Viajar sozinha até nem é difícil. Ver Warpaint ajuda

8 NOVEMBRO, 2016 -

Ato Primeiro – preâmbulo.

Nunca viajei sozinha, sem família ou amigos. Maioritariamente porque ainda não conquistei a minha independência financeira, e, como tal, não posso viver inconsequentemente segundo cada devaneio que se me insurge. Mas esta oportunidade surgiu por si própria. Foi na verdade um sucesso do acaso. As estrelas alinharam-se, os planetas também, etc.

Desde o verão que planeava fazer uma viagem pela Europa Ocidental por forma a visitar os caros amigos que este ano decidiram desertar da terra-mãe. Dita viagem constava de ir a Amsterdão, Antuérpia e Paris, por esta mesma ordem, ter com os ditos caros, alguns dos quais pensavam juntar-se à aventura. Motivos alternos impossibilitaram que eles se juntassem a mim, e fizeram com que a minha estadia se reduzisse.

Foi em Paris que combinamos encontrar-nos. Mas porque sou melómana, antes tinha de fazer uma paragem. Não haviam argumentos que justificassem não o fazer. Warpaint no Paradiso, a mística banda da minha vida no mítico clube da cidade do pecado. Nunca tinha visto a banda a solo – só em festivais – e quando soube da ocasião, não me contive. Comprei dois bilhetes. O do avião e o do espetáculo, subentenda-se. Ah.

Ato Segundo – ir.

Dia 2 de Novembro. Trolley na mão, casaco das neves e bilhete da Vueling rumo à Portela. Pequeno atraso na hora de embarque, chego ao aeroporto Schiphol pelas seis, banda de abertura a começar pelas sete e meia. Apressei-me, por entre muitas complicações com transportes, cheguei ao hostel um quarto para as oito, larguei os pertences, e atravessei a rua, que o hostel era a menos de dois minutos a pé do Paradiso. Medíocre estabelecimento, localização privilegiada.

Ato Terceiro – o concerto.

Ora, o Paradiso é uma velha igreja transformada em sala de concertos situado em Leidsplein, uma zona conhecida pela sua imensa atividade noturna e salas de espetáculos (o famoso Melkweg é também na mesma rua).

Habituada a frequentar este tipo de eventos em Portugal, e como gosto de sentir bem de perto a musica, aproximei-me do palco. Contraste com Portugal: um público extremamente ordeiro, que deixa um espaço disponível para os fotógrafos, mesmo quando este não é exigido (não há nada a separar o palco do publico) e ocupa-o quando estes se retiram passadas algumas músicas. Aprendi a ser paciente; Esperei, ate poder garantir o meu lugar.

O concerto de abertura já tinha começado: Goldensuns. Não conhecia, mas foi uma agradável surpresa. Três irmãos a tocar um rock ligeiro, muito californiano, de guitarras e sintetizadores, acompanhados de mais um percussionista que tocava bongos. A boa disposição da banda e músicas como I’m So Confused e Give It Up conseguiram criar uma resposta positiva do público holandês, aquecendo-o para o que estava para vir.

Warpaint começou pelas 20h45. O quarteto californiano composto por Emily Kokal, Theresa Wayman, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa, está já bem estabelecido no mundo do rock alternativo, caracterizando-se pelo seu som psicadélico e temperamental, e sendo especialmente aclamado pela qualidade das suas atuações ao vivo. Após um ano de pausa, em que os membros da banda trabalharam nos seus projetos individuais e em colaborações com outros artistas – Jenny Lee lançou o seu primeiro trabalho a solo, Right On! e a baterista Stella Mozgawa contribuiu para o último álbum de Kurt Vile e Cate Le Bon – , a banda voltou em Outubro com um novo LP, Heads Up, que veio abanar as convenções sonoras dos álbuns anteriores. Este é um álbum mais eletrónico, com um passo mais acelerado, mais dançavel. Fica então de lado o ambiente taciturno criado por músicas como Billie Holiday para dar lugar à vigorosa Whiteout.

O concerto abriu com Bees do primeiro LP, The Fool, fortemente marcada por uma das que é das melhores linhas de baixo do reportório da banda. Começou firme, a coordenação bateria/baixo e as harmonias vocais encheram a antiga Igreja.

Segue-se a primeira nova música da noite, que dá o nome ao álbum, e que vem para continuar a marcar o ritmo da abertura. O público holandês, apesar do forte início da noite, só se libertou verdadeiramente quando veio a terceira música, o single Undertow, possivelmente a musica mais conhecida da banda. Os primeiros acordes despertaram a plateia. Os gritos e as palmas ecoaram, as vozes começaram-se a ouvir.

A passagem por todos os álbuns do reportório garante variedade e com isso satisfação geral na audiência. Em Whiteout, o segundo single do último álbum, Kokal deixa a guitarra para trás e aproxima-se do público, sentando-se numa coluna ao centro do palco e cantando diretamente para os que atentamente a escutam e observam, criando uma espécie de intimidade, quebrando a barreira emissor-recetor.

A segunda parte do concerto prosseguiu com mais efusão que a primeira. É hipnotizante a forma como a banda consegue traduzir as músicas ao vivo, muitas vezes diferindo daquilo que o álbum nos conta: ao vivo, são mais as harmonias vocais, músicas com batidas computorizadas são reproduzidas em precursão acústica e a distorção das guitarras e o volume do baixo não deixam espaço para distrações. Está tudo cativado. Estamos todos envolvidos.

Entoamos com a banda Beetles, Elephants e Love Is To Die, cujas letras refletem os sentimentos, frustrações e dificuldades das relações humanas, e, antes do encore, somos presenciados com a desafiante Disco//Very cuja irreverencia se traduz nas próprias palavras que a compõem: “I’ve got a friend with a melody that will kill / she’ll eat you alive”.

A amplitude dos gritos aumenta ate ao regresso da banda, que, com um encore de quatro músicas, no qual assistimos a uma troca de instrumentos para So Good (Wayman troca para o baixo, enquanto Lindberg pega na guitarra), termina o concerto com Krimson, uma música do primeiro EP, que serve para lembrar que apesar da direção do som estar a mudar, essa intensão vem desde os primórdios da formação da banda.

O concerto acaba e a felicidade é geral. É a terceira vez da banda no Paradiso e Kokal mostra o seu agrado dizendo contar continuar a poder ali tocar. A prolongada consagração faz o orgulho surgir na cara das artistas, que saem por entre agradecimentos.

Ato Quarto – considerações.

O momento em que a banda subiu ao palco foi o momento em que me apercebi que estava verdadeiramente ali. Que realmente tinha conseguido. Estava num país estranho e não queria saber, só me interessava a hora e meia que se seguia. E vivi cada segundo dessa hora e meia com mais vigor que alguma vez em Portugal. Estava abstraída, não conhecia ninguém, não queria saber. Era eu e a música. Assisti ao concerto de onde quis, como quis. Assegurei-me uma setlist, bebi uma cerveja enquanto processava a excelência daquilo a que acabara de assistir e fui dormir, plena.

Não trocava esta oportunidade. Nem por medos de cidades desconhecidas ou sociedades alheias, nem pela ideia de me poder sentir só. Foi o que foi. Alimentou-me o espirito. E ainda bem.

Texto de Sara Miguel Dias 

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