Yu Hua, um dos grandes da literatura Chinesa

31 MARÇO, 2017 -

Num mundo de pobres, trabalhadores agrários e operários, o acto de vender do próprio sangue pode ser a diferença entre passar fome ou viver desafogadamente. Quando o dinheiro adquirido através do suor de cada dia não chega para os mais básicos gastos, resta vender um pouco da própria vida para que aqueles que de nós dependem sejam capazes de sobreviver dignamente.

É neste contexto que vive Xu Sanguan, o protagonista de Crónicas de um Vendedor de Sangue, de Yu Hua, título inaugural da série de livros agora criada pela Relógio d’Água, onde, além deste, serão publicados clássicos contemporâneos da literatura chinesa, todos traduzidos a partir da língua original, facto mais que louvável, dada a ausência, não apenas de traduções do original, como mesmo de literatura chinesa, no panorama editorial português.

Incidindo sobretudo sobre a vida de Xu Sanguan, transportador de casulos numa fábrica de seda, somos conduzidos desde o momento em que é introduzido à prática da venda de sangue, cujo dinheiro utiliza para convencer Xu Yulan (que já estava prometida a outro) a casar consigo, até à sua velhice, com filhos já criados. Mesmo sendo um relato das dificuldades que Xu Sanguan, a mulher e os filhos, superam ao longo da vida, As Crónicas de um Vendedor de Sangue nunca é um relato do bem contra o mal, onde uma família de heróis é tão azarada que se vê com constantes problemas. Há erros de parte a parte, desde logo começando na forma como Xu Sanguan seduz Xu Yulan, e indo, entre outros, até à forma como Xu Sanguan descobre que o seu primeiro filho, Yile, não é na realidade seu, e às formas como reage a essa descoberta. Xu Sanguan, homem de pouca educação, não é um exemplo de comportamento, não traz consigo um código de conduta a adoptar pelo leitor que ler esta obra; é um ser humano como qualquer outro, como, aliás, o são cada uma das personagens apresentadas ao longo da obra.

Yu Hua

Também da simplicidade do personagem principal nos chega o tipo de escrita de Yu Hua ao longo da obra. Simples e directa, mas, ao mesmo tempo, recheada de metáforas, parece ter um ritmo muito próprio que é difícil dizer se é unicamente obra do autor, ou também fruto da língua em que está escrita, a chinesa. Mas não é só na escrita que este livro é indissociável da China, e da sua cultura, ainda que a sua história concreta pudesse ser adaptada a muitos outros contextos. Apesar de tudo, foi inserida neste e, não sendo esse o foco da obra, o mesmo tem de ser tido em conta.

Decorrendo durante o comando da China por Mao Tsé-Tung, nas alturas em que esse facto é tornado claro (como quando ocorre a Revolução Cultural Chinesa) somos confrontados com um ambiente quase distópico, onde pessoas são humilhadas em sessões públicas de crítica mesmo que nada tenham feito, simplesmente por necessidade de arranjar alguém que represente o papel daquele tipo de alvo do regime, como os latifundiários ou as prostitutas. Ou quando os jovens são enviados para o campo para trabalharem a terra, jovens afastados das famílias, alguns mesmo sem condições físicas para o fazer.

Há, ao longo de toda a obra, uma certa resignação, quase tornada em resiliência, face aos acontecimentos que vão ocorrendo. Nunca são abordados temas de cariz ideológico, nunca se vê referidos o socialismo ou comunismo pelo nome. A sua presença faz-se sentir como mais uma das influências externas que se atravessam como obstáculos à felicidade plena da família Xu, como o são a descoberta da traição de Xu Yulan ou outros que não vou enumerar aqui.

Em Xu Sanguan vemos, provavelmente, aquilo que é para o autor o típico chinês, pelo menos o típico chinês daquela época. Um homem com o objectivo de cuidar dos seus, mas que não gosta de ver que foi enganado e que perdeu a sua honra. Um homem que comete os mesmos erros que julgaria desprezíveis noutros seres humanos, apercebendo-se tarde demais para os reparar. Um homem que vende a própria vida, representada pelo sangue, o máximo de vezes que consegue, tanto para salvar os seus da fome e da doença, como por pura luxúria. Somos nós todos, mais ou menos educados, qualquer que seja o género, qualquer que seja o contexto e a cultura.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Pequim deu luz verde à plantação de canábis em duas províncias e está a investir fort

Filmes e séries televisivas exibidos na China "devem ser repletos de ideologias convencion

A posição do ministério surge pouco após a Comissão Europeia (CE) ter anunciad

O artista e ativista chinês Ai Weiwei retorna a Nova Iorque, segundo o