Vasco Graça Moura, o poeta do presente

10 NOVEMBRO, 2017 -

Vasco Graça Moura foi uma das personalidades singulares e aguerridas dos dois últimos séculos. Não só na literatura e na cultura se firmou como um nome relevante no seu contexto, mas também na discussão social e política, para além daquilo que foi o processo de estabilização nacional no pós-revolução de abril. A sua lista de galardões tornou-se ampla, em consonância e proporcionalidade com o trabalho realizado, e cresceu em sentido favorável, assim como a sua proeminência na problematização da realidade portuguesa, servindo para um país de menos especificidade e de mais unidade.

Vasco Navarro Graça Moura nasceu a 3 de janeiro de 1942, na foz portuense, sendo o primeiro de cinco filhos deste agregado familiar burguês. No rescaldo de um processo de maturidade feliz, embora fruto de uma educação familiar culturalmente esmerada, a sua formação desembocou numa licenciatura em Direito, à imagem dos seus familiares, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, numa fase em que se encontrava dividido entre esta área e as artes plásticas. Nesse período, tornou-se seduzido pela possibilidade de colaborar numa publicação académica associada à sua faculdade, e fê-lo, entre 1958 e 1962, na revista “Quadrante”, um espaço de debate e de discussão sobre as lides estudantis e académicas. Num período de grande repressão política, e por ser uma publicação associada à Associação Académica desse espaço universitário, eram várias as vozes de exortação e de discussão quanto àquilo que era a realidade de então, incluindo referências culturais de fora, e até poemas e críticas. Foi precisamente na poesia que se ia afirmando, com títulos avulsos como “Modo Mudando”, “Semana Inglesa”, ou “O Mês de Dezembro”. A importância desta publicação engrandeceu-se com nomes, como Diogo Freitas do Amaral, Jorge Sampaio e Vasco Pulido Valente.

Após formar-se, e numa fase em que já era casado e pai, fez serviço militar durante três anos e três meses; assumindo a função profissional de advocacia a partir de 1966, só a deixando em 1983, ano em que obteve autonomia para seguir a sua paixão criativa. O 25 de abril traria a liberdade tão ensejada, e aludida nas publicações esporádicas com as quais ia colaborando, e permitiu que se afiliasse ao Partido Social Democrata (PSD), embora assumisse o secretariado de Estado da Segurança Social no governo do pró-comunista Vasco Gonçalves, durante cinco meses, e dos Retornados no do democrata cristão José Pinheiro de Azevedo. Fiel ao que era a estrutura-base do partido, só ao apoiar Ramalho Eanes como candidato para a presidência da República, no ano de 1976, é que seguiu um caminho distinto em relação ao rumo seguido pela força partidária. Porém, nunca se viu como um político propriamente dito, sem objetivos traçados nesse rumo, embora também estivesse na comissão administrativa da Câmara Municipal do Porto no pós-25 de abril.

“foi assim que cheguei à poesia narrativa:
nos poemas moviam-se figuras
e a essas figuras aconteciam coisas
e essas coisas tinham um sentido deslizante,
era uma espécie de hipálage do mundo:

com precisão a seta era dirigida
à maça equilibrada na cabeça da criança,
mas devolvia-se ao arco, depois
de varar o coração dos circunstantes
e era a vibração do arco a derrubar o fruto,

num zunido do ar que a flecha deslocava
na sua trajectória. foi assim que cheguei
à poesia narrativa: havia flores nos alpes
e a corda em vibração levava à música.”

