Entrevista. Francisco Sena Santos: “Se nós precisamos de ter uma voz, a rádio está lá”

Foto: Diogo Ventura

Francisco Sena Santos tem muito a dizer e nada lhe pode escapar. Numa altura onde cada minuto é valioso, Francisco não perde tempo e as palavras saem-lhe a voar da boca. Ao mesmo tempo em que se apressa a contar todas as histórias que lhe vêm à cabeça, a dita “voz de rádio”, que diz não existir porque é uma técnica que se trabalha, está sempre presente. O sorriso que tem na voz só se apaga quando fala de desastres que cobriu. À parte isso, aquele que é para muitos um mestre da rádio fala dos livros que o marcaram. No caminho para a entrevista, no Centro Cultural de Belém, passou pela pastelaria Versailles e conversou com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. A ousadia e simpatia não lhe trouxe apenas esse amigo.

A troca do estetoscópio pelo chumbo e microfone

Francisco Sena Santos, um nome reconhecido em todo o lado, nem sempre esteve no caminho do Jornalismo. Vindo de uma família de médicos, foi pressionado para enveredar pelo mesmo campo. Na altura, ainda havia guerra colonial e, para não ser mobilizado para a tropa e ter “três anos de buraco, de paragem”, começou a estudar medicina, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Ir para a guerra era uma ideia que não lhe passava pela cabeça. Enquanto estudava, enamorou-se, mas o verdadeiro amor estava por vir.

Embora quisesse ser jornalista, não havia escola que ensinasse o ofício. Contudo, a paixão pelo Jornalismo fez com que a vida de Sena Santos passasse por ser o primeiro a chegar à redação do jornal Record e dos últimos a sair: “Saía com o jornal na mão, quentinho.”

Assim, antes de chegar à rádio, conviveu com o jornal em papel. A redação era-lhe inebriante:“Na altura, o jornal era feito com chumbo” e esse cheiro, que pairava no ar, de alguma maneira atraía Sena Santos todos os dias até à tipografia, no Bairro Alto, em Lisboa. A certo ponto passou a ter palavra sobre como seria a primeira página. Na espera de que o jornal fosse impresso, algo verdadeiramente revolucionário aconteceria – na vida de Francisco e em Portugal.

Foto: Diogo Ventura

À espera da liberdade

Enquanto esperavam a impressão do jornal, Francisco e os colegas aproveitavam para jantar. Numa dessas madrugadas, decidiram ir cear à Avenida Augusto Aguiar (que vai de onde hoje é a Fundação Gulbenkian até ao Parque Eduardo VII). Mal sabiam eles que, enquanto esperavam pelos bifes do lombo, a espera de Portugal por liberdade estava a acabar. Quando terminam de comer, saem à rua e veem tanques de guerra a cortar a passagem. Era dia 25 de abril de 1974. “Percebi que estava a acontecer alguma coisa. Nem um ano antes, a 11 de setembro de 1973, tinha havido o golpe de Estado no Chile.”

Eram 4h da manhã quando Sena Santos sincroniza na Rádio Clube Português. Ouve Joaquim Furtado ler um comunicado do Movimento das Forças Armadas e pedir calma aos civis. Francisco Sena Santos deduziu o que se estava a passar e o resto deste dia foi passado a fazer reportagem na rua da Misericórdia, perto da Baixa-Chiado. Começou aí a colaboração com o Diário Popular. Um ano depois, para integrar quem vinha de Angola, há um concurso para a Radiodifusão Portuguesa (RDP) e Sena Santos é um dos escolhidos. “Entrei e nunca mais saí da rádio.”

Mestre Adelino

“Desde muito cedo que a rádio é para mim uma palavra mágica.” Esta é uma das primeiras frases do livro “Memórias da Vida e da Rádio dos Afectos”, de António Sala, figura da rádio e televisão portuguesa. Tal como para António Sala, para Francisco Sena Santos, a palavra “rádio” é uma palavra carregada de magia, mas também de alguma sensualidade: “A rádio entra por nós, ouves falar em rádio e ficas atraído, a rádio é um fascínio”, conta.

No entanto, quem lhe ensinou os truques da rádio foi Adelino Gomes, um dos fundadores da TSF e o “papa do Jornalismo radiofónico”, como lhe chama Sena Santos. Foi com este jornalista que se afeiçoou ao microfone e se rendeu aos encantos da rádio.

O prefácio do livro “Pessoal e Transmissível XX – XXI”, de Carlos Vaz Marques, é de  Adelino Gomes. Aí, Adelino diz que “uma boa entrevista é colocar à pessoa certa a pergunta certa”. Como a opinião de Sena Santos “vai sempre atrás da do Adelino”, a pergunta é um aspeto essencial. Seja na reportagem, seja na entrevista, Sena Santos confessa que muitas vezes passa «tempo infinito a pensar “se encontrar esta pessoa que pergunta lhe faço?”»

