Woody Allen: quando o realizador é a banda sonora

4 JULHO, 2017 -

Woody Allen, o clarinetista, vem a Lisboa para um concerto com a New Orleans Jazz Band no Coliseu. Uma banda que bate o pé ao sabor do improviso e responde ao papel atribuído em cada momento

Quando Woody Allen nasceu, em 1935, o jazz era música popular e ouvia-se nas rádios. “A música que se ouvia era de Benny Goodman e Count Basie, havia canções de Gershwin, Cole Porter, Rodgers & Hart, Jerome Kern e Irving Berlin. Eu achava aquela música maravilhosa. Aos dez anos sabia de cor qualquer canção de Gershwin, Cole Porter, Kern. E adorava a música dos anos 20 e 30”, contou em entrevista.

Devorador compulsivo de informação, aos 15 anos começa a escrever, faz rádio e…aprende a tocar clarinete. A banda sonora nasce geminada com o futuro argumentista, depois de se ter deslumbrado com o talento prodigioso do músico Sidney Bechet.

Estuda com o clarinetista e saxofonista Gene Sedric e em 1970 funda a New Orleans Funeral and Ragtime Orchestra, quando a imagem de Woody Allen começa a tomar a forma que conhecemos.

Os universos cinematográficos e musicais são indissociáveis mas, enquanto o Woody Allen realizador não imagina o filme sem a banda sonora, o instrumentista não precisa de olhar a música com outros olhos que não aqueles com que uma era dourada do jazz é recebida. Ao clarinete, Woody Allen é o protagonista de um concerto com a New Orleans Jazz Band em que irá apresentar um tributo improvisado a ícones como Louis Armstrong, George Lewis e o homem que lhe mudou a vida para sempre, Sidney Bechet.

É provável que o fascínio pela figura e a admiração pela cinematografia leve ao Coliseu dos Recreios alguns curiosos e outros espetadores menos conhecedores do percurso musical, mas convém alertar que o músico que há em Woody Allen é um ortodoxo e defensor ferrenho da espontaneidade e improvisação coletiva.

Eddy Davis no banjo, Conal Fowkes no piano, Simon Wettenhall no trompete, Jerry Zigmont no trombone, John Gill na bateria e Greg Cohen no baixo são “atores secundários” essenciais para Woody Allen poder brilhar no papel menos conhecido mas crucial para compreender o diálogo entre som e imagem. “Utilizando um repertório superior a mil canções, Woody Allen vai escolhendo durante o concerto os temas que se sente inspirado a tocar, respeitando um atributo primordial do jazz, que é o improviso. Com a ajuda de Eddy Davis, que toca banjo e é diretor musical da New Orleans Jazz Band, Woody Allen desafia o coletivo de músicos em palco e o público a acompanharem-no numa jam digna de um clube de jazz nova-iorquino – como The Carlyle, em Manhattan, onde tocam, desde 1996”, adverte um comunicado de apresentação do concerto de hoje à noite no Coliseu dos Recreios (20h30, com bilhetes entre 25 e 120 euros).

Ou seja, para este grupo de sete músicos, a pauta a seguir é a da vontade própria. O octogenário Woody Allen (1 de dezembro de 1935) ainda tem espaço suficiente na memória para reter catálogos de clássico e interpretá-los sob um guião pessoal de prazer e homenagem.

As digressões não têm sido tão frequentes como os filmes – as últimas visitas datavam do biénio 2004/2005 ao Casino Estoril e Centro Cultural de Belém, respetivamente -, mas são frequentes as apresentações da New Orleans Jazz Band em Nova Iorque, com participações regulares de Woody Allen.

Em 2012, Angelina Jolie introduziu e recebeu a estatueta para Melhor Argumento de “Meia-Noite em Paris” porque o autor do filme estava num clube a solar como se não houvesse cerimónia, na passadeira que lhe importa: o palco.

Hoje, o Coliseu não terá “o fumo e o charme de uma certa decadência própria dos clubes, é certo”, mas não lhe faltará “o que o público merece: músicos de enorme rigor técnico a improvisar e a divertirem-se”, refere a nota introdutória.

Woody Allen celebrará a memória do tempo do vinil e também um sentimento de eterna juventude reconhecível na sua filmografia. O músico não fará esquecer o cineasta, mas é mais do que turista, apropriador de uma herança cultural ou monge copista de uma das mais sérias heranças da música americana.

O jazz pode ter perdido importância na cultura popular e não será Woody Allen, o clarinetista, a resgatá-lo graças à projeção adquirida no cinema, mas a abordagem é a de um músico sério e comprometido com a história.

Na ressaca da vitória na Eurovisão, Salvador Sobral congratulava-se por ter em “Excuse Me” um disco de jazz no lugar cimeiro da tabela de vendas. O Coliseu será o palco da cena mas, tal como nos filmes, esta música pode ser vibrante, convidativa e até lúdica. Sugerir histórias, personagens e lugares. Mas tem densidade e convida à reflexão.

Artigo escrito por Davide Pinheiro, publicado no nosso parceiro jornal i

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