Viagem à sociedade proibida da Coreia do Norte

25 MAIO, 2016 -

Society, have mercy on me,
Hope you’re not angry if I disagree.

Society, Eddie Vedder

A escolha destes versos dá mote ao exemplo de duas actividades tidas como banais nas sociedades ocidentais, contudo, sujeitas a restritas regras na Coreia do Norte: a liberdade criativa de expressão e a sua disseminação, como parte integrante da cultura de uma sociedade. Desde 1945, a Coreia do Norte redefine constantemente o termo secretismo com o fecho sobre si mesma através dos focos de actuação política e militar, determinados pela ambição, cada vez mais rígida, do desenvolvimento de armamento nuclear, dificultando o estabelecimento de laços de entendimento político com as super potências políticas actuais.

Eis uma pequena contextualização histórica sobre  emergência de uma das sociedades mais impenetráveis do Mundo: no rescaldo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a celebração de um acordo político entre os Estados Unidos da América e o governo de Moscovo, a península da Coreia foi dividida em dois pólos geopolíticos distintos, por uma linha imaginária transfronteiriça, o paralelo 38º N. A norte do paralelo 38º N, a Coreia do Norte iniciou o seu percurso de vida, pelos veios do comunismo, com o apoio da União Soviética. A sul da demarcação política da Península, o capitalismo foi a ideologia política escolhida a seguir. A tensão crescente entre os dois pólos, conduziria à Guerra da Coreia (1950-1953), tornando todos os esforços procedentes de nova unificação da Península em vãos fracassos.

Após a Guerra da Coreia, o desenvolvimento da  Coreia do Norte assentou na propagação da ideologia Juche, a pedra basilar da filosofia política deste estado, preconizada pelo eterno Grande Líder Kim Il-song (1912-1994). A ideologia Juche, influenciada por correntes políticas como o comunismo, marxismo e leninismo, assenta no culto da personalidade dos seus líderes e na auto-suficiência dos vários sectores da sociedade, como forma de preservar e dignificar a soberania do estado, através da garantia da independência económica e política, em relação a países externos. Nacionalismo, voluntarismo e totalitarismo são palavras de ordem da atual Coreia do Norte, levando, nas últimas décadas, à estagnação do seu crescimento, à pobreza da sua população, realçando ainda os relatos da constante violação dos direitos humanos.

O controlo rigoroso e censurado dos meios de comunicação e da informação que o Mundo recebe, através dos mesmos, sobre a Coreia do Norte é do conhecimento geral do grande público. O fotógrafo Michal Huniewicz ousou conhecer este país e contrariar as apertadas leis de segurança impostas pelas entidades policiais do mesmo, registando o lado mais íntimo das cidades por onde foi passando através do seu olhar fotográfico. Através da escolha de várias fotografias relata, de forma fiel, o lado mais obscuro e curioso de uma das sociedades mais estranhas do Mundo, no seu parecer.

A fronteira entre a China e a Coreia do Norte

Yalu River

North Korea vs. China

Penetrar no território coreano do norte exige a obtenção de autorização formal, por parte das  autorizações estatais. O acesso está vedado a todos os sul coreanos. O rio Yalu permite vislumbrar as terras norte coreanas, a todos aqueles cujo acesso seja vedado, pela ligação que estabelece entre a Coreia do Norte e a China. Um passeio pelas águas calmas deste rio permite verificar tremendas diferenças evolucionais e de riqueza entre os dois territórios, como é visível pelo tipo de arquitectura que ladeia os dois lados do rio (imagens em baixo) e pela diferença de estatura e do estado de nutrição de ambas as populações. Mais marcante são os antagónicos cenários que entram em cena, mal a noite cai, na ponte de Sino-Korean Friendship que liga as cidades de Dandong e de Sinuiju. Dandong, na China, apresenta-se iluminada e com movimento, ao invés Sinuiju, na Coreia do Norte, é envolvida pelas trevas e pelo silêncio sepulcral de uma sociedade dominada pela ditadura vigente. Michal relata a presença de múltiplas torres de vigia, nas margens coreanas do Yalu, de forma a impedir a fuga de qualquer coreano que veja na China a oportunidade de uma vida melhor. A boa relação política entre a China e a Coreia do Norte dificulta ainda mais este êxodo. Caso as autoridades chinesas capturem fugitivos, devolvem os homens às autoridades coreanas, sendo condenados à pena de morte. No caso particular das mulheres, há relatos de brutais violações dos direitos humanos. Tratadas como animais são avaliadas consoante a sua idade e aparência, sendo-lhes atribuído um valor monetário, dependendo da sua inclusão dentro de 3 categorias possíveis, e levadas a mercados abertos a homens chineses que as podem comprar, tornando-se donos do seu destino.

