado com o trabalho dele, com a forma como ele aborda a dureza dos bairros e da vida suburbana de Lisboa, mas também com uma grande sensibilidade. Aborda esses temas com grande carinho e delicadeza, não tem nenhum medo de mostrar um lado mais vulnerável em si, identifico-me muito com ele nesse sentido. E depois conhecemo-nos pessoalmente, e trocámos ideias e desde aí que estamos sempre a trocar ideias. Por isso fez todo o sentido tê-lo nessa música em específico e faz todo o sentido tê-lo no disco, porque é uma pessoa em quem eu acredito imenso e é uma pessoa com quem eu partilho imensas ideias.

A nível de espectáculo ao vivo, o que é que podemos esperar? Vais tocar com convidados?
Isso ainda não posso dizer [risos]. Mas posso dizer isto: assim como abordo o design gráfico como se fosse quase criação musical no sentido da dedicação que eu dou àquilo e do tempo de atenção que eu dou aos grafismos e aos vídeos, o concerto ao vivo também vai ser uma coisa desenhada quase como se fosse um novo disco. A maneira como eu trabalho é sempre a tentar trazer alguma coisa de novo, por isso vou fazê-lo também no concerto ao vivo.

Como é que foi a experiência de escrever a letra do novo single da Ana Moura, “Andorinhas”?
Foi incrível trabalhar no disco da Ana. A música foi mesmo escrita para ela, não foi escrita para mim, e isso é libertador. Mesmo na minha própria música estou-me sempre a pôr no papel de outras personagens: No “Contra a Maré” ponho-me no papel de uma mulher, na minha música com o PEDRO que se chama “Terra Treme”, estou-me a pôr na perspectiva de uma pessoa que está a viver um cenário de pós-terramoto. Eu estou sempre a deslocalizar-me e a viajar um bocadinho no tempo através da minha música. E é bom perceber que posso ajudar uma pessoa tão interessante, e uma artista tão interessante e tão corajosa como a Ana. É incrível perceber que ela quer aprender alguma coisa com a minha visão da música portuguesa, e ver que posso ser útil a uma pessoa tão fascinante como ela. E neste caso ela conhecia muito bem o meu trabalho e estava à procura da minha forma de ver as coisas, e da minha forma de juntar vários elementos musicais para criar uma coisa nova. E foi isso que fizemos com essa música, e foi mais fácil de escrever também porque ela respeita a minha escrita e estava à procura da minha autenticidade.

Disseste à Blitz  “interessa-me muito mais o que nós recebemos, porque essa história não está contada”. De que forma é que achas que o teu álbum ajuda a contar essa história? 
Estou a tentar trazer ao de cima coisas que fazem parte da nossa herança musical e da nossa herança cultural e que se calhar muitas vezes são ignoradas, e tento estabelecer ligações entre coisas que as pessoas normalmente vêem como desconexas. Tento criar uma ponte entre a percussão portuguesa e as batidas africanas que nós ouvimos nas nossas cidades e que são a banda sonora de muitas das nossas vidas. Sinto que há uma grande semelhança entre os ritmos do malhão e da chula e o ritmo da kizomba. Há uma cadência rítmica muito próxima, e interessa-me perceber porque é que existe essa proximidade. E interessa-me explorar essa proximidade para esbater a diferença entre Portugal e África, que à partida em termos de herança são duas coisas separadas, mas que na verdade não são. A cultura musical africana influenciou muito a nossa cultura musical, incluindo ter dado origem ao fado. Há uns anos, fui visitar o Museu do Fado e fiquei supreendidíssimo com o facto do fado ter vindo do Lundu e das danças afro-portuguesas e afro-brasileiras, danças de origem africana que deram origem à música mais portuguesa de sempre. E depois começas a ver ligações entre coisas que sempre te disseram que estavam separadas, começas a juntar mundos que sempre te disseram que estavam dispersos, e sinto que o meu trabalho esbate muito essas diferenças. Sinto que as minhas melodias de voz e a forma como eu canto têm tanto de fadista quanto de trapper quanto de cantor magrebino quanto de cigano, e acho que é interessante ir com isto tudo no coração.

Juntar estas coisas todas e criar uma melodia em que todas estas culturas existam em harmonia, reflecte aquilo que é a nossa história e a nossa cultura, e traz para o futuro a mistura cultural que vem do nosso passado. Sinto que é importante nós fazermos isto, porque se nos conciliarmos com o nosso passado e conseguirmos procurar no nosso passado as coisas que o relacionam com o presente – perceber que a multiculturalidade que vemos hoje em dia sempre esteve cá e foi aquilo que criou a cultura que nós damos como tradicional agora – vamos ter os olhos postos no futuro e perceber que a nossa cultura continua a ser construída. O próximo género musical como o fado ainda está por construir. E se o fado foi desenhado e construído numa Lisboa multicultural de 1700, a Lisboa multicultural de 2020 vai dar origem a um outro fado que nós ainda não conhecemos. E sinto que esta forma de olhar para as coisas e esta forma de reconhecer o nosso passado como multicultural nos vai verdadeiramente preparar para o futuro. Vamos deixar-nos de sebastianismos e de nostalgias que nos prendem e nos impedem de seguir para a frente. E estou a tentar fazê-lo por amor à nossa cultura. E por isso posso parecer às vezes uma pessoa nostálgica e que está a recuperar símbolos nacionalistas e que vêm da identidade nacional, mas o que eu estou a tentar fazer é preparar-nos para o futuro e pensar o que é que nos pode dar um lugar mesmo no mundo hoje em dia.

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