‘World Eater’, de Blanck Mass, é uma composição tão minuciosa quanto impulsiva

9 MARÇO, 2017 -

World Eater é o terceiro LP a solo de Benjamin John Power, conhecido como membro fundador do duo Fuck Buttons. O projeto Blanck Mass representou uma mudança estilística para o músico, que tem vindo a amplificar o processo experimental, numa relação que diz ser assumidamente de tentativa e erro. Exemplo disso foi “Dead Format, uma das surpresas de 2015, onde se observa um exercício texturado de adição e subtracção, aquilo que alguns podem desacreditar como uma parede impenetrável de ruído.

Power, apesar de aparentemente metálico, aprofunda sempre os temas humanos com uma sensibilidade aguçada, observando a fragilidade humana, o estranho caminho evolutivo que tomamos e a máquina como extensão. O mais recente LP debate-se novamente com a temática da natureza humana, explorando uma civilização marcada pela dicotomia do impulso primitivo e da evolução intelectual. Adivinha-se uma auto-destruição da raça humana já em curso. World Eater leva-nos nessa viagem, numa composição tão minuciosa quanto impulsiva.

O disco, distribuído pela Sacred Bones, conta com sete faixas num total de 50 minutos de viagem caleidoscópica, vozes distendidas e rugidos animalescos. “John Doe’s Carnival of Error” inicia o álbum com uma melodia simultaneamente infantil e sinistra que se vai compondo, que se vai criando sobre si mesma. Corte, sampling, que se enche e se enriquece ficando progressivamente mais industrial. Só em “Rhesus Negative” é que se adivinha a descida visceral anunciada pela capa salivante. É aqui que se começa a tactear a hipnose, com uma melodia transcendente na marca dos dois minutos da faixa. Existe um estado de êxtase que nos transporta pelo álbum. A estrutura de hino e as samples vocais quase sacras misturam-se com rugidos de violência que, mesmo selvagens, não interferem na beleza da viagem. Uma beleza negra que já detém afinidade com Blanck Mass e que se revela poderosa em faixas como “Please e The Rat”, a hipervelocidade.

O single “Silent Treatment” é de uma beleza etérea que lentamente nos cobre, num sentimento sobrenatural que invoca esse carácter meditativo do fim dos tempos. A repetição vocal inunda-nos novamente com um estado glorioso, que constrói e se desconstrói com uma modulação própria dos anos 80, com sintetizadores harmonicamente ricos. Tudo isto sucede sempre com um fundo crepitante, um ruído oscilante, num ritmo pulsante. Confusão esta que só em breves momentos nos deixa respirar, como em “Minnesota / Eas Fors / Naked”, um dos momentos mais indecifráveis e mais gratificantes do álbum. Tudo culmina em “Hive Mind”, que, apesar de frágil, cria um build-up de oito minutos que, atingindo um clímax inquietante e desconfortável, se dissolve num shoegaze sem respostas.

É um novo capítulo na já extensa discografia de Benjamin John Power, que poderá ser deliberadamente fracturante. Apesar de ser tratar de um álbum narrativo muito interessante, deixa a desejar no que toca a certas progressões, natureza da estrutura dual difícil de equilibrar. Não obstante, é um álbum que nos dá que pensar, em que observamos e nos sentimos figura integrante na sua construção, podendo até criar exercícios de dissecação com camadas de modulação a desvendar. Diria ser impossível World Eater passar por nós de forma indiferente, tendo imenso potencial para revisões e reinterpretações.

É apreciar esta a narrativa sónica que World Eater nos oferece em 50 minutos dignos de contemplação. São certamente abrasivos: uma euforia perfurante no limiar do Apocalipse.

Melhores faixas: “Rhesus Negative” e “Silent Treatment”.

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