VOA Heavy Rock Festival: três dias ao som da música extrema

9 AGOSTO, 2017 -

O primeiro dia só tem um adjectivo: ‘Carcassada’

Passam alguns minutos das nove da noite quando chegamos ao recinto do VOA. O atraso justifica-se pela nossa menor empatia pelos EPICA. A banda holandesa agarra-se a uma plateia reduzida, mas repleta de fiéis. Como seria de esperar, o aparato é muito: fogos, teclados curvos, keyboards giratórias, headbang infinito e, claro, uma encantadora Simone Simons. Por entre a habitual simpatia, o alinhamento ia avançando e os fãs presentes esforçam-se para segurar a voz de Simone. Toda a banda é envolvida num metal sinfónico, medieval, mas enfadonho e ultrapassado, em que por vezes os vocais quase gregorianos são abalroados por riffs mais musculadas. Apesar da bravura, do show-off e da boa disposição, os EPICA não estão à altura, para convencer os muitos que já gritam: “Queremos Carcass!”.

Não vão subir ao palco VOA logo a seguir, porque antes ainda há tempo para, mais uma vez, sermos presenteados com um belo (mini) concerto dos Black Wizards. A jovem banda nortenha entra no modesto palco Loud! e arrasta muitos curiosos. O rock psicadélico, perfumado por guitarras do deserto dos Kyuss, deixa muita gente rendida. O vozeirão de Joana Brito e a habilidade de Helena Peixoto na bateria são outros destaques, pelo meio do curto alinhamento.

Cumprido o intervalo no palco VOA e aí estão os headliners da noite: Carcass. Os britânicos nem perdem tempo para se apresentarem, entram a pés juntos, dominados por uma ávida vontade de causar o pânico no seio da audiência. E não é que acontece mesmo? Geram-se os circle pits, empurrões mais violentos e non-stop crowdsurfing para dar mais trabalho aos seguranças. Desenvolvem um concerto agressivo, carregado de electricidade e ferocidade. Jeff Walker, baixista e vocalista da banda, demonstra simpatia e “mãos-largas”, distribuindo dezenas de palhetas ao longo do concerto. A batalha entre guitarras frenéticas e uma bateria invicta fazem jus ao nome da banda, lançados numa “carcassada” imparável até ao destino final. Os pais do goregrind não deixam de fora os temas mais importantes; claro que as faixas do álbum “Heartwork” são as que mais agitam a assistência; naquele que foi, de longe, o concerto mais forte da noite.

Venom foi “em nome de satanás”; four horseman dos violoncelos fecham segundo dia

O VOA relembra-nos que temos um metaleiro a viver dentro de nós, e ele não está morto ou adormecido. Sentimo-nos em casa quando olhamos em volta e se passeiam t-shirts referentes a inúmeras bandas do género. Gostamos do cheiro da cerveja que vai secando o chão do recinto, relembrando-nos que isto é mais que um festival, mas também a celebração de uma cultura imortal. Uma das provas disso mesmo é a existência da banda que se segue.

O concerto dos Venom despertou-nos e levou-nos por uma viagem aos clássicos do death metal. Este trio britânico leva trinta e oito anos de carreira; embora já tendo sofrido inúmeras mutações na sua formação ao longo das décadas. O estatuto da banda fica logo subentendido pela quantidade de público presente, em relação à noite anterior. É perceptível que muitos se deslocaram a Corroios para ver Conrad Lant e companhia. Movido por um excelente sentido de humor, o frontman e baixista farta-se de pregar ao satanás. Ao fundo, uma figura de bode e um pentagrama, alusivos ao disco “Welcome to Hell”, já indiciam que estamos perante uma comemoração obscura. Uma cerimónia celebrada pelos berros grutescos e as cavalgadas “rifficas”. Antes de entrarem pela “In League With Satan” a dentro, Conrad questiona a plateia: “vocês estão embebidos pelo mal?” A resposta da plateia é clara e efusiva. Lá se soltam os acordes barulhentos e mais uma vaga de poeira a pairar sobre o miolo da assistência. A nuvem só amaina no final, quando todos, sem excepção, entoam “Black Metal” em uníssono. Para a posteridade fica a felicidade e vontade dos Venom. Mais uma demonstração de que a música extrema, e o metal em particular, não envelhece; amadurece.

Mais um intervalo entre as bandas do palco principal, mais um concerto fugaz no palco Loud!, agora para ver os Rasgo – instigados por uma overdose de testosterona, que se apodera dos acordes sujos e velozes. Um concerto competente e dinâmico; contudo, não o suficiente para aquecer uma plateia morna. Apesar da insistência, o esforço por parte da banda é em vão, o mosh pit tímido não convence aqueles que permanecem sentados ou longe do palco.

Regressamos ao palco VOA, e o cenário já está preparado: quatro assentos para os violoncelistas, uma bateria construída por tubagens de ar condicionado e o pano alusivo à tournée dos Apocalyptica. “Plays Metallica by Four Cellos” foi o álbum que elevou a banda para os palcos da música extrema. Está uma amena noite de verão, e a pontualidade finlandesa não desilude. Onze em ponto e sobem ao palco; antes de começarem, pedem ao público para ser o vocalista daquele concerto. “Battery”, “For Whom The Bell Tolls” e “Creeping Death” são alguns dos clássicos tocados pelo quarteto de violoncelos. Por entre muitos agradecimentos, não conseguem esconder a alegria de voltar a Portugal, e o público até acaba por cantar os parabéns a Eicca Toppinen. Como era expectável, a actuação não tem grande intensidade, ao contrário do que aconteceu em 2008, no Rock In Rio. Mas isso também não impede a pequena multidão de ir cantando cada verso das velhas conhecidas faixas dos Metallica.  Surpreendentemente, o quinteto finlandês – já com o baterista em palco – ainda regressa ao “Ride The Lightning” e toca “Escape”, que confessam não tocar há algum tempo. Será sempre divertido avistar cricle pits e headbang ao som de violoncelos. “Seek and Destroy”, em jeito de encore, proporciona o auge desses acontecimentos. Até terminarem ainda há tempo para um cheirinho de AC/DC e acabam com a sempre actual “One”. Os Apocalyptica são um dos projectos mais curiosos da cena pesada, porém, serão sempre a única banda de ‘heavy metal’ que a minha mãe também gosta de ouvir.

