As impressões e sensações despertadas pelo 38º Fantasporto

A 38ª edição do Festival de Cinema Internacional do Porto – Fantasporto chegou ao Teatro Rivoli na última quinzena de fevereiro, e ainda a abrir o mês de março. Como sempre, o colorido de nações e de impressões foi a nota dominante, que fez mesclar temas, e que levou ao cruzamento de culturas, algo tão intrínseco à expressão artística. Nobremente como arte, o cinema que povoou os dois auditórios do recinto marcou-se e demarcou-se pela textura de autor, sem nunca prescindir do fantástico e do extravagante para corresponder à já consolidada identidade deste Fantasporto.

Durante este certame, visionaram-se alguns dos filmes mais destacados no cartaz, incluindo de diversas proveniências e géneros.  A antestreia de “Glass Garden”, no Grande Auditório do Rivoli, foi o primeiro trago a cinema de autor que nos chegou às perceções, da realização da sul-coreana Shin Su-won, que por lá se encontrava para receber os aplausos dos espectadores. Um trama que colocou a fisiologia em dialética com a natureza, narradas para a literatura que protagonizou esta sessão de cinema. Uma cientista e o seu caminho rumo à eternidade do homem em forma de árvore, em íntima conexão com as demais, na saúde e na pureza da natureza. A epifania versou na utopia, que cruzou realidade com sonho, inspiração com aspiração, e deslocou o foco das atenções para a homenagem do sonho humano, e dos limites que são esticados e extrapolados nessa trajetória.

“Glass Garden”, de Shin Su-Won.

No espectro da retrospetiva, naquilo que são conhecidos como os B-Films, assistiu-se, no Pequeno Auditório, a uma das preciosisdades da realização de Wang Chu-Chin, “On the Society File of the Shanghai”. Datado de 1981, a ação desenrola-se na china maoísta, no auge da Revolução Cultural comunista, e na qual cresce uma talentosa jovem, que nutre a sua paixão pela dança e pelo filho do paciente para a qual trabalha como enfermeira, este com uma causa democrática que se vê abruptamente silenciada após ser assassinado. Isto após transformações profundas dessa jovem, cujo crescimento é acompanhado, desde o período em que se integra nos quadros da estrutura militar chinesa até aos momentos subsequentes, em que o flagelo a fará enveredar pela marginalidade. Não é do suor nem do sangue que é feito este filme, mas sim de um percurso, de uma identidade que vai conhecendo alterações e, por conseguinte, diferentes expressões.

Os superheróis também foram intervenientes neste Fantasporto, unindo-se a Liga da Justiça à sociedade dos Eagle Talon, declaradamente maléfica, visando dominar o mundo, e que se vai confrontando com o (suposto) herói Deluxe Fighter. No entanto, ambas voltaram-se para suster a invasão de Penguin, Harley e Joker ao Japão, país onde esta segunda atua. É esta Eagle Talon que procura apresentar o seu filme, a partir de um orçamento que vai sendo controlando ao longo da narração de todo o enredo. Entre publicidades e demais eventualidades, Yoshida vai orientando os passos pelos quais estes superheróis se vão exprimindo e mostrando o seu repertório de poderes e de vocações. O anime e os comics surgem convergentes nesta aliança temporária mas proveitosa, em mais um traço que delineia a versatilidade e a efusividade do Fantasporto.

“The Child Remains”, de Michael Melski.

No último dia, os premiados voltaram a ter o protagonismo do grande ecrã do principal auditório do Rivoli. Na flor da tarde, deparamo-nos com o trabalho do canadiano Michael Melski, “The Child Remains”. Não há Fantasporto sem terror, sem a iminência do horror na evidência do terror. Um dos trabalhos de destaque do género no país a norte dos Estados Unidos, conta a história de uma hospedagem que foi, outrora, uma espécie de maternidade dos anos 70, mas que, por via de uma interpretação bíblica fundamentalista e doutrinária, eliminava as aspirações das recém-nascidas logo à partida. Era assim que morriam, por via de uma parteira que contava com a subalternidade do seu coveiro, que enterrava os fetos no meio das florestas. Foi neste contexto que surge um casal, composto por uma jornalista criminal e um músico frustrado, que decide passar um fim-de-semana naquele lugar, procurando relaxar e relançar as respetivas carreiras profissionais, e aproximar as pessoais. Porém, toda a aura do espaço mantém-se viva e apodera-se das personagens, levando a espiral do enredo ao já identitário cinema que fez do Fantasporto um festival de proa no sentido da fantasia e do susto.

Todo o mundo, sem nunca esquecer as origens lusitanas, são vertidas nesta celebração do cinema de imaginação, de introspetiva e de retrospetiva, com os alicerces conferidos à diversidade e ao experimentalismo. Sem nunca esquecer a emergência de criativos portugueses, a 38ª edição do Fantasporto providenciou o conforto em desconforto, com o corpo relaxado no banco, mas com a mente a deslumbrar e a vislumbrar quem pelo globo se atreve a desafiar o institucionalizado, e a exprimir novos modos de ver, de sentir e de propor experiências sensoriais aos cinéfilos. No rescaldo de mais um festival, a certeza que de o cinema permanece como uma fonte de criatividade e de vitalidade perante a escala da realidade.

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