A vida política findaria ainda nos anos 70, com os 80 a convidarem-no para dar asas ao seu talento literário. Muito foi o que se opôs, no alto do seu repertório, ao surgimento do Acordo Ortográfico, reivindicando a autonomia identitária da língua portuguesa, para além de denunciar os interesses geopolíticos e empresariais de origem brasileira. Esta visão é sustentada no seu escrito “A Perspetiva do Desastre”, em 2008. Assim, pelo seu cunho, seriam assinados poemas, ensaios, peças de teatro, crónicas, e até traduções de vários clássicos. Obras que marcaram a sua personalidade criativa foram “Instrumentos para a Melancolia” (1980, reunião de três conjuntos poéticos, numa viagem estilística pelo classicismo e pelo modernismo), “A Sombra das Figuras” (1985), “A Furiosa Paixão pelo Tangível” (1987, numa obra que entretece referências intertextuais da literatura poética com um registo muito metafórico), “Uma Carta no Inverno” (1997), “Testamento de VGM” (2001, onde faz uma crítica quanto à reputação póstuma reivindicada por muitos autores, perante a insegurança da posteridade), “Antologia dos Sessenta Anos” (2002, em jeito de balanço em relação aos sessenta anos vividos até então), e “Os Nossos Tristes Assuntos” (2006). Todos estes são poemas, que marcam e demarcam uma figura notável na proficuidade lírica no final do século XX, e início do atual, para alguém que interpretava a poesia como algo técnico e melancólico. Em 2013, celebrando cinquenta anos de carreira literária, coligiu toda a sua literatura lançada até então em dois volumes.

Já no romance, embora visto como secundário e tardio, estreou-se com “Quatro Últimas Canções” (1987, numa referência ao compositor alemão Richard Strauss, e num contraponto de romances com muita música erudita e pintura), “O Naufrágio de Sepúlveda” (1988, sobre um empresário que se vê insolvente perto do 25 de abril), “Partida de Sofonisba – Às Seis e Doze da Manhã” (1993, cruzando um passado clássico com um ambiente burguês da Foz do Douro), “A Morte de Ninguém” (1998), “Meu Amor, Era de Noite” (2001, um romance num Portugal moderno, que viaja por epístolas e confissões), “O Enigma de Zulmira” (2002, que relata a vida de uma mulher no auge do período ditatorial, nos anos 50), “Por Detrás da Magnólia” (2004, bebendo de Camilo Castelo Branco no romantismo em Alto Douro, e passando o seu testemunho da realidade nacional a partir de lá), e “Alfreda ou a Quimera” (2008, no auge de uma obsessão passional de um bibliófilo portuense). Isto entre uma série de contos avulsos que foi desenvolvendo e compilando; e de peças, como “Ronda dos Meninos Expostos” (1987), e a farsa “Auto de Mofino Mendes” (1994).

Não obstante, muito daquilo que redigiu foi devotado ao estudo, pelo que se debruçou em crónicas e em ensaios, onde expressou e estruturou o seu pensamento em relação a várias figuras da cultura nacional e internacional. Uma das personagens que lhe mereceu mais atenção foi Luís de Camões, escrutinando as suas personagens, temáticas e tendências para a divinização e para a mitologia (destacam-se “Luís de Camões: Alguns Desafios” (1980), “Camões e a Divina Proporção” (1985), e “Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens” (2000)). Para além das figuras que estudou, foi muito o que explorou sobre a história de Portugal, desde os Descobrimentos até ao fado, passando pela formação da identidade cultural europeia e pela história da pintura nacional. Desta forma, tornou-se historiador honoris causa pelos contributos prestados ao estudo do legado luso.

Ao nível das traduções, trouxe peças dos franceses Jean Racine, Molière, e Pierre Corneille aos portugueses, assim como sonetos de William Shakespeare, poemas de Petrarca, e do espanhol Federico García Lorca, a célebre “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, entre vários outros autores. Estes seriam alguns dos que serviriam como base do seu percurso lírico, que se pautaria pela modéstia e pela descompressão de alguém muito prático e objetivo, inspirando-se, também, no compatriota Jorge de Sena.

“No que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem

das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém,
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém

havia sempre mais alguém
para o chamar então a si.
também vivendo o que menti,
mas como seu, mas como sem

ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem,
é a sua vez, e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.”