All Along the Watchtower

Infrastructure

Chinese Blocks

Dandong Railway Station

Burocracias e protocolos de segurança entre Dandong e Sinuiju

List of Belongings

Há duas formas de entrar na Coreia do Norte: através da estação de comboios de Dandong ou por meios aéreos. Apenas a segunda opção se fores um cidadão de origem americana. Após entrar na estação de comboios de Dandong, a viagem até Sinuiju (imagens a baixo), foi precedida pela actuação de um protocolo rígido de segurança, ao longo de 3 horas. Uma vez em Dandong, uma série de formalidades tinham sido anteriormente asseguradas a Michal e aos seus colegas: autorização formal das entidades norte-coreanas, uma equipa de guias atribuídos e um conjunto de pessoas responsáveis pela mobilidade dos turistas, nas terras de Kim Il-Jong. Michal relata a realização de uma lista de pertences de todos os membros da equipa, sendo proibidos dispositivos com GPS incluído. Todos os dispositivos electrónicos foram confiscados para uma busca intensiva de qualquer material de teor pornográfico, bem como filmes e livros com conteúdo relativo à Coreia do Norte. Foram ainda avisados da expressa proibição de tirar fotografias, a partir das janelas do comboio.

North Korean Children

Leaders

Railway Crossing

As paisagens e os meios de transporte

Laundry in the River

Bullock Cart

Patiently Waiting

A caminho de Pyongyang, após atravessar a fronteira, Michal e os colegas ficariam extasiados com a beleza natural das paisagens virgens e dos campos de arroz a perder de vista. Relatam a pobreza e o estado de malnutrição da população, em geral, denotado pela baixa estatura e pelos traços faciais asténicos. As classes sociais mais desfavorecidas apenas têm, como meios de locomoção, as bicicletas e a marcha. Um dos guias confessou o desejo de conduzir livremente, sem ser necessária autorização estatal para percorrer longas distâncias e apenas ser possível optar pelo autocarro ou comboio. Este facto determina a quase nula circulação automóvel nas grandes cidades da Coreia do Norte. Um exemplo simples do controlo social exercido pelo Juche. Realçar que Michal e a sua equipa nunca circularam livremente pelas ruas de qualquer cidade visitada, permaneceram sempre dentro dos meios de transporte designados para o efeito e sobre a alçada do olhar atento dos seus guias.

In the Fields

On the Bus
Platform

O culto da personalidade e a propaganda política

O culto da personalidade iniciou-se com a figura de Kim Il-sung, perdurando, na actualidade, na pessoa de Kim Jong-il, seu terceiro filho e o Eterno Secretário da nação. Por todo o território da Coreia do Norte, vários monumentos e murais foram erguidos expondo as figuras omnipotentes destes líderes, existindo campanhas de promoção dos seus valores e da sua imagem de confiança, enaltecidos ao nível de entidades divinas. O grande monumento de Mansu Hill, em Pyongyang, é um local de culto da filosofia Juche, ao qual os populares recorrem, fazendo-se acompanhar de flores, permanecendo no local em adoração aos líderes.

Father and Son

Flowers

Michal reparou que existem dois registos linguísticos diferentes dentro do mesmo idioma, consoante o discurso evoca a figura do grande Líder ou de uma pessoa banal. O amor incondicional ao regime é promovido por um cântico do sistema- “Mãe”- o qual refere que o único verdadeiro amor deve ser devotado ao líder, não podendo o amor de mãe ser superior a este. Politicamente, o governo procura promover o sentido de comunidade e de cooperação entre todos os indivíduos, como forma de glorificar a soberania da nação. “Se sobreviveres a mil milhas de sofrimento, surgirão dez mil milhas de felicidade”, um exemplo de um slogan de propaganda política, edificada na entrada da fábrica retratada na imagem abaixo.

