Um silêncio finalmente quebrado

29 OUTUBRO, 2016 -

Passaram cerca de duas semanas depois do anúncio da escolha do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2016, escolha essa que provavelmente nunca antes teria causado tanta polémica. Bob Dylan, músico e compositor norte-americano finalmente deu sinais de vida e pronunciou-se sobre tal condecoração como “Incrível, espantosa. Quem poderia imaginar?”, depois de um pequeno período de silêncio.

Muitos consideraram este silêncio, que até pode ser visto como um período de reflexão da parte de Dylan, uma maneira “arrogante e pouco cordial” de tratamento do músico para com a Académica Sueca. Alguns esperavam que esta fosse uma repetição do que aconteceu com Jean-Paul Sartre em 1964, o único até hoje a recusar um Nobel da Literatura por, segundo o próprio, “nenhum escritor dever-se-ia transformar numa instituição”. Para Sartre seria completamente diferente assinar os seus livros como Sartre escritor do que como Sartre Nobel da Literatura. Este foi provavelmente o episódio mais controverso de toda a história da atribuição do Nobel da Literatura… até hoje.

Das seis categorias do Prémio Nobel, a Literatura é provavelmente aquele que acaba sempre por criar alguma controvérsia (embora o Nobel da Paz por vezes também crie). Na Literatura, dos inúmeros candidatos de que se vão falando constantemente, podem ser distinguidos três tipos mas apenas um acaba por vencer: há aquele que é o favorito, de que toda a gente fala, que a imprensa lança como o mais provável vencedor e que nos faz crer que realmente seja mesmo o anunciado; há aquele que tem menos hipóteses do que o favorito mas no entanto temos uma enorme ligação afectiva com ele, é um dos nossos escritores de referência e fazemos figas para que ele consiga ganhar (claro que este vai variando de pessoa para pessoa); e há ainda aquele cujo nome se fala e paira no ar mas que, no entender de grande parte da crítica e do público que acompanha a atribuição deste prémio, jamais terá hipótese de ganhar perante tamanha concorrência. Poucos se calhar foram os que se encontram neste último caso, mas é certo que Bob Dylan está nele enquadrado. Apesar do seu nome ter vindo muitas vezes à baila na discussão, nunca se esperaria que perante a concorrência de peso que havia, formada por nomes como Haruki Murakami, Adonis, Philip Roth e entre tantos outros, que Bob Dylan pudesse alguma vez triunfar na escolha para vencedor do Nobel da Literatura.

Tudo isto causou muita controvérsia da parte da crítica e do público em geral, porque “Dylan não é um escritor, não tem livros” e porque havendo uma série de escritores gigantes, monstros da literatura que nunca ganharam o Nobel, a escolha de Bob Dylan seria uma autêntica “afronta e injúria” para a Literatura a nível global. Mas até que talvez não seja se analisarmos um pouco da história dos prémios Nobel em geral.

Vejamos por exemplo o caso dos vencedores do Nobel da Física, por exemplo, que inicialmente era atribuído a descobertas na Física e com o passar dos anos foi-se desviando um pouco da descoberta tendendo mais para o engenho. John Bardeen foi laureado duas vezes uma delas pelo desenvolvimento do transístor, em 1956, uma das mais importantes invenções da física do século XX. Em 2000 uma equipa de engenheiros electrotécnicos da Texas Instruments ganhou o Nobel da Física pelas suas contribuições no desenvolvimento dos microchips. Em 2009 os vencedores foram laureados por desenvolverem os chamados CCD (charge-coupled device), tudo invenções e não descobertas que não se ficam só por aqui. Podemos também ir aos laureados na categoria da Química nos últimos anos onde os vencedores de 2014 contribuíram para o desenvolvimento a microscopia de super-resolução por fluorescência e em 2013 pelo contributo na química computacional para sistemas químicos complexos. Tudo aplicações e invenções, e não descobertas. Posto isto será que, tal como a Física e a Química que não se fazem só com descoberta mas também com engenho, inovação e aplicação dos mesmos, porque é que a literatura tem que ser feita necessariamente só como livros e não com outras maneiras de expressão como a música por exemplo?

Se analisarmos as canções de Bob Dylan, como “Like a Rolling Stone”, “Hurricane”, “Mr. Tambourine Man” e entre tantas outras, por que razão é que as associamos a músicas com uma narrativa e não a narrativas com música? Se vermos bem estas canções apresentam mais letra, mais conteúdo lírico e literário do que qualquer outra que possamos ouvir. Dylan teve o engenho e a audácia em adaptar os seus textos, poemas e contos em canções que todos nós conhecemos, algo que por mais que procuremos e tentemos descobrir, nenhum outro músico conseguiu fazer da mesma maneira. Dylan tem muito mérito por ter conseguido ser pioneiro em fazer canções deste modo e em expressá-las de uma maneira altamente apelativa. Tal como a ciência, a literatura também acabou por evoluir. Se começámos com descobertas e partimos para o engenho, na literatura começámos com os livros e partimos para outras maneiras de expressão da mesma como a música.

Após vários dias de controvérsia e de revolta nas redes sociais, a verdade é que Dylan finalmente reagiu no seu estilo comedido tentando evitar dar muito nas vistas. O próprio já comunicou que “Irá comparecer se puder.”, o que volta deixar ainda alguma intriga no ar. A verdade é que a atribuição deste prémio é um sinal de mudança na literatura e Dylan, que mais do que músico, poeta, cantor, pintor e artista, tornou-se num símbolo de alguma mudança dos tempos que correm. Um símbolo que faz de Bob Dylan representar não a música, não a pintura, nem a literatura mas algo muito mais simples, amplo e grandioso que isso: o ser humano em geral.

Texto de José Francisco Rodrigues Malta

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