A referência absoluta de Sena Santos também surge quando se fala de literatura. “Nos Bastidores dos Telejornais” é, no fundo, o diário de campo que Adelino Gomes manteve entre 2007 a 2010, quando visitava a RTP1, a SIC e a TVI. Neste livro que Sena Santos traz para a conversa responde-se a questões como: o que faz com que um acontecimento seja notícia e como é que se decide os alinhamentos dos telejornais.

Nunca passou pela cabeça de Sena Santos publicar um livro sobre Jornalismo: “Essa coisa de escrever é para mestres.” Hoje, Francisco não se acha um mestre, mas voltemos aos primeiros passos deste veterano da rádio. A capacidade de prender o outro com a voz é desde logo posta à prova. Uma das primeiras vezes em que faz reportagem na rádio é também uma das situações mais extremas com que já se confrontou.

Foto: Diogo Ventura

O dia em que a alma gelou

Desde miúdo que a rádio dormia com Francisco. A hora de acordar era dada pela telefonia: “Tinha um transístor, na altura era assim, que dormia comigo no travesseiro. Aliás passava a noite com a telefonia ligada.”

Sena Santos não descura a importância de estar no sítio certo à hora certa. Ainda no Record, depois de ter a licença militar – em tempo record – para poder viajar, acompanhou o Benfica de Eusébio naquela que foi uma das maiores digressões de futebol de sempre. Mais tarde, estava de novo no sítio certo à hora certa. Era o primeiro dia de 1980, feriado nacional, e ninguém gostava da ideia de trabalhar a um feriad – exceto Francisco Sena Santos. Estava a fazer o noticiário da madrugada quando telefonemas estranhos começam a chegar. Um terramoto tinha atingido a ilha Terceira, nos Açores. Era preciso enviar alguém para cobrir o acontecimento e era Sena Santos quem estava na redação. “Não levava roupa, não levava nada. Ia eu, dois gravadores e muitas pilhas.”

Todo o caminho do aeroporto até Angra do Heroísmo foi “a primeira sensação de um enorme choque”. Uma estrada cheia de brechas, gemidos em fundo, “era a devastação total.” Era inverno, mas ali, no meio da escuridão, Sena Santos não sentia frio: “A sensação que até hoje ainda tenho era de arrepio constante. Tinha frio dentro de mim, tinha a alma gelada.” Sem saber o que fazer, paralisado, uma coisa era certa: a sua função era fazer da rádio a companhia de toda a gente. Naquele momento de aflição do povo açoriano, a rádio não se desligaria – tal como fazia Sena, quando era pequeno.

Na Base das Lajes, uma base americana, os americanos distribuíram 300 transístores pela população e “Aí percebi a importância da rádio, como a rádio era o que agregava as pessoas. Vem daí muita paixão pela rádio.”

Foto: Diogo Ventura

Velho na Estante

As histórias de Sena Santos não vão nem a meio, mas vale a pena virarmo-nos para a literatura. “Para mim rádio é contar histórias. A literatura conta-nos histórias.” – é aqui que o professor marca o ponto onde livros e rádio se encontram.

A veia jornalística de Francisco Sena Santos e o olhar clínico que tem para o que se passa no mundo não deixam que a atualidade se esfume. Em todos os livros que sugere há uma ponte para a situação atual.

Por termos estado todos sintonizados com Moçambique, o primeiro autor que traz é António Emílio Leite Couto – nome estranho para alguns. O nome deste moçambicano por quem Sena tem uma estima imensa é habilmente desvendado. Trata-se de Mia Couto – “um extraordinário escritor e a pessoa que mais palavras acrescentou à língua portuguesa”, conta Sena Santos. O tempo que reserva a Mia Couto é ainda algum e fala dos livros “Estórias Abensonhadas”, “O Último Voo do Flamingo”  e “A confissão da leoa”.

Não saindo de África, Sena Santos passa para aquele que é, na sua opinião, “o grande repórter do século XX”: Ryszard Kapuscinski. Este repórter polaco cobriu praticamente todas as descolonizações africanas, com uma particularidade – escolheu sempre ficar em casa de pessoas. “Ele tinha noção de que era ali, em baixo, que se conseguia perceber o que é a vida real. Num hotel temos conforto, não percebemos a dureza da vida.” Sena Santos, apesar de admitir que Kapuscinski possa ter acrescentado algum sal e pimenta às histórias, acredita que o fundo de verdade está presente nas peças que reporta e que isso é o mais importante, tal como fez no livro “Ébano – Febre Africana”. Aqui encontramos “relatos da desgraça que é ser africano.” Em 2000, tocou a Sena Santos escrever nas na contra-capa deste livro: “Cada reportagem de Kapuscinski é um combate pela dignidade e contra a indiferença.”

