Academia sem lugar

Aveiro

Ser estudante assume em diversas dimensões uma responsabilidade acrescida, principalmente, para os que não se encontram na sua cidade. Desta forma, o custo associado aos transportes, alimentação e alojamento consubstanciam uma parte importante do orçamento das famílias portugueses.

O dia-a-dia de um estudante deslocado da sua zona de residência fica marcado por um conjunto de rotinas que envolvem a forma como se desloca no nosso País. A rotina inerente à chegada à Universidade, naturalmente terá custos.

Entendi então, ser bastante pertinente utilizar exemplos reais, para aferirmos efetivamente o que poderá ter sido um impacto das medidas, que recentemente foram tidas em Orçamento de Estado.

A Juliana mora na freguesia do Muro, costuma ir de boleia até à Trofa e apanha um comboio até Campanhã, para depois deslocar-se até Aveiro, onde apanha um autocarro para ir até a sua casa. Esta rotina tem um custo médio de 5,65€ e considerando que é feita, duas vezes por semana, temos uma média de custos mensais de 45€. O Edgar mora na cidade de Mirandela, vem de autocarro até Aveiro numa viagem de 4h e apanha táxi para ir até sua casa. Esta rotina tem um custo médio de 19,40€ e considerando que é feito, apenas três vezes por mês, temos uma média de custos mensais de 58€. O Rui mora na cidade de Felgueiras, vem de autocarro de Vila Fria até Vizela e de comboio até Campanhã, para depois se deslocar até Aveiro, onde apanha um autocarro para ir até sua casa. Esta rotina tem um custo médio de 18€ e considerando que é feita, quatro vezes por mês, temos uma média de custos mensais de 72€.

A história destes três estudantes é comum a muitos outros e reflete os custos consideráveis de permanência no Ensino Superior, apenas a nível de transportes. Tendo em conta que as rendas em Aveiro, estarão em média a 230/250€ estamos a falar de valores que estão sujeitos, a fenómenos tais como: “contas à parte”, “não passamos recibo” e “terá que pagar os meses que não estiver para ficar com o quarto”, percebe-se a dificuldade do cenário que um estudante e a sua família enfrentam.

A realidade hoje é que o OE para 2019 não deu qualquer importância a isto. Efetuou uma redução no valor da propina, que, no entanto, fazendo as contas, com base na possibilidade de pagamento da propina em 10 prestações pela Universidade de Aveiro, esta medida traduz apenas uma redução de cerca de 20 euros no orçamento mensal do estudante. Para além disso, a redução do teto máximo do valor da propina, levanta o véu sobre a questão da ação social direta, nomeadamente as bolsas de estudo atribuídas aos estudantes do Ensino Superior.

Ora, estando o valor da propina associado ao valor do cálculo da bolsa de estudo, a redução do teto máximo da propina implicará necessariamente, com que mais estudantes não fiquem abrangidos por este mecanismo, essencial para continuidade dos estudos, ao mesmo tempo que constatamos um subfinanciamento crónico da Instituições de Ensino Superior.

O princípio poderá estar correto, só que não irá ter os efeitos desejados e torna-se uma medida inócua que não vai ao encontro dos desafios que o Ensino Superior enfrenta em Portugal.

Infelizmente existem estados de arte que irão perpetuar-se nos próximos anos letivos:

1. Ineficientes redes de transportes;
2. Discussões com os senhorios acerca das condições da habitação;
3. Inexistência de recibos;
4. Menos estudantes bolseiros;
5. Subfinanciamento das instituições.

Este país não sabe onde quer estar e também não quer dar condições às novas gerações de estarem onde querem.

A nossa geração quer assumir o protagonismo e tomar as decisões para transformar a sociedade portuguesa. Um país não se pensa com a visão de um ciclo eleitoral, mas sim numa década.

Não basta amealharmos o suficiente para nos deslocarmos mais uma vez às nossas casas. É preciso exigirmos condições para sairmos de vez dela.

Está na altura de novas lideranças.

Crónica de Xavier Vieira
Presidente da Direcção da Associação Académica da Universidade de Aveiro

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