Um passeio pela Lisboa dos escravos

31 AGOSTO, 2017 -

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Eram desembarcados na zona do Terreiro do Paço, após uma viagem em condições intoleráveis, e depois leiloados como mercadoria. Com a ajuda de um especialista nesta matéria, o historiador Arlindo Manuel Caldeira, reconstituímos um roteiro pelos lugares da escravatura na Lisboa dos séculos XVI-XVIII.

Madragoa

Nalguns mapas antigos, a zona aparece descrita sob o topónimo Mocambo, «uma palavra de origem kikongo que designa uma aldeia num lugar alto», diz Arlindo Caldeira. «Foi aplicada sobretudo em S. Tomé para os escravos que fugiram para os montes e criaram comunidades autónomas e independentes. Aqui não é nesse sentido. O que sabemos é que havia aí cabanas de pescadores, e provavelmente de escravos. E talvez pelo aspeto de cabanas lhe chamassem Mocambo». O historiador rejeita no entanto a hipótese de se tratar de um «bairro de escravos». «É um contrassenso considerar um bairro de escravos – os escravos não têm bairro por definição. Vivem com os senhores».

Poço dos negros

Em 1515 o Rei D. Manuel escreve para a câmara de Lisboa a proibir a prática de largar os cadáveres de escravos não batizados para as praias, ribanceiras ou estrumeiras, e sugerindo fazer um poço profundo para aí serem deitados os corpos. Durante muito tempo acreditou-se que esse seria o ‘poço dos negros da toponímia’. No entanto, Arlindo Caldeