dEUS levaram-nos até 1999, com ‘The Ideal Crash’

dEUS | Fotografia de Idalécio Francisco / CCA

Dificilmente nos esqueceremos da noite de 24 de Abril de 2019. Nesta noite da liberdade, assistimos a um concerto de celebração. Celebraram-se os vinte anos do lançamento do álbum The Ideal Crash, dos dEUS. Curiosamente, verificámos que a maioria do público que se dirigiu ao Coliseu dos Recreios era de uma faixa etária mais elevada. Muitos dos que lá estavam, possivelmente, também estiveram há vinte anos atrás. Constatar isso colocou-nos um brilho no olhar. Partilhávamos, de certa forma, uma vivência em comum. A vivência de um álbum que marcou uma geração. Que marcou horas, dias, noites das nossas vidas.

Trixie Whitley | Fotografia de Idalécio Francisco / CCA

O concerto de abertura ficou a cargo de Trixie Whitley, uma multi-instrumentista belga-americana. Veio acompanhada apenas por um músico e, ao longo de cerca de meia hora de concerto, passou pelas teclas, pela guitarra e pela percussão. É inquestionavelmente talentosa, mas a sua música não é propriamente inovadora. Entreteve, mas não agarrou completamente o público que ia chegando. O clímax aconteceu com a música “Dandy”, do seu último álbum Lacuna, que nos surpreendeu com um ritmo vibrante, elétrico. De forma provocadora, pergunta “are these the signs of our times?” Responde com um explosivo “the racist, the humanist, the realist, the rapist”. A sua voz doce e a sua destreza artística acabaram por nos ir conquistando e proporcionar-nos um bom momento enquanto aguardávamos pelos seus compatriotas.

dEUS | Fotografia de Idalécio Francisco / CCA

Por volta das 22 horas, com o Coliseu praticamente cheio, chegaram os tão desejados dEUS. O frontman Tom Barman cumprimentou a plateia com um efusivo “boa noite” e nós rendemo-nos. A partir daqui, levou-nos ao colo até ao fim. A banda belga, surgida em 1991 na Antuérpia, mantém da formação inicial Tom Barman (voz, guitarra) e Klaas Janzoons (violino, teclados, voz). Presentemente, conta também com Alan Gevaert (baixo, voz), Stéphane Misseghers (bateria, voz) e Bruno De Groote (guitarra, voz). Começaram com a eletrizante “Put the Freaks Up Front”, primeira faixa do álbum, cujo alinhamento cumpriram. Os músicos foram acompanhados por um grupo de dança que, mais tarde, viemos a saber que era português. Estes trouxeram ainda mais energia à música apesar de, visualmente, transmitirem uma certa imagem de confusão.

dEUS | Fotografia de Idalécio Francisco / CCA

O palco parecia pequeno para tantos. Seguiu-se a menos potente, mas não menos brilhante, “Sister Dew”. O envelhecimento e os vinte anos passados encontram-se presentes na voz de Barman. Esta está agora mais rouca, o que transmite ainda maior beleza às músicas. Houve também um amadurecimento destas com a passagem do tempo. Rapidamente vieram o tema “One Advice, Space” e a sublime “The Magic Hour”. O violino, o delicado violino, acariciou-nos os ouvidos, proporcionando-nos momentos de pura magia.

A performance e a entrega de Tom é comovente. Para além disso, foi um ótimo anfitrião ao longo da noite. Mostrou-nos o quão confortável se sente a falar em português. Com enorme facilidade, agradeceu-nos com um “obrigado Lisboa, tudo bem?” e contou-nos que, há vinte anos, atrás tinha estado exatamente naquele palco. Notou que, quando isso acontece, normalmente testemunham o envelhecimento do público mas, felizmente, não era o nosso caso: continuávamos impecáveis. Também admitiu que o único problema do álbum era ter sido gravado em Ronda, Espanha, o que gerou risos e aplausos por parte da plateia. Foi notório que o músico, para além de dominar bem a nossa língua, também nos conhece bem, muito bem. Desta forma, chegámos à musica “The Ideal Crash”, onde damos por nós a cantarolar “Stay by my side, it’s sexy / The way that we talk about stuff / The way that we laugh with love / The way that we’re falling off”.

dEUS | Fotografia de Idalécio Francisco / CCA

Com impacto, recebemos a intemporal “Instant Street”. Este tema, para além de marcar o álbum, marca uma época, uma etapa das novas vidas. Marca algumas das vidas dos que ali estavam, dos que, em uníssono e em voz alta, cantaram a totalidade da música. Houve uma comunhão perfeita entre músicos, bailarinos e plateia. Houve uma genuína celebração por esta música existir. Emocionados, tentámos congelar aquele instante. Tentámos que ele perdurasse. Ainda agora, enquanto escrevo, sinto o ressoar do inconfundível “pa ra ra ra ra ra-ra, pa ra ra ra ra ra-ra” e arrepio-me. No fim de atingido o auge, e enquanto recuperávamos do que tinha sucedido, chegaram as últimas quatro músicas. Entrámos na reta final com os temas “Magdalena”, “Everybody’s Weird” e “Let’s See Who Goes Down First”. Neste tema, os bailarinos regressam ao palco, alguns em tronco nu, e apontam para o público ao som da música.

dEUS | Fotografia de Idalécio Francisco / CCA

Chegámos ao final do álbum com “Dream Sequence #1”. O bem-humorado Tom Barman avisa que a after party será no bar Incógnito e despede-se com um “até já”. Previa-se um encore, que aconteceu. Passaram por diversos álbuns, desde Following Sea, com “Quatre Mains”, a Keep You Close, ouvindo-se ainda a extasiante “Fell Off the Floor, Man” do soberbo álbum In A Bar, Under The Sea. Terminaram com “The Architect”, de Vantage Point, e com o single, de beleza indescritível, “Nothing Really Ends”. Por mais que tenham faltado temas memoráveis como “Suds & Soda”, “Little Arithmetics”, “For the Roses” ou “Serpentine”, entre tantos outros, a verdade é que, a meu ver, não poderiam ter terminado de melhor forma. “You didn’t come here to have fun / You said: “well I just came for you”. Sim, viemos por vocês. Viemos por um álbum. Viemos pelas músicas que marcam a nossa própria história.

Esta tour vai ser documentada. Merece-o. Quem sabe se daqui a vinte anos nós estaremos, de novo lá, a confirmar, mais uma vez, que ‘nothing really ends.

Texto de Ana Moreira

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