Vodafone Paredes de Coura: a exultação de Benjamin Clementine e a imprevisibilidade dos Foxygen

22 AGOSTO, 2017 -

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O último dia do Festival Vodafone Paredes de Coura recebeu um alinhamento que pode descrever-se como sendo energético. Para além disso, foi um dia cheio de favoritos do público português. Antes de darmos entrada no recinto, houve tempo para espreitar o programa do Governo Sombra, gravado nas margens do Rio Coura, ao qual os banhistas assistiam.

Em 2012, o Festival de Paredes de Coura recebeu uma das actuações mais importantes no panorama musical português: a reunião dos Ornatos Violeta. Este ano, como que numa celebração desse momento, Manel Cruz abriu o palco Vodafone neste dia. Acompanhado da banda à qual chama Extensão de Serviço, Manel Cruz apresentou um punhado de canções novas, misturadas com canções mais reconhecidas, como “Cães e Ossos” ou “A Invenção da Tarde”. Situado em frente a um ouvido gigante, que incitava o público sempre crescente a ouvir com atenção, Cruz destilou a sua poesia cheia de frases mordazes a que subpunha melodias vindas do seu banjo ou das suas guitarras. “Muito obrigado, pessoal. Do fundo do coração”, diz-nos o artista que claramente se sente em casa neste festival.

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Três anos depois de uma actuação no after hours, os portugueses White Haus, projecto de João Vieira (dos X-Wife), regressam ao Paredes de Coura para uma actuação a uma hora inusitada, tendo em conta a sua sonoridade. As batidas não são necessariamente originais, mas são absolutamente infecciosas e puseram o povo a dançar, mesmo estando o sol ainda relativamente longe de se pôr. A voz de Vieira sobrepõe-se aos restantes sons e cativa, com descontracção e uma certa perniciosidade. Despedimo-nos da banda ao som das teclas, facilmente reconhecíveis para quem ouve a rádio que dá nome ao palco, de “Far From Everything”.

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O concerto que se seguiria seria uma incógnita até decorrer. Os Foxygen (ou melhor, o seu vocalista) podem ser uma banda relativamente imprevisível. Depois do desastre de há dois anos no Primavera Sound, em que se dedicaram menos a ser os Foxygen e mais a ser uma banda de covers horrenda dos Rolling Stones, este concerto foi uma brisa de ar fresco. Vindos na senda do teatral Hang, lançado este ano, o concerto abriu, de forma surpreendente, com uma revisitação daquele que é o maior sucesso da banda: We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, um exemplo de revivalismo bem feito. A fantástica “San Francisco” relembrou-nos dos Foxygen que adoramos.

A partir daí, Hang deu mote ao resto do concerto, sendo tocado pela ordem das faixas. Muito à semelhança do álbum, o concerto foi definhando a partir da altura em que a pastiche gozona da banda se torna cansativa, talvez quando Sam France nos canta “Merry Christmas, Porto… Portugal”. A ebriedade que toma sempre conta do sistema do vocalista não o permite dar uma para a caixa, e aquilo que começa por ser divertido acaba por se tornar quase insuportável. Pelo menos desta vez ouvimos canções completas e não os snippets que caracterizavam a anterior fase de …And Star Power. Mais para o final, “No Destruction” leva-nos de volta a 2013, mas já é tarde demais para salvar o concerto que, apesar de tudo, foi relativamente competente, graças à qualidade da banda que o wannabe Mick Jagger tem por trás de si.

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Alex Cameron chegou ao palco Vodafone.FM para surpreender: com o seu sempre distinguível look de cabelo puxado para trás, o australiano e a sua banda passaram pela maioria dos temas do recente Jumping the Shark. Não utilizando sintetizador nem teclas ao vivo – instrumentos mais característicos da sua sonoridade – conseguiu transpor de forma cativante e criativa temas como “Happy Ending” e “She’s Mine”, com o saxofone a dar um toque de elegância à performance. As danças retro sempre a acompanhar os temas permitiram manter uma atmosfera de animação constante na plateia, havendo ainda perto do final um momento de maior solenidade em que, antes de introduzir “Take Care of Business”, Cameron agradeceu as grandes mulheres da sua vida, às quais dedicou a música. Uma bela actuação bem ao nível que Coura requer, para um belo início de noite.

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A noite seguiu com aquele que foi provavelmente o concerto mais especial do festival inteiro, o de Benjamin Clementine. Poucos foram aqueles que chegaram perto, em termos de ligação entre o público e artista. Fazendo-se acompanhar de um coro que deu voz às experimentações do álbum I Tell a Fly, que sairá em Setembro deste ano, Benjamin encantou a audiência com o seu dedilhar do piano e a sua voz grandiosa e teatral, que lhe rendeu gigantescas ovações do público. Tal recepção por vezes deixava Clementine constrangido, devido à sua personalidade tímida, que se sente mais confortável com menos exultação por parte daqueles que o ouvem. No entanto, tanto amor deixou-o sensibilizado e acabou por se abrir mais, levando-nos a cantar as condolências ao medo e às inseguranças, numa extensão de “Condolence”, pois “não precisamos de ter medo, podemos fazer o que quisermos”.

