Van Gogh, o suicidado da sociedade

28 JUNHO, 2016 -

Ele não era louco, mas as suas pinturas eram fogo grego, bombas atómicas, cujo ângulo de visão, ao lado de todas as outras pinturas, eram capazes de perturbar seriamente o conformismo larvar da burguesia” – Antonin Artaud

Os acontecimentos da vida pessoal de Van Gogh, desgostos amorosos e profissionais profundos, caracterizaram a natureza da sua obra. Nos seus quadros podemos ver retratos exaustivos dos aspetos das coisas com uma potente expressão do seu sentimento, que em várias obras nos pede para termos empatia com pessoas deprimidas.
Em 2014, o Museu d’Orsay inaugurou uma exposição com obras de Van Gogh em conjunto com um texto escrito pelo escritor e dramaturgo Antonin Artaud sobre o pintor. A Editora Assírio & Alvim publicou esse texto em formato de livro. Nestas breves páginas, escritas numa prosa poética, podemos encontrar um monólogo no qual as parecenças entres os artistas é posta em evidência. O tema central é a ligação entre a obra de Van Gogh e a sua vida atormentada, que acabou em suicídio com um tiro no peito, numa altura em que tinha 37 anos.
O aspeto que os une é o rótulo de “louco” que a sociedade lhes aplicou. O escritor ao longo do texto exprime a sua revolta com este tratamento, ao mesmo tempo que faz um sublime elogio a Van Gogh. Ambos foram acompanhados por psiquiatras: “eu próprio passei nove anos num asilo de alienados e nunca tive a obsessão do suicídio, mas sei que de manhã, à hora da visita, todas as conversas com um psiquiatra davam vontade de me enforcar por sentir que não podia decapitá-lo.” Segundo Artaud, o acompanhamento psiquiátrico do doutor Paul Gachet foi a grande causa do suicídio do pintor holandês, o que explica o título da obra, ou seja, houve suicídio, mas a culpa foi exterior, da sociedade em que vivemos, e não do mestre impressionista.
Uma excelente maneira de ler este livro é imaginar Artaud sozinho no palco de um teatro, onde a única luz incide sobre ele, ao mesmo tempo que o texto surge como um desabafo enraivecido pela injustiça que cada um viveu em vida, porque, como escreveu Artaud: “o alienado também é um homem que a sociedade não quis ouvir e quis impedir de formular verdades insuportáveis”.

Texto e fotografia de Pedro Fernandes

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