A festa do death ao grind, coroada pela despedida dos Dillinger Escape Plan

Se os dois primeiros dias foram mornos, o último foi escaldante. Logo a começar pela presença de uma instituição histórica do death metal: os Obituary. Em segundo lugar, o regresso dos Dillinger Escape Plan. Por fim, os Trivium, uma banda em permanente ascensão.

Batem as 19h15 e os primeiros acordes demolidores dos Obituary começam a ecoar por Corroios. A aproximação ao palco, feita pelas pessoas presentes no recinto, é imediata. Ninguém fica indiferente à crueza do som, à brutalidade e presença dos cinco membros, encabeçados, claro, pelos eternos irmãos Tardy (vocalista e baterista). Tocam que se fartam, e ainda brindam umas dezenas de vezes, com os fãs. As baquetas têm dupla função; ora massacram a tarola, ora servem para abrir as garrafas de cerveja. Parece que estão a tocar numa festa com amigos, e isso não lhes retira competência, apenas constrói uma imagem cool em redor de um concerto arrasador, onde não faltam clássicos como “Insane”. Uma galopada incansável que leva os Obituary a percorrerem boa parte da sua discografia.

Ao terceiro dia o palco Loud! já faz parte do roteiro, ainda para mais com os Grog, banda brutalmente ensurdecedora do grindcore nacional. A actuação frenética arranca um modesto, mas bem activo, mosh pit. Capazes, robustos e audazes, até desafiam a masculinidade do público presente: “Quem é que tem tomates aqui?”, “Elas ou eles, tanto faz!”. Mais guitarradas caóticas, bateria abrupta e descontrolada. Um pequeno caos instalado e um excelente aquecimento para o que vem a seguir: The Dillinger Escape Plan.

Ai ai ai ai! Luzes apagadas, fumo branco, lua cheia a surgir mesmo por detrás do palco; e os graves fortíssimos começam a esbarrar as filas da plateia. Taroladas com quinze minutos de atraso; não faz mal, os anos de espera foram tantos que até conseguimos perdoá-los. Aí estão eles, os Dillinger Escape Plan, quinze anos depois em Lisboa (ou perto de). “Prancer” a rasgar e abrir logo a cacetada no meio da multidão. Imparáveis. Não há forma de os definir melhor. A entrada arrebatadora de Greg Puciato e companhia lança o caos que já era expectável. Nem dão tempo para relaxar, e lançam-se imediatamente para a descontrolada “When I Lost My Bet”, seguida de “Panasonic Youth”. Estão apresentados, meus meninos, estamos perante cinco animais de palco.

A partir daqui tudo é possível: vem aí uma catadupa de faixas electrizantes, interpretadas por uma banda icónica e marcante para uma geração que está muito bem representada em Corroios. Partem-se os compassos, a métrica nem sempre é fácil de acompanhar, as guitarras agitam-se com uma rapidez inalcançável. Eles saltam, eles sobem para cima das colunas; e tudo isto acompanhado por um jogo de luzes absolutamente epiléptico. “Black Bubblegum” é o ponto mais calmo do concerto. A intensidade volta a crescer com “Milk Lizard”, “Hapiness Is A Smile” e “One Of Us Is The Killer”. O crowdsurfing multiplica-se de faixa para faixa, e são inúmeros os fãs que sobrevoam as filas da frente. Ao fim de quase uma hora e quinze, Puciato anuncia que só têm mais duas para tocar; sem encore e sem grandes artefactos teatrais arrancam “Limerent Death”, malha do mais recente álbum “Dissociation”. O final deu-se com “43% Burnt”, num regresso a “Calculating Infinity”, primeiro disco da banda. Até ao final da faixa, ainda há tempo para Greg Puciato pontapear a bateria, atirar um prato para as filas da frente e abraçar os fãs. A cereja no topo do caos, que eles tanto se divertem a causar. Um concerto consistente e robusto. Uma despedida calorosa. Serve de consolo para os quinze anos em que estiveram longe dos palcos portugueses.

O festival encerra-se com os Trivium, banda norte-americana que nunca passou de promessa, no entanto, com muitos fiéis presentes. A sonoridade da banda não deixa de ser, de certa forma, confusa. Os riffs thrash sobrepõem vocalizações cantadas, que andam pelos pantanosos e perigosos territórios do metalcore. Mas isso acaba por não interessar, porque a actuação dos Trivium é esclarecedora, e isso é bastante visível nas faces dos fãs. Uma hora e meia de faixas com muitos altos e baixos. “Dying In Your Arms” já é praticamente um clássico e é o momento cantado pelo público com as vozes quase em uníssono. O tédio de algumas canções do alinhamento sobrepõe-se muitas vezes à curiosidade e exaltação despoletadas pelos acordes mais carnudos e pelos pedais duplos constantes. Mesmo não sendo uma banda brutalmente devastadora, os Trivium foram suficientemente grandes para oferecer um desfecho digno a esta edição do VOA.

Fotografias de João Horta / CCA

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