‘Valerian’, de Luc Besson, tinha tudo para ser especial mas é irrelevante e esquecível

26 JULHO, 2017 -

Esta semana chega às salas de cinema portuguesas a mais recente opera espacial de Luc Besson, Valerian – a Cidade dos Mil Planetas, o filme tem-se destacado internacionalmente por ser visualmente muito rico mas com uma história muito simples. Valerian será um dos filmes esquecidos ou lembrado como um dos fracassos de Luc Besson, sempre sujeito à comparação com o seu brilhante O Quinto Elemento (1997), como também, não consegue competir com nenhuma das grandes franquias – Star Wars ou Star Trek – não tanto pelo orçamento e efeitos especiais, mas porque tem uma narrativa previsível, uma execução mecânica, sem vida, e nada inovadora.

Apenas com uma leve inspiração na BD original de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, os verdadeiros fãs da saga não se vão rever nesta história, pois não só não encontrarão aqui uma qualquer adaptação de um álbum, como não vão reconhecer os elementos típicos das personagens que conhecem. Retirado da BD identificamos o nome do filme (é uma derivação do 2.º álbum da BD Empire of a Thousand Planets que foi aquele que mais influenciou Star Wars), a icónica nave Intruder (que foi a grande inspiração para a Millenium Falcon), Siruss (a inspiração para Jabba the Hutt), os Shingouz que são três alienígenas com uma única hivemind que traficam informação e são presença assídua na assistência a Laureline, e os Glampods que são camaleões da BD do qual o exemplar presente é Bubble (Rihanna) que também não existe na BD.

Valerian (Dane Dehaan) é um Agente Especial (não se percebe ao longo da história de que forma é que é diferente das restantes forças de segurança) que trabalha em parceria com Laureline (Cara Delevingne), e recebe a missão, do presidente de Alpha, de resgatar um Conversor – uma espécie de tatu alienígena que é o último da sua espécie, e que é nativo do planeta Mul – das mãos do pirata Siruss (John Goodman) o Jabba the Hutt deste universo e arqui-inimigo de Valerian. Após uma cena de ação no qual conseguem completar a missão, terão de entregar o referido conversor ao Comandante Arün Filitt (Clive Owen) que aquando da quase entrega os informa que no tempo em que estiveram fora de Alpha uma zona da estação espacial se tornou interdita e que um “mal” anda pela estação. Quando o Comandante vai informar o resto dos “governos” que já tem na sua posse o dito conversor, os Pearls – “donos” originais dos Conversores – que nos são apresentados no inicio do filme com a destruição do seu planeta – raptam o Comandante o que obriga a que Valerian e Laureline os tenha de perseguir para o tentar salvar. Naturalmente e sem grandes surpresas, após algumas peripécias descobrimos que afinal a zona interdita é habitada pelos Pearls sobreviventes, e que o Comandante, que nos é apresentado, na sua primeira cena, a torturar um Pearl, e anda sempre com um bando de robots negros ameaçadores atrás, foi o responsável pela destruição do mundo dessa raça e de toda a cover up story sobre a sua extinção.

Visualmente muito rico, na sua primeira metade, é claramente o tipo de filme no qual o 3D e o IMAX fazem toda a diferença na experiência. Os detalhes de Alpha (a cidade dos mil planetas), Big Market um bazar transdimensional num planeta desértico que mais parece uma cidade gigante onde tudo se compra e tudo se vende, ou as batalhas espaciais do final do filme (que parecem retiradas da cena inicial de Star Wars III Revenge of the Sith) são alguns dos exemplos de elementos desenhados para deslumbrar. Também se consegue imediatamente ver a influência de Avatar (2009) – algo comprovado pelo próprio Luc Besson que afirmou só ter pensado em adaptar Valerian quando viu a obra de Cameron. Quando nos são apresentados os Pearls, uma raça alienígena primitiva que tem uma ligação telepática à natureza, imediatamente nos recordamos dos Na’vi de Avatar, com um físico semelhante aos Kaminoans Star Wars II Attack of the Clones (2002). O processo criativo de imaginação de toda esta população também foi interessante (utilizando vários artistas diferentes, de diferentes partes do globo) e torna credível e até faz com que queiramos conhecer mais de todas essas raças, só que não só a história não o proporciona, como chega a tornar isso irrelevante.

