Vodafone Paredes de Coura: o regresso de King Krule, os sensuais Timber Timbre e a metamorfose de Nick Murphy

18 AGOSTO, 2017 -

Após uma tarde indolente à beira-rio, a ouvir os concertos do Palco Jazz na Relva, ou até a espreitar a actuação impromptu dos Nothing no campismo, o pessoal arrasta-se até aos banhos apinhados para se preparar para mais um dia de concertos do Vodafone Paredes de Coura.

Quando chegamos ao recinto, os You Can’t Win, Charlie Brown concluíam o seu concerto. Ouvimos duas canções longas, com malhas psicadélicas, e um enrodilhado de vozes que atribui complexidade melódica às mesmas. Após a penúltima canção, perguntam-nos se conhecemos aqueles vídeos do YouTube em que editam vídeos de performances, colocando uma faixa áudio que faz parecer que a banda está a fazer um péssimo trabalho. “Foi tipo isto”, dizem-nos. Pelos vistos, a gente não reparou, mas eles comprometem-se a fazer a melhor versão que podem do tema final. Despedem-se do público e aconselham-nos a ir ver Bruno Pernadas no dia seguinte, conselho que entusiasticamente seguiremos.

Por esta altura, já o palco Vodafone.fm se enchia de ruído proveniente do sistema de som dos Nothing, banda de Philadelphia que une a aspereza da reverberação e distorção do shoegaze a vocalizações melancólicas, demonstrando algumas influências do grunge, e suscitando comparações a pares contemporâneos como os Whirr ou Cloud Nothings. A banda encontrava-se no ponto médio da sua tour europeia, um ponto que pode ser complicado para os artistas, mas afirmam adorar Portugal, dado que fazemos sempre um óptimo público (“E isto não é só conversa”, garante-nos o vocalista Dominic Palermo). O conforto que sentem cá traduz-se no pedido de palmas para acompanhar uma das canções, por parte de Dominic, que afirma nunca ter feito isso antes. Os silvos agudos que se ouviam entre canções não afugentaram o público, que apenas debandou para seguir para aquilo que se iria passar no palco principal.

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A banda responsável por reforçar a vida do indie rock em 2016, Car Seat Headrest, era uma das mais esperadas pelo público melómano do festival. As canções longas de Will Toledo, que oscilavam entre agitação e placidez, entusiasmaram a audiência, que fez levantar a primeira nuvem de pó do dia enquanto gritava o refrão maior que a vida de “Fill in the Blank”. Os indícios de genialidade presentes na composição das canções fazem-se notar ao vivo, pela complementação das frases de Toledo por parte de outros membros da banda ou pelos ritmos fortes que as suportam. Will Toledo é um frontman invulgar, mas que está à vontade na sua pele, elevando-se na sua peculiaridade. Não segue a escolha mais fácil, que seria simplesmente pejar o concerto das suas canções mais possantes. Mantém-se fiel à sua visão, o que é admirável.

Por outro lado, a visão dos Timber Timbre é a de encontrar a sensualidade onde não existe. O vocalista Taylor Kirk, com a sua fronte calva, cabelo lambido e fato com padrões de leopardo serpenteava-se de uma forma que só não era perversa por ser tão genuína. O smog do mais recente Sincerely, Future Pollution tomou contornos mais rockeiros ao vivo, se bem que as teclas e linhas de baixo continuaram tão sensuais como sempre, como ouvimos em “Velvet Gloves & Spit”. Esse equilíbrio foi atraindo público ao longo do concerto, que ovacionou a banda mais que uma vez. A lindíssima “Hot Dreams” foi desacelerada, contando com uma entrega da letra mais compassada, e, ao saxofone fina,l adicionou-se a guitarra eléctrica que, de certa forma, ampliou o intimismo da canção, tornando-o épico. Até agora, terá sido a canção do festival. Despedimo-nos a abanar a anca ao som de “Grifting”, cujo refrão nos lembra de “Superstition”, de Stevie Wonder. Um excelente concerto da banda canadiana, que terá ganho alguns seguidores curiosos com esta performance. Esperemos que regressem depressa.

Um regresso que já tardava era o de King Krule. Depois de ter ido ao extinto Vodafone Mexefest, no Porto, em 2012, lançou um álbum, criou um projecto alternativo, mas não voltava a Portugal por nada, apesar da base de fãs que clamava insistentemente pelo seu regresso. As preces foram ouvidas, e o povo que se acumulava em frente ao Palco Vodafone foi brindado com as canções que conhece tão bem, como “Easy Easy” ou “Out Getting Ribs”. O concerto foi um testemunho da capacidade de instrumentista de Archy Marshall, que usa a sua guitarra para criar texturas intimistas em estúdio. Esse intimismo perdeu-se ligeiramente na tradução ao vivo, ganhando outros detalhes mais adequados a uma performance de festival.