Graça Moura foi casado por três vezes, entre elas com a filha de Miguel Torga, Clara Crabbé Rocha; mas viria a ter, como última companheira, a italiana Maria Bochicchio. Pai, foi-o por quatro ocasiões, em consonância com as várias funções que foi assumindo dentro de portas, sendo diretor de programas da RTP (1978, onde concebeu e apresentou alguns programas de poesia), administrador da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (1979-89, onde renovou e estimulou a linha editorial), diretor da Fundação Casa de Mateus, membro do Conselho Geral da Comissão Nacional da UNESCO (1983-87),  para além de uma série de outras funções ligadas a revistas e instituições de cariz cultural e académico, encaminhando a celebração do centenário de Fernando Pessoa. Este trabalho conheceu, como grande missão, a recuperação dos autores nacionais esquecidos, relançando e recuperando o património que se havia esquecido na literatura nacional. A sua preponderância denotou-se ainda mais quando, ao lado do autor António Mega Ferreira, foi o proponente da EXPO’98 – Exposição Mundial de 1998, na cidade de Lisboa, que se tornou numa das mais bem-sucedidas numa escala mundial, e que celebrou o meio milénio de Descobrimentos portugueses.

A atividade política regressaria às portas do século XXI, associado ao Partido Social-Democrata, tornando-se deputado no Parlamento Europeu, de 1999 até 2009, ao abrigo do Partido Popular Europeu. Associado a esse mundo, mas de forma indireta, foi indigitado para a presidência da Fundação do Centro Cultural de Belém, até à sua morte, no dia 27 de abril de 2014, vítima de cancro, aos 72 anos de idade. Nesse ano, seria alvo de várias homenagens à sua personalidade social e literária, embora já tenha sido anteriormente, com a arrecadação do Prémio Pessoa, do Prémio Vergílio Ferreira, da Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago de Espada, para além de muitos mais internacionalmente, ao nível da tradução e da criação literária. Apesar de todo este lastro, só cessou de escrever para o Diário de Notícias com o seu falecimento, tendo, até lá, colaborado com as habituais crónicas semanais; para lá das diversas participações televisivas e em demais meios de comunicação, batendo-se por ideais de educação e de formação cultural, para além de análises da realidade nacional.

“Somos lidos pelos livros. Descobrimos quem somos nas leituras que fazemos”

Conforme mencionado acima, Graça Moura sempre foi um autor que, sempre incluído numa dinâmica de modernidade, desvalorizou o futuro e a projeção daquilo que escrevia, concentrado naquilo que era a maximização do presente vivido. Desta feita, descurava essa necessidade de preservar e renovar a sua imagem literária. Na poesia, detetava uma série de limitações e insuficiências, com uma visão meramente intelectual, despojada do lirismo sentido para lá do escrito. O seu apreço pela ordem e pela disciplina conduzia-o a isso, mesmo com uma obra tão diversa e pluridimensional, à imagem de Jorge de Sena, com um certo toque melancólico e reflexivo. Mesmo assim, ampliou-se às demais expressões artísticas, com uma pitada prosaica do quotidiano, e dialogando com uma tendência renascentista em relação à História. Tanto na poesia, como no ensaísmo, a sua argumentação sólida e consistente consente um maneirismo rigoroso e formal, sem esquecer a crítica pontual e conservadora. Outra das inspirações foi a de checo Rainer Maria Rilke, numa derivativa de grande comoção e de um trabalho rendilhado pelas estrofes e pelas linhas, embora sem nunca discursar sobre o amor, por uma questão de bom senso, mas sem se deixar de comover.

Vasco Graça Moura foi isto e muito mais. Mais do que classificar a sua literatura, é difícil de quantificar a grandeza e a extensão do seu trabalho. Muitas largas foram dadas às fronteiras esboroadas pela visão sistémica do mundo, por parte deste autor. No entanto, é injusto limitar aquilo que foi a sua vida e obra no mero distintivo de autor, pois foi advogado, pensador, e presença política e institucional em vários órgãos de decisão pública e privada. Visando sempre a valorização daquilo que é o ser português e o ser europeu, foi com uma trajetória mundial que Graça Moura se fez poeta da vida e da obra com pouco igual.

Fotografia de capa de artigo: Nuno Ferreira Santos/Público

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