Se inicialmente nos podemos deleitar com toda a envolvência, a meio do filme, já nem isso temos para nos distrair dos diálogos mecânicos e da falta de química geral entre as personagens. Aliás desde o inicio ao fim do filme nenhuma das personagens demonstra quaisquer sentimentos ou emoções (para além de raiva no caso de Clive Owen), e as personagens principais não evoluem ao ter de passar pelos desafios que têm de enfrentar, muito pelo facto de nenhuma ter um qualquer traço característico próprio. O filme chega ao ponto de nos indicar narrativamente que determinada personagem têm determinadas características para nós sabermos que eles a têm, como é o exemplo de quando Valerian nos diz que é um soldado que segue as regras porque são inerentemente boas, mas imediatamente antes desobedece a um superior hierárquico e nas poucas vezes que atua, não querer saber das mesmas, chega atrasado e tem o habito de não ler os memorandos das missões; Dizem-nos que ele é mulherengo, (e repetem até à exaustão) mas ele tem não tem a subtileza que associamos a essa característica.

A ausência de química entre os dois protagonistas é também um dos pontos fracos do filme, especialmente porque o realizador nos tenta demonstrar que existe uma relação entre os dois protagonistas (aquela relação que resulta de uma tensão qualquer entre os parceiros – que até é vista na BD). No entanto, as interações entre os dois são frígidas e desprovidas de alma, como quem está a ler as falas num papel, ou entre dois estranhos que se acabaram de conhecer. A ausência de profundidade de diálogo entre os protagonistas é constante, e não nos indica nada sobre cada um deles, apenas que Valerian (diz que) ama Laureline e esta última que não o quer porque quer o verdadeiro amor. Não falam de mais nada, não há qualquer exploração de outros temas do quotidiano, nem da sua personalidade, o que é estranho em duas pessoas que vivem na mesma nave e convivem durante meses a fio.

E isso contrasta com os 5 minutos de screen time de Rihanna que interpretando Bubble cria a única conexão credível com Valerian, pois não só se sente uma química imediata entre os dois, como é a única personagem em que se compreende de onde vem e para onde quer ir. E é sintomático de um filme mau quando uma side story parece mais atraente que a narrativa principal.

Por fim o filme falha em encontrar-se a si mesmo, e consequentemente a poder estabelecer-se no mercado. Existe uma falta de um tema central que seja explorado, apesar de ser repetidamente referida a tolerância aceitação e diplomacia, não há qualquer foco nesses temas, e acabamos até por ver a segregação por sectores de raças diferentes. E isso é ainda pior quando a BD original toca em temas atuais que podiam ter sido tocados como o Aquecimento Global ou o poder autocrático.

O realizador quer criar um universo e mostrar que ele é grande e diverso, mas devido a isso perde foco e estende-se demasiado, pois são apresentados elementos, mas ou não se refere a sua relevância ou deixam de ser relevantes. Não se percebe o que é Valerian, é um agente? Mas qual é a sua função? O que o torna melhor que os outros? O seu fato, semelhante ao de Samus em Metroid tem vários “poderes”, mas só os vemos em ação numa cena especifica. Os 20 minutos da cena no Big Market estabelecem várias tecnologias como as caixas transdimensionais, estabelecem vilões, e estabelecem modus operandi, mas apesar de toda a sua apresentação, nunca mais são relevantes; Quando chega a Alpha o computador explica onde e o que faz cada uma das principais raças, mas, para além de ser expositivo nenhuma dessa informação é relevante para a história; Um pescador após ajudar a capturar uma alforreca numa cena de ação divertida acaba por dizer que se chama Bob para de seguida nunca mais aparecer…

No fundo fica a sensação de que Valerian podia ter sido algo especial e diferente e tinha definitivamente potencial para tal, mas um mau argumento, más prestações dos atores e a tentativa de dizer demasiado, acabando por não dizendo nada torna este filme irrelevante e esquecível.

Texto de: Duarte Canotilho

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