“Um português e um brasileiro entram num bar…”

3 NOVEMBRO, 2017 -

É inevitável ouvir o Ricardo Araújo Pereira sem relembrar os hilariantes sketches dos Gato Fedorento. Gregório Duvivier “sofre” do mesmo efeito com a Porta dos Fundos. São duas personalidades que nos acostumámos a ouvir e a quem associamos automaticamente o riso.

Foi no Auditório da Praça da Criatividade, no FOLIO 17, onde estes grandes humoristas de sentaram para uma conversa séria, “a brincar”. Não poderia ser noutro local que não a Praça da Criatividade. Trazem na mochila muitos anos de criação que fazem deles dois dos melhores humoristas de sempre da língua portuguesa.

Numa sala onde a decoração era afeta a campanhas partidárias, com dezenas de cartazes da coleção privada de Pacheco Pereira, falou-se de tudo um pouco. Desde os falsos amigos do português de Portugal e português do brasil à dificuldade de Madonna encontrar casa por Lisboa. Vários temas da atualidade foram levantados e levou-nos à comparação entre a realidade de Gregório no Brasil e a de Ricardo por Portugal. A democracia foi muito frisada pelos dois, principalmente a “nossa” democracia e aquela vivida pelos nossos irmãos brasileiros.

Ricardo Araújo Pereira deu-nos a conhecer um pouco do novo livro de Gregório Duvivier, intitulado de “SONETOS”. Um livro onde Duvivier junta o melhor do Humor e da Poesia. O autor navega por diversos temas e o leitor é levado até às gargalhadas sem dar conta. Duvivier, por sua vez, apresentou o novo livro de Ricardo – “Reaccionário com Dois Cês”. Nenhum dos dois teve tarefa fácil. Ricardo apresenta-nos um livro ao seu estilo, com a escrita que lhe é conhecida e com a critica subtil que o caracteriza. Frase sim, frase sim o público reagia como é hábito quando está em frente aos dois humoristas. As gargalhadas foram uma constante ao longo deste fim de tarde.

Entretanto “aparece” a Madonna. Chegou-nos pelo Gregório. As dificuldades que a estrela norte americana está a ter para encontrar casa já são conhecidas um pouco por todo o mundo, e não escaparam ao brasileiro, que diz que os portugueses são “hipsters” por gostarem dos sítios com pouca gente. Quando Ricardo lhe perguntou se ainda haviam brasileiros no Brasil, Gregório teceu vários elogios ao nosso país, confessando-se amante de Portugal.

Como é do conhecimento do público, ambos os humoristas têm uma veia política bem ativa. As suas orientações são assumidas sem medo e através duma abordagem diferente daquela que estamos habituados, transmitem a sua opinião a todos sem exceção.

Numa linha de raciocínio bem clara, a conversa seguiu para um debate sobre democracia. Apesar de sermos países culturalmente muito parecidos a definição de democracia ainda é muito vaga no Brasil, em comparação com a realidade do nosso País. Gregório falou-nos um pouco dessa “democracia à moda do Brasil”.

Aqui a genialidade dos dois humoristas sobressaiu a tudo o resto. Um debate de ideias com cariz social e económico muito relevantes, com peso no dia-a-dia dos cidadãos e foi abordado com uma simplicidade incrível. Sem deixar nada por dizer, mas com a categoria que ambos já nos habituaram. As diferenças entre Portugal e Brasil foram bem “esmiuçadas”.

Todos os temas que nos últimos tempos encheram manchetes portuguesas e brasileiras foram abordados. Falaram-se de estereótipos, grupos extremistas e classes sociais e os humoristas contaram episódios que se passaram recentemente em ambos os países. “À mesa” chegou o tema da decisão judicial do Juiz Neto de Moura. Apesar de ter muitas questões éticas e legais para explorar, a “analise” humorística é desafiante e convidativa.

Ricardo, como o conhecemos, explorou esse tema por completo. Durante o discurso muitas risadas se ouviram, mas nas entrelinhas soltavam-se ideias e críticas com a subtileza já referida.

A Bíblia é um fator importante neste caso, não fosse esta uma das razões da polémica instalada. Quem era (e é) conhecedor do trabalho de Ricardo Araújo Pereira e dos Gato Fedorento sabe que essa temática é “matéria prima” para bons argumentos. Como tal, Ricardo fez questão de apresentar a “justiça portuguesa” a Gregório.

A Religião tomou lugar na mesa de conversa e foi o tema que encerrou a sessão. Este tema é conhecido por ser tabu para a nossa sociedade, mas eles sabem como aborda-lo.

A famosa vila de Óbidos recebeu mais uma vez os alguns dos melhores escritores do mundo. Alguns deles usam a Nossa língua portuguesa para passar as suas mensagens e contar as suas histórias. Nesta pequena vila podemos encontrar milhares de livros distribuídos pelas muitas livrarias existentes. Existe inclusive uma Igreja da qual fizeram uma livraria.

No fim da conversa, ainda na continuação do caso do Juiz Neto de Moura, Gregório tem aquela que para mim foi a frase da noite. Falava da bíblia e da forma omnipresente como esta “rege” a nossa sociedade. Numa curta frase Duvivier frisa bem a importância da literatura para o desenvolvimento do nosso mundo social.

“Aqui em Óbidos fizeram com que numa Igreja se deixasse de ler um só livro para agora ter 1000.”, disse Gregório Duvivier

O humor é uma “ciência” à qual se dá pouca credibilização. Há quem seja engraçado, quem goste de contar umas piadas há até quem escreva bem. Mas como em todas as profissões temos sempre exemplos de excelência, que levam a profissão por outros caminhos jamais considerados.

Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier são dois “cientistas” humorísticos de excelência, que levam a sua profissão muito para além do dito comum, conseguindo falar (muito) a sério, mas sempre a “brincar”.

Crónica escrita por André Cardeal dos Santos

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