Outras canções reconhecidas do público, como “I Won’t Complain” ou “Nemesis”, foram cantadas a plenos pulmões pelo mesmo, que ainda assim se manteve atento a ouvir as novas canções, com títulos como “Jupiter” ou “God Save the Jungle”. Ao piano de Benjamin, juntou-se o cravo, instrumento que estará bastante patente no álbum que se seguirá ao disco de estreia At Least For Now, e que concentrou muita das atenções em si devido ao seu som marcante. Em todas as medidas, este foi um concerto altamente bem-sucedido, que consumou a relação próxima entre o artista e Portugal. O único aspecto mais negativo da efusão que se fez sentir, foi quase termos ouvido mais o público que a voz quente do britânico, o que, de resto, é sinal do enorme sucesso do mesmo por terras lusas.

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No extremo oposto das canções aprumadas de Clementine, temos o duo Lightning Bolt, que fez uma carrada de barulho, usando, meramente, um baixo e bateria. O noise rock dos americanos encheu a tenda do palco Vodafone.fm da forma que esperávamos que os Japandroids tivessem feito no dia anterior no palco principal. As canções rápidas e furiosas induziam ainda mais vertigens com o auxílio das luzes, que pareciam autênticos relâmpagos. O público que se concentrava em frente ao palco não era muito comparado com os concertos análogos nos outros dias, mas decerto que ficou impressionado pelo portento de som que saía das colunas, entrando nos moches mais violentos do festival, ao estilo guerrilheiro da banda. Talvez o resto tenha sido afugentado pela bateria frenética de Brian Chippendale ou então estivesse a guardar lugar para o seguinte potenciador de moches no palco principal.

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Ty Segall é um artista bastante acarinhado pelo público português, que vibra sempre nas suas performances. A banda esteve quase sempre coberta por uma nuvem de pó, que se levantava devido aos pés que se abanavam loucamente mesmo em frente ao palco. As guitarras têm sempre a distorção no máximo, numa abrasividade amenizada pelas teclas, que são uma piscadela de olho aos anos 60. Os diversos instrumentos enrolam-se nas canções longas, que acabam por se desintegrar em experimentações bem conseguidas pela banda em enorme sintonia. Essa sintonia também se demonstra nas canções mais curtas, em que tudo soa conciso e cheio de sumo. A certa altura, Ty larga a guitarra e salta para a bateria, numa demonstração de descontracção e fluidez que o concerto acaba por transmitir ao público.

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Outra banda adorada em Portugal encabeçou o último dia do festival, os britânicos Foals. Sabíamos que o auditório de Paredes de Coura seria cenário ideal para mais uma demonstração de amor do público português pela banda, o que acabou por se verificar. Dividindo bem a setlist pela sua carreira de mais de dez anos, o público ouviu tanto do math rock preciso de Antidotes, como do indie rock épico de What Went Down. A deliciosa “My Number” fez o público abanar a anca com a sua ginga e o refrão viciante; “Black Gold”, com as suas nuances, levou a momentos auditivos belíssimos; “Inhaler” fechou a primeira parte do espectáculo de forma épica. Por vezes, a banda parece pouco genuína nos seus momentos bombásticos, que parecem existir apenas porque sim. No entanto, aqui caíram que nem ginjas, sustentando a urgência de viver o festival como se não houvesse amanhã, porque realmente não haveria.

Os fãs da linha da frente deliraram com os momentos em que Yannis Phillipakis desceu do palco para junto do corrupio que ali se vivia, e o vocalista, por sua vez, sentiu-se acarinhado, professando o seu amor pelo país no final do concerto, após a típica “Two Steps, Twice”. Este foi o último espectáculo que deram antes de se dedicarem à gravação do seu quinto álbum e pensamos que terá sido um bom final de ciclo para eles.

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Após o concerto dos Foals, a organização apresentou uma das suas surpresas ao público. Um par de jovens, elevado numa grua, cantou os parabéns ao festival, juntamente com os milhares de pessoas que tinham estado a assistir ao concerto. Fotos de edições anteriores foram projectadas nos ecrãs gigantes, enormes fitas e confettis foram lançados pelo ar, e a celebração concluiu-se ao som de uma das canções mais marcantes dos últimos dez anos, “All My Friends”, dos LCD Soundsystem, uma escolha que não poderia ser mais adequada.

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Para concluir a noite, os portugueses e angolanos Throes + the Shine vieram trazer a sua mistura de rock e kuduro, ou ‘rockuduro‘, que têm andado a espalhar pela Europa ao longo do Verão inteiro. Foi precisamente como aquilo a que já estamos habituados: o fogo do vocalista Diron, mais a energia pulsante das batidas quase matemáticas de Igor Domingues e dos riffs de Marco Castro. São sempre uma boa opção para fazer os festivaleiros soltar toda a sua energia, e tornaram a tarefa mais fácil para Nuno Lopes, o actor transformado em DJ que já é presença assídua no festival. A festa fez-se, como de costume, até depois do sol raiar.

Como foi projectado nos ecrãs durante a celebração dos 25 anos deste festival, o Paredes de Coura é “para sempre”. Como tal, a próxima edição levará mais música às margens do rio Coura entre os dias 15 e 18 de Agosto de 2018. Até então!

Fotografias da autoria de Hugo Lima. Texto escrito em colaboração com Sara Miguel Dias.

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