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A sátira de Púchkin em ‘Eugénio Onéguin’

por Miguel Fernandes Duarte
28 Dezembro, 2016
em Críticas, Literatura
A sátira de Púchkin em ‘Eugénio Onéguin’

Aleksandr Púchkin é a origem da literatura russa como a conhecemos. Como podia a obra máxima de alguém como ele não estar publicada em português? Sendo Eugénio Onéguin um romance em verso, acho que a primeira coisa para a qual temos de olhar é à dificuldade de uma tradução como esta. Escrito todo – as 389 estrofes – em versos jâmbicos de quatro pés, com esquema rimático AbAbCCddEffEgg, onde as maiúsculas designam feminino e minúsculas masculino, podem facilmente imaginar o quão difícil será trazer uma obra destas para o português (ou qualquer outra língua).

Presume-se, portanto, até pelo que é escrito no preâmbulo pelos tradutores Nina e Filipe Guerra, que nem sempre o sentido literal do texto, de modo a preservar o esquema rimático, é conservado. Os tradutores optaram por manter o ritmo, a cadência da leitura e a musicalidade parecidas ao original, em detrimento, possivelmente, de certos detalhes na escrita. Decisões como esta não agradaram, ao ver as traduções inglesas, a Vladimir Nabokov, que acabou ele próprio por fazer, 1964, uma tradução de Eugénio Onéguin onde dá relevância praticamente só ao conteúdo do texto.

O que é certo é que vai sempre existir uma perda de qualquer um dos lados. Eugénio Onéguin é, acima de tudo, uma das primeiras obras a mostrar aos russos que era possível escrever literatura na sua própria língua e, desse ponto de vista, tem certamente uma imensa importância lexical e linguística que é imperceptível para um leitor português que leia esta tradução (ou de qualquer outra língua). E certamente que é possível dizer que tal acontece com todas as traduções – imenso já foi escrito sobre isso -, mas, principalmente numa obra de tais características, tal é certamente notado.

A história é, à superfície, bastante simples: a perfeita história de enamoramento e desamor. Focando as duas principais personagens, Eugénio Onéguin, um jovem de 26 anos já enfadado com a vida, o típico dândi, e Tatiana Lárina, uma tímida filha de um nobre rural. A partir daqui é fácil: Tatiana, quando Eugénio visita a sua casa acompanhado do seu amigo poeta Lênski (que está noivo da irmã de Tatiana, Olga), apaixona-se pelo dândi que, fruto das histórias de amor que cresceu a ouvir e a ler, imagina como príncipe encantado que, e Púshkin deixa-o bem claro através de certas observações mordazes durante a obra, Eugénio não é. Tatiana, não conseguindo conter em si esta paixão, escreve-lhe uma carta a declarar o seu amor, a qual sensibiliza Eugénio, mas não o arrebata de amores. É, portanto, como homem de muita experiência, que Onéguin diz a Tatiana para, em próximas ocasiões, ser mais reservada, para nenhum homem mal-intencionado se aproveitar da sua inocência.

O acontecimento marcante dá-se quando o jovem poeta amigo de Onéguin, Lênski, o convida para um pequeno serão na casa de Tatiana e Olga. Ao chegar, o protagonista apercebe-se que foi ludibriado, vendo à sua frente, não um pequeno serão, mas um verdadeiro baile, daqueles dos quais estava completamente enfadado e onde não poria os pés por vontade própria. De forma a conter a sua fúria, decide convidar para dançar (e seduzir) Olga, levando a que Lênski, chocado por ver a sua noiva nas mãos de outro, desafie Onéguin para um duelo, de forma a defender a sua honra.

A futilidade e a desnecessariedade são bem explícitas, com várias hipóteses para sarar a ferida e impedir o duelo a serem desaproveitadas, culminando na, completamente desnecessária, morte do jovem poeta Lênski, vítima do seu romantismo. Curioso que tanto o próprio Púchkin como outro dos mais célebres poetas russos, Lérmontov, acabem por morrer como o jovem poeta da obra ficcional de Púchkin, vítimas de uma necessidade de manter a honra até à morte que os leva a enveredar por um duelo fatal. O autor não segue o seu próprio conselho quanto à inutilidade dos duelos e acaba por perecer por isso. Um daqueles casos de “faz o que eu digo mas não faças o que faço”.

Este duelo marca o centro da obra e leva à inversão dos papéis na segunda metade da obra, com a ascensão de Tatiana ao exemplo da grande mulher Russa, propulsionando Onéguin a apaixonar-se por ela, sendo desta vez tempo de por Eugénio a sofrer aos braços da mulher, que mostra o seu carácter e a sua força para se sacrificar pelo que é correcto. Mas, apesar disso, fica sempre a ideia de que, talvez, nem Tatiana nem Onéguin estejam, afinal, a fazer mais do que a cumprir o papel que lhes é atribuído pela sociedade. Tatiana, criada em romances de cavalaria, faz na adolescência aquilo que foi ensinada a fazer, apaixonar-se, para mais tarde fazer aquilo as convenções determinam que deve fazer como adulta, resistir a essa paixão e honrar o seu compromisso. Onéguin, criado para ser um dândi, fruto da sua classe social, acaba também a obedecer a essas mesmas convenções, envolvendo-se num duelo quase por obrigação, a mesma com que se via levado a frequentar bailes e a enfastiar-se dos mesmos.

É esta estrutura invertida que transforma a obra (mais do que a morte de Lênski) numa tragédia. Uma cómica, no entanto, porque parte do apelo de Púchkin é a sua piada, a sua ironia e o constante retrato de costumes do qual faz troça. Onéguin é alvo do próprio autor, sabendo ele, no entanto, que não seria assim tão diferente daquele que retrata; ao ponto de fixar, durante o livro, diferenças entre ele próprio e o “herói” da sua obra.

É em momentos como este que revela outra das suas mestrias, sendo um dos pioneiros na arte de “deitar abaixo a quarta parede”, aquela que separa o autor do leitor, fazendo diversas pausas na sua narração para se dirigir na primeira pessoa ao leitor, divagando e relatando cenas que não são directamente relacionadas com a obra. O incrível é a forma como todas estas passagens são fluídas, ao ponto de ser uma leitura tão ritmada, um cavalgar em cima da rima, que transmite a sensação de ligeireza. E foi esta que os tradutores quiseram e, quanto a mim, conseguiram manter, dando ao leitor a tradução não perfeita, mas possível, desta obra basilar da literatura Russa.

Eugénio Onéguin, de Aleksandr Púchkin, está editado pela Relógio d’Água.

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Tags: Eugénio OnéguinliteraturaPúchkinPúshkinRelógio D'ÁguaRusso

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