Train Station

Flags

Pyongyang

Pyongyang Railway Station

Uma vez em Pyongyang, a equipa assistiu a cenas dignas dos maiores palcos de cinema do Mundo. Na plataforma de comboios, um grupo de pessoas bonitas, bem vestidas e aparentemente atarefadas, encenava o turbilhão de sentimentos das chegadas e partidas, contudo seria aquele o único comboio a circular no dia. Pisado o solo daquela cidade, todos os seus movimentos foram supervisionados pelos atentos guias, remetidos no imediato para uma pequena carrinha que os transportou para o hotel. Havia a possibilidade de usar o telemóvel, tarefa dificultada pela ausência de wi-fi e de rede móvel.

Crowd
Blue

O esforço de transmitir uma ideia utópica da sociedade norte-coreana, através de contínuas encenações de cenas do quotidiano, repercutiu-se ao nível das viagens guiadas. Michal descreve os passeios pela cidade, como um conjunto de acelerações e desacelerações, consoante fosse desejável ou inconveniente fotografar certos locais. Dentro da cidade, existem locais  amplos, coloridos e luminosos, contrastando com a degradada e empobrecida periferia. Em cima, a praça de Kim Il-sung, no centro da cidade, e uma das ruas mais revisitadas, ao longo da estadia em Pyongyang, pelo orgulho na arquitectura ampla e moderna, conjectura Michal. Em baixo, um conjunto de apartamentos de aspecto envelhecido, cuja disposição faz recordar uma colmeia de abelhas, e uma ponte degradada pelo esquecimento no tempo.

Brutalist Architecture
Across the Bridge

A imagem abaixo evidencia uma das maiores lacunas da história da governação da dinastia Kim- a criação de uma rede de fornecimento de energia eléctrica sustentável. Apesar da Coreia do Norte ser rica em montanhas cortadas por percursos de rios vastos, Pyongyang apresenta-se constantemente em estado de emergência eléctrica, sendo frequentemente impossível abastecer todas as zonas da cidade em simultâneo.

Electricity
The Badge

É obrigatório o uso do crachá do regime, na cidade de Pyongyang, oferecido pelo próprio aos cidadãos que apresentem uma conduta ordeira e obediente. Não é possível a sua compra, contudo pode ser adquirido no mercado de contrafacção chinês.

Yanggakdo
Pyongyang Cityscape

Ser chinês ou não chinês: eis a questão!- a nacionalidade define as possíveis escolhas de estadia em Pyongyang. Os cidadãos de nacionalidade chinesa têm mais liberdade de escolha, os restantes turistas são direccionados para o Hotel Yanggakdo, localizado numa ilha, com vista para a urbana Pyongyang (imagens acima). A circulação no perímetro do hotel é condicionada pelos guias, só é permitido caminhar entre a entrada principal e o parque de estacionamento mais próximo, uma área limitada de 100 metros quadrados. A hora de recolher e da alvorada são determinadas pelos guias, a desconfiança é uma presença constante.

Sweeping
Girls

Durante o Inverno, os estudantes são chamados para realizar trabalhos comunitários; não se trata de voluntariado. Os mais críticos de espírito são convidados a colar a língua num pedaço de gelo. Dos coreanos para a Coreia!- um slogan que assentaria perfeitamente na propaganda da produção nacional de fertilizante. Durante os meses de Inverno, os coreanos são obrigados a guardar as suas fezes. A razão prende-se com a decisão da Coreia do Sul cortar o suprimento de fertilizante à Coreia do Norte. Assim, na época primaveril, o “toibee”, resultante da junção das fezes com cinzas, permite o cultivo de várias plantas. Há mesmo uma ordem pública que obriga à produção de duas toneladas anuais de “toibee”!

Shop Off-Limits #1
Shop Off-Limits #2

Como já esperas, por esta altura, na Coreia do Norte, há uma lista de locais que podemos visitar bem mais curta que a lista de locais inacessíveis. Estas últimas imagens mostram um pequeno mercado de produtos locais. Aos turistas nunca é permitido circular com a moeda coreana “won”, os negociantes aceitam pagamento com o “Yuan” chinês, o euro e até mesmo o dólar, apesar da visita de americanos não ser bem-vinda.

Commute

Deixamos duas sugestões para conhecer mais sobre esta realidade surpreendente: Dear Leader, do escritor Kim Jong Un, e Shin Dong-Hyuk, do cronista Blain Harden, baseada na história verídica de um activista norte-coreano que fugiu de uma área de controlo total, o qual dá nome à obra.

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