A “canção sobre répteis” “A Lizard State” foi bastante celebrada, não apenas por ser uma das mais reconhecidas, como por ter sido eximiamente interpretada, com direito a um solo de saxofone fenomenal. “Baby Blue” “Ocean Bed” resultaram bastante bem, conjurando o mood nocturno pelo qual Marshall é reconhecido, e fundindo-se com o céu estrelado que se abria sobre as nossas cabeças. Entretanto, houve espaço para desbravar novos terrenos, com um punhado de canções novas que nos deixaram de pulga atrás na orelha. Parecem expandir a paleta sonora de King Krule, deixando entrar influências de bossa nova. e ir em direcção ao jazz. Foi um concerto que deu para matar saudades e demonstrar o amor português pela música do britânico, que conseguiu arrancar a banda dos bastidores para um encore, o único do festival nestes primeiros dias.

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Numa excelente decisão por parte da organização, os Ho99o9 (lê-se “horror”) apenas deram início ao seu concerto após o término do concerto de King Krule. Uns meros segundos depois, começou a batalha campal entre o público, que apenas desistiu no final. O som cheio saía da tenda, com uma agressividade tal que tivemos medo que rebentasse com ela. As comparações lógicas a Death Grips verificam-se, se bem que aqui as canções são mais abrasivas, com batidas punk e distorção para lá do discernível, criando uma força motriz que obriga o povo a abanar a cabeça. A somar a isso, a violência dos berros dos dois MCs theOGM e Eaddy sobrepõe-se incrivelmente a esta parede de som, ao mesmo tempo que ambos se agitam em palco, se atiram para cima do público e fazem acrobacias. Não houve um preâmbulo para isto a que assistimos, mas não pareceu deslocado e foi um bom aquecimento para o que se seguiu.

O pós-hardcore dos At the Drive-In era outro dos pontos altos do festival, numa estreia absoluta em Portugal que decerto moveu muita gente às margens do Rio Coura. O projecto alternativo dos líderes dos The Mars Volta, Cedric Bixler e Omar Rodríguez-López, encheu o auditório natural com riffs musculados e ritmos potentes, apresentando uma mixagem de som fantástica em que tudo se discernia na perfeição. O público não se fez rogado e fez com que se respirasse mais pó que ar, saltando, atirando-se violentamente uns contra os outros, e voando nas mãos dos seus semelhantes até às mãos dos seguranças, que não tiveram mãos a medir. Bixler fez questão de salientar que aquilo que estavam ali a fazer não seria possível se as pessoas não se aceitassem todas umas às outras como elas são, numa mensagem de amor e aceitação que urgiu que o povo levasse para casa. Agradeceu aos seus “irmãos e irmãs” do público, e a banda atirou-se ao portento de “One Armed Scissor”.

Após uma longa pausa para depurar o combo de agressividade que se antecedeu, entrou em palco o nome mais surpreendente deste cartaz, Nick Murphy, previamente conhecido como Chet Faker. O downtempo que caracterizava a sua, de forma redutora: “música para sexo”, viu-se aqui suplantado por uma electropop dançável, com mergulhos bastante interessantes em sons mais progressivos. A voz do australiano continua igual a si mesma (e, convenhamos, igual à de outros artistas), instigando emoção através das suas progressões melódicas. Foi um concerto bastante bem recebido pelo público, que dançou vigorosamente ao som das canções que o tornaram famoso durante uns meros 40 minutos, duração que deixou muita gente incrédula. O pináculo terá sido “Talk is Cheap”, se bem que o momento em que o público levantou lâmpadas oferecidas pelo festival, lanternas de telemóvel ou isqueiros, ao som da balada final, também andou lá perto.

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Para o after-hours, o festival elencou uma opção arriscada: os sul-coreanos Jambinai, que combinaram instrumentos tradicionais da folk coreana com aqueles a que estamos habituados, numa sonoridade post-rock que até conseguiu pôr as pessoas a dançar, com a combinação perfeita da bateria com o fenomenal geomungo, tocado eximiamente por Sim Eun-Yong. Com bastante humildade, a banda agradeceu a recepção calorosa e atenta do público que ultrapassou largamente as suas expectativas. Os Jambinai vêm juntar-se à larga lista de pérolas do mundo que Paredes de Coura nos vai mostrando, de forma bastante bem sucedida.

A festa continuou com o set de Marvin & Guy, que puseram o povo a dançar até altas horas. O festival regressa hoje com concertos de BadBadNotGoodBruno PernadasBeach House ou Moon Duo.

Fotografias da autoria de Hugo Lima

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