Vantagens e desvantagens da história para a vida, entre a exposição e o ensaio

7 OUTUBRO, 2016 -

Instalação Rorschach de Carla Filipe, fotografia de Diogo Caetano

Em Vantagens e Desvantagens da História para a Vida, o curador Paulo Pires do Vale traz-nos um conceito diferente de exposição, a “exposição-ensaio”, fazendo um ensaio através de obras de arte de instituições culturais da cidade de Évora e do seu cruzamento com obras de arte contemporâneas. Desta forma somos levados a reflectir na relação entre a história e a vida presente no ensaio de Nietzsche que dá nome à exposição, e nas tensões que provêm desta, como a tensão passado e futuro ou tradição e modernidade, através de um percurso que se divide em capítulos, como se de um livro se tratasse.

A exposição inicia-se com o prólogo, no qual nos deparamos com a máscara dupla face, “ngil” Fang, esta olha para a frente e para trás, questionando-nos se temos os nossos olhos postos no presente ou no passado, e apontando para o peso da história no presente e no porvir. E tendo a cidade de Évora o peso de uma grande herança histórica muito presente, estas questões acabam por se tornar pertinentes não só para o indivíduo, como também para a própria cidade, que celebra o 30º aniversário enquanto cidade Património da Humanidade pela Unesco.

Ao subirmos as escadas que nos levam para o primeiro piso, correspondente à parte I da exposição, sentimo-nos a travessar uma espécie de “túnel do tempo” ao encontramos as paredes cobertas por relógios provenientes do Museu do Relógio, e ao escutarmos a peça One Million Years de On Kawara (apresentada pela primeira vez em Portugal), onde duas vozes fazem ecoar datas num período de um milhão anos, para a frente e para trás. Estas obras expressam a obsessão com o tempo em que o ser humano vive, e a sua busca irreal de dominação do mesmo. E esta irrealidade volta a surgir no capítulo 2, Desaparição (memento mori), confrontando-nos através da obra Natureza Morta com Cardo e Marmelo e Laranja de Josefa de Óbidos, que nos mostra que não podemos fugir ao tempo e à inevitabilidade da morte, presente também na consciência histórica. A história tem um importante papel neste piso, sendo que no capítulo 3 somos relembrados que temos sempre os olhares do passado sobre nós, trazendo os que nele habitaram para o presente através de retratos de figuras isoladas que nos olham de cima. Fazendo um contraste com estes retratos de carácter formal, encontramos na parede oposta fotografias de João Cutileiro mostrando a realidade do quotidiano Alentejano em 1959, e também do fotógrafo social Eduardo Nogueira, com destaque para a fotografia Salão Central, na qual a nossa condição de espectador é invertida ao sermos nós o objecto da observação de um amplo público.

Ao avançarmos na exposição somos levados a reflectir sobre outro aspecto da história, a sua fragmentação. É nos impossível reconstruir a história com precisão pois tudo o que temos dela são fragmentos, como é visível através dos vestígios de esculturas romanas, como por exemplo o fragmento de um dedo, que se pensa ter pertencido a uma escultura com aproximadamente quatro metros. E também da Instalação Rorschach de Carla Filipe, em observamos vários livros da História de Portugal comidos pelo bicho da traça, ilustrando esta memória perdida.

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Instalação Entrevidas de Ana Maria Maiolino, fotografia de Diogo Caetano

No capítulo 7, Fantasmas, somos convidados a entrar numa sala que tem uma pesada carga do seu passado, tendo sido a sala do tribunal da inquisição. Nesta, encontramos a instalação de 1971, Ambiente (Sala de Jantar), de Ana Viera. O que vemos é um cenário comum de uma sala de jantar, com a mesa posta e todos os sons correspondentes à refeição em família, mas no entanto não vemos ninguém, o que faz com que sejamos invadidos por um certo sentimento de estranheza. Esta instalação evoca os sentimentos de memória que todos temos em torno do espaço da sala de jantar, onde passam memórias de geração em geração, e onde mais uma vez ficamos sempre com a ideia da presença do passado, mas onde fica o novo? Na sala seguinte existe uma tentativa de recriar o tradicional tornando-o actual, tendo esta como título A tradição como aventura: o passado em benefício da vida. Somos então levados a ver que o passado não nos deve paralisar, mas que devemos utilizá-lo como motor para o futuro. Esta é uma sala dedicada à tradição oral, que tem vindo a ser recuperada nos últimos tempos. Primeiro por Michel Giacometti, depois por Tiago Pereira, e ainda com um espaço vazio, aberto á comunidade para que todos possam participar nesta recuperação.

Na passagem para o segundo piso sentimos uma grande mudança, este é dedicado ao presente, ao aqui e agora. A caixa de relógio vazio com que nos deparamos logo ao subirmos as escadas aponta para uma ideia de esquecimento do passado, algo essencial no ensaio de Nietzsche. O Homem tem a capacidade do esquecimento, o que lhe permite aliviar o peso do passado assumindo assim a sua presença na actualidade. E é precisamente isto que somos convidados a fazer através da obra do artista espanhol Ignasi Aballí, Personas. Esta peça pede ao espectador que deixe a sua pegada na parede, deixando uma marca e afirmando que estamos aqui, que vivemos neste momento. Também neste piso encontramos a instalação de Anna Maria Maiolino, Entrevidas, onde somos levados a escolher um percurso caminhando entre ovos. Sim ovos verdadeiros que cobrem o chão de uma sala, e que criam uma metáfora a incerteza dos percursos que fazemos durante a nossa vida, focando-se no momento da decisão. A exposição termina no antigo gabinete do inquisidor, com a escultura Nossa Senhora do Ó, de João Cutileiro, que surge como o prenúncio de um futuro esperançoso, sendo o ponto final perfeito para a este ensaio.

Esta exposição merece sem dúvida uma deslocação até à cidade de Évora, uma vez que não nos permite só observar fantásticas obras de arte que vão desde o Período Romano, até aos dias de hoje, como também abrem portas para uma reflexão sobre o passado, o presente, o futuro e o nosso lugar no meio de tudo isto. Pode visitar Vantagens e Desvantagens da História para a Vida até 8 de Janeiro de 2017, no Fórum Eugénio de Almeida.

Texto de Joana Leão

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