Ainda na linha de jornalistas, Sena traz-nos Alexandra Lucas Coelho, “uma grandíssima repórter”. O livro “Oriente Próximo” marca a viragem de jornalista para escritora. Por estarmos na véspera de eleições cruciais em Israel, esta é uma sugestão que trata da vida na Terra Santa, na Palestina. Para mais títulos, Sena indica-nos os livros “Caderno Afegão” e “Vai, Brasil”. Por fim, guia-nos a caminho para a ficção com “A noite roda” e o “O Meu Amante de Domingo”. Tanta sugestão porque Alexandra é “uma leitura essencial”.

Numa nota de rodapé, e não menos importante, Sena Santos lembra-se de Paulo Moura, professor seu colega na Escola Superior de Comunicação Social. O autor de “Uma Casa em Mossul” pega nos diários que manteve em variados locais de guerra e faz nascer o livro “Depois do Fim”. Aqui estão concentrados 25 anos de reportagens.

Nunca saindo do que marca a atualidade, Sena Santos termina com poesia. Esta determinada poeta – “não gosto de lhe chamar poetisa” – é para Francisco “a mais maravilhosa mulher da literatura portuguesa”. Aproveitando o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, Sena declama versos da antologia poética “Mar” e aproveita para contar como se desenrolaram as várias vezes com que se cruzou com Sophia. Da primeira vez, ouviu-a cantar palavras numa sessão de homenagem à resistência do jornal República. Na segunda, sob o pretexto de falar sobre um novo livro, conversou horas a fio, madrugada a dentro, com a poeta. As restantes vezes, Sena Santos encontrava a “poeta do mar” a passear-se no areal, no Algarve. Sophia de Mello Breyner torna-se “uma leitura fundamental” e, a par de Herberto Helder, “ o cume da poesia portuguesa do século XX”.

Foto: Diogo Ventura

O futuro da rádio

“Eu não sei o que é o futuro, mas que a rádio vai ter tempos punjantes não tenho a menor dúvida.” A esta certeza podemos acrescentar outra. Apesar de ser um veterano da rádio, Sena Santos não fica parado no tempo: “Eu acho que o podcast é o instrumento fundamental da rádio.” Hoje, Sena ouve mais rádio em podcast que no sentido original de rádio. Seja em inglês, com o “Daily”, do The New York Times, em português, com o “P24”, do Público (que acaba de voltar), Sena ouve também o podcast de Inês Meneses e de Pedro Mexia – o “pbx”.  Sena Santos, que também já trabalhou neste formato com o “Assim vai o mundo”, na Sapo24, prevê que o podcast – um programa de rádio que tem a vantagem de estar disponível a qualquer momento –  vai ganhar espaço.

Para Sena, a televisão tal como estamos habituados a ver vai morrer. Nos próximos tempos, a rádio – “que pode ter tido dificuldades nos anos antes da chegada da Internet – com a Internet, a rádio passou a estar em todo o lado. Nós precisamos de uma voz que nos conta as histórias.” E o que nos pede a rádio? “Que lhe demos um bocadinho de atenção e não mais do que isso.”

A rádio está a “fazer regime e pôr-se bonita”. Pessoas competentes há muitas. O problema é o pouco dinheiro que há, pois não basta ter imaginação.

Em Portugal, o podcast demorou a pegar. Essa resistência começa a dissipar-se e temos podcasts sobre todo e qualquer tema. Aliás, é num podcast que está gravada esta conversa.

Podes ouvir a entrevista completa no programa “Ponto Final, Parágrafo”, da ESCS FM, em parceria com a Comunidade Cultura e Arte, e ficar a saber mais detalhes desta conversa.

Hoje podemos ouvir a voz de Sena Santos na Antena 1, onde tem a rubrica “Um dia no mundo”, e ler a sua opinião no Sapo24. Quem decidir ser jornalista pode ainda tê-lo como professor na Escola Superior de Comunicação Social, onde ensina as bases da rádio.

Para terminar a entrevista, Sena Santos usa a frase que o Fernando Alves tinha no arranque da TSF:  “Fica bonita, telefonia.”

O Ponto Final, Parágrafo é um programa da ESCS FM, rádio da Escola Superior de Comunicação Social, feito em parceria com a Comunidade Cultura e Arte.

Se quiseres ajudar a Comunidade Cultura e Arte, para que seja um projecto profissional e de referência, podes apoiar aqui.

Exit mobile version