‘Baby Driver’, bom entretenimento ao ritmo da (boa) música

por João Estróia Vieira,    5 Agosto, 2017
‘Baby Driver’, bom entretenimento ao ritmo da (boa) música
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Depois do mau resultado global que foi Ant-Man, onde Edgar Wright participou como argumentista, o inglês voltou ao seu habitat natural de liberdade criativa que o tornou conhecido com Shaun of The DeadHot FuzzThe World’s End, e, talvez o filme com mais paralelismos com Baby DriverScott Pilgrim vs The World. Tal como no filme protagonizado por Michael Cera, este Baby Driver pega num simples conceito e estiliza-o de forma ambiciosa e rebelde tornando-o num grandioso videoclip cinematográfico. Edgar Wright esquece a narrativa de paródia vinda diretamente de uma sitcom britânica mas dá-nos o visual. O resultado é uma fantástica e ritmada experiência para o espectador, com uma das melhores bandas sonoras do ano (no mínimo).

Num filme que bebe muito de The Driver, de Walter Hill, e, mais recente, de Drive, protagonizado por Ryan Gosling, em Baby Driver, Ansel Elgort, de laivos Deanescos e ritmo Astaireano, é “B-A-B-Y, Baby”, um jovem e prodigioso condutor que trabalha para Doc (o típico mafioso rico), protagonizado por Kevin Spacey. Sob a promessa de pagar uma dívida que detém para com Doc, Baby aceita sempre o seu “último trabalho” neste mundo do crime onde conduz carros de fuga. Mas a condução precisa de banda sonora, e esse é um dos grandes, enormes trunfos deste filme, a assunção perante o seu público que as músicas que ouvimos ao longo de todo o filme são mais do que uma componente extra, são, na realidade, parte essencial, protagonista.

Começamos com “Bellbottoms” de The Jon Spencer Blues Explosion para rapidamente seguirmos até um plano sequência que mais parece vindo diretamente do La La Land, em que a letra de “Harlem Shuffle” de Bob & Earl se sintoniza em perfeição com a cena (como é apanágio durante todo o filme) e com a decoração da cidade. Mas Baby quer acabar com os seus dias de criminoso, e a razão aparece-lhe à frente quando se apaixona pela maravilhosa e lindíssima Debora (como na música dos T.Rex, e não como na de Beck, esclarece o filme) Lily James.

Baby Driver não é, de longe, o melhor heist movie já criado, nem tem as melhores cenas de perseguição já feitas, apesar de ter provavelmente as melhor sincronizadas com a banda sonora que as acompanha. As cenas românticas estão repletas de lugares-comuns, mas são lugares-comuns que nos absorvem de tão catchys e sensíveis que são (muito por culpa de Lily James). Mas o filme de Edgar Wright sabe isso perfeitamente, e aceita-o ainda antes de nós o aceitarmos. Ter essa noção faz com que não tenha qualquer pretensiosismo em si, e torne tudo tão mais agradável de se ver (e ouvir) sendo que a presença de actores mais consagrados como Spacey, Jon Hamm e Jamie Foxx, ajuda tudo a fazer ainda mais sentido, também eles levando-se pouco a sério e aceitando este aventureiro desafio.

Baby Driver chega-nos com a desfaçatez veraneante com que se fazem os bons entretenimentos (e as poucas boas surpresas desta altura nas salas), desprendidos de quaisquer dogmas ou amarras que o calor de Agosto tão bem nos faz esquecer. Em época tipicamente baixa no que bons filmes diz respeito, Baby Driver é a solução que dá esperança numa ida ao cinema que dificilmente desiludirá quem for à procura de passar um bom bocado sem “tempos mortos”, e não só por Baby ter na “Brighton Rock” dos Queen a sua música de eleição para a fuga perfeita.

Há várias razões pelas quais se vai ao cinema, sendo uma delas a busca por entretenimento, venha ele de que forma vier. Mais focado no diálogo, mais intelectual, narrativa repleta de metáforas ou mais focado na acção, mais linear, mais óbvio. Porque não aceitar todas estas formas como igualmente legítimas? O cinema cria ligações, e as ligações, tal como as relações, nem sempre vêm por caminhos óbvios, muito menos comuns a toda a gente. Um filme como Baby Driver conseguir criar uma empatia quase palpável com quem o vê, seja em sala ou futuramente em tv (ou pc), é apenas sinal de que o filme conseguiu criar aquilo a que realmente qualquer obra se propõe: uma ligação com a pessoa que o vê, com o público. Aquilo que faz um filme ter sentido é sobretudo ter quem o veja e goste de o fazer.

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