Vodafone Mexefest, dois dias de História

28 NOVEMBRO, 2016 -

O Vodafone Mexefest desceu novamente à Avenida da Liberdade para dois dias repletos de música, agradáveis surpresas e uma lista de bandas novas para os meses de Inverno.

Além das salas habituais, este ano contámos com o regresso do Tivoli e com a estreia do Capitólio no cardápio de salas que acolheram o Vodafone Mexefest. Esta foi talvez a edição mais ecléctica do Mexefest, dissipando qualquer dúvida sobre a pertinência e a magia deste festival.

O primeiro dia do festival começou devagar com o anúncio de um concerto surpresa de Jorge Palma aberto a todos o que o quisessem ver. Nós fomos à Casa do Alentejo ver MEDEIROS/LUCAS, uma banda emergente muito singular que tem na voz de Carlos Medeiros um sem fim de reminiscências dos cantores de intervenção. O que vimos foi muito mais do que essas reminiscências, foi uma banda assente no virtuosismo de Pedro Lucas na guitarra, na voz de Carlos Medeiros e nas letras de Rui Pedro Porto.  Se com o mais recente álbum Terra do Corpo o objectivo era reinventar a tradição, este concerto no Mexefest só mostrou que foram muito bem-sucedidos. É uma banda a acompanhar.

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Subimos depois a Avenida para ver Bruno Pernadas no Tivoli. Com a sua super-banda de 8 elementos, Bruno Pernadas percorreu os seus trabalhos, especialmente o último álbum Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them, não deixou a sala cheia do Tivoli insatisfeita com as suas fusões de estilos.

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Foi então que voltámos ao Coliseu para espreitar NAO, uma cantautora britânica que combina soul com funk, electrónica e R&B. Quando chegámos ouvimos algo que nos levou para o espectro de FKA Twigs, mas o set de NAO – que já colaborou com Jarvis Cocker – é mais orgânico e menos teatral do que FKA, é soul, é jazz e é uma voz do outro mundo que encantou e que deixou saudades no minuto após ter terminado.

Passámos pela Casa do Alentejo para vermos a sala cheia de pessoas a querer ouvir  Howe Gelb, acompanhado por contrabaixo e bateria. Vincadamente jazzístico, Howe Gelb merecia a concentração que o Mexefest nos tira, mas com vontade de irmos para casa ouvir os seus discos até à exaustão.

Passámos depois pela Garagem da EPAL para vermos Manuel Fúria que animou as hostes durante todo o set, com o ponto alto com “Vá Lá Senhora” dos extintos Golpes.

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Voltámos depois ao Coliseu para vermos Jagwar Ma, mas antes ouvimos Carlão a declamar “O Princípio de uma boa Queca” no âmbito das Vozes da Escrita. Deixamos à vossa imaginação. Jagwar Ma subiram finalmente ao palco depois de terem enchido o palco secundário no Alive deste ano, mas foi no Coliseu que tiveram a consagração merecida junto do público português. Mais dedicados à electrónica do que ao rock, o concerto foi o último do primeiro dia do Mexefest. O rescaldo, tanto deste concerto como da noite, não podia deixar de ser positivo mas faltou um pouquinho mais.

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O “pouquinho mais” foi extravasado até ao infinito na segunda noite do Vodafone Mexefest. Começámos a noite com uma das surpresas deste ano do festival, o Cuco na varanda do Coliseu apresentou pequenos showcases surpresa que em muito deliciaram os festivaleiros e os transeuntes. No sábado foi a vez dos Capitão Fausto subirem à varanda, perante ameaças de uma tromba de água, com os sons que tanto têm marcado as radiofrequências nacionais.

Fomos para a sala do Coliseu dos Recreios para vermos o próximo grande nome do R&B “alternativo”, Gallant. Dizemos R&B alternativo porque Gallant está a reinventar o R&B tal como o conhecemos, é muito mais do que só R&B, é soul, é blues e é uma voz impressionante. A forma electrizante como se movimenta em palco e controla a voz revelam uma enorme confiança de um músico que tem apenas 24 anos. Gallant, que lançou este ano um dos álbuns do ano Ology, e tem surpreendido o mundo com o seu falsete, só comprovou que o que dizem dele tem razão de ser. Algo nos diz que este concerto foi o início de uma belíssima história de amor.

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Saímos do Coliseu sob uma chuva intensa para irmos ver Kevin Morby. O espaço não tem a melhor acústica, mas tem a melhor vista. A visitar os seus álbuns, em especial um dos discos do ano Singing Saw, o nosso imaginário vai direitinho para o folk americano, para Phil Cook, para o melhor folk rock que a América tem para nos oferecer. Torna-se absolutamente necessário que Kevin Morby volte para um concerto onde o público possa dedicar-se só à sua música.

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Não vimos, conscientemente, o pedaço de história que é Elza Soares. Queremos acreditar que assistimos ao início de uma história com o magnífico concerto acústico que os Whitney nos presentearam no Tivoli. Numa versão incrivelmente reduzida com apenas dois elementos da banda de Chicago, Julien Ehrlich e Max Kakacek, “Golden Days” deu início a um dos concertos do festival (e não só) e a um rol de manifestações de amor entre o público e a banda. Embora tenham confessado nervosismo pela ausência da restante banda – este foi o primeiro concerto acústico da breve história dos Whitney – a versão acústica dos temas que compõem Light Upon a Lake nada retirou à qualidade do álbum de estreia da banda. Com Julien na guitarra (normalmente ocupa-se da bateria) e Max Kakacek na guitarra elétrica, reinterpretaram ainda um tema de Bob Dylan e de Dolly Parton entre goladas de vinho de Borba e confissões honestas, como se estivéssemos todos alegremente entre amigos. A julgar pela vontade de Max e Julien em sair com os fãs, enquanto faziam tempo para irem para o aeroporto, e pela cumplicidade entre a banda e o público é bastante provável que o futuro dos Whitney passe por aqui e ainda bem.

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Quando existem várias salas e concertos a acontecer à mesma hora, cada um dos espectadores faz o seu próprio festival e compõe a sua própria experiência. Esta foi a nossa, partilhada com uns, totalmente diferente da de outros.

Com os bolsos cheios de música nova e o coração cheio resta-nos agradecer a todos aqueles que fazem de um fim-de-semana frio no final de Novembro um dos melhores fins-de-semana do ano. O Vodafone Mexefest faz parte do nosso princípio de Inverno e nada há de melhor para nos aquecer a alma.

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Fotografia: Diogo Caetano

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