‘Vicious’ de Skepta é um EP sem coesão ou grande propósito

13 NOVEMBRO, 2017 -

Este ano celebraram-se quinze anos do lançamento de uma das primeiras músicas de grime (e simultaneamente de um subgénero deste estilo musical, eskibeat) o instrumental “Eskimo” de Wiley, um dos nomes mais marcantes da história deste género. As influências que estão na sua origem são diversas: o grime vai buscar a electrónica de géneros como UK garage e jungle e combina-a com dancehall e hip-hop, resultando daí uma junção inovadora de estilos. Wiley ou Dizzee Rascal são dois artistas essenciais, mas o homem do momento nesta forma de arte musical é Skepta, nome artístico de Joseph Adenuga.

O londrino nativo de Tottenham e filho de pais nigerianos atingiu novos níveis de popularidade desde o lançamento do seu explosivo quarto álbum Konnichiwa em 2016, prendado com o prestigiado prémio Mercury. Os fãs são muitos, entre os quais o rapper Drake, que incluiu Skepta na sua playlist lançada na primeira metade deste ano. Drake tem mostrado um apoio fervoroso a este estilo musical britânico, sendo que além de Skepta também Giggs, outro conhecido artista, participa em More Life. Já não estamos na era mais popular do grime em terras de sua majestade mas nunca este estilo musical foi tão celebrado nos Estados Unidos como é hoje. No entanto, ao ouvir Vicious torna-se difícil perceber os elogios que Skepta recebeu e a crescente onda de popularidade.

Não é um EP coeso e metade das suas músicas já tinham sido estreadas antes do lançamento. Os temas divagam e soam distraídos, desconcentrados e são na sua maioria ideias pouco trabalhadas. A produção instrumental é o seu melhor aspecto, quando comparada com fracos versos que povoam o EP, como “Yeah, man, I’ve got fifteen different iPhones/But I am so not phoney” em “Hypocrisy” ou “Yeah, aye, life is like a movie, Steven Spielberg” de A$AP Nast em “Ghost Ride”, básico e constrangedor. “Still” abre o EP com a melhor batida do projecto, aquosa e atmosférica, mas não chega a ser mais do que um freestyle aprimorado com uma batida cativante, a acompanhar dois versos que desprezam os haters de Skepta. No entanto, esse bom esforço introdutório cai por terra depois de “Sit Down”, uma música de batida irrequieta com um hook cortesia de Lil B que se gasta rapidamente. Ouve-se um teclado grave e pujante, arranhado nos seus momentos sonoros finais, que se volta a notar em outros momentos do EP.

Propositado ou não, quando chegamos a “Worst” já começa a ser demais, é a quarta música seguida que ostenta esse som. Skepta aparece pelo meio desta faixa, dividida com o grupo londrino de rap Section Boyz, mas os vários intervenientes não fazem mais do que suceder-se uns aos outros, cada um rima a sua parte e não nos cativam quando o fazem. Declamam a sua superioridade, são os melhores a ser os piores, ninguém se mete com eles mas se não fosse dito na letra não o saberíamos pela discreta batida. O EP termina com “Ghost Ride”, que segundo Skepta foi gravada num ápice num quarto de hotel. Essa “pressa” espelha a precariedade da música: é uma boa ideia instrumental que não é suficientemente desenvolvida.

Na sociedade de consumo rápido que habitamos, é cada vez mais fácil um artista cair rapidamente na obscuridade. E talvez seja por isso que este EP tenha sido lançado, para garantir que o nome e a relevância de Skepta se mantêm vivos na mente dos ouvintes enquanto um projecto com mais peso não aparece. Mas Vicious não está à altura da discografia de Skepta, é pouco digno do louvor que Konnichiwa recebeu. É um projecto bastante indiferente, semelhante a uma compilação de faixas soltas e ideias muito verdes, perfeitamente banais.  

Músicas preferidas: “Still”
Músicas menos apelativas: “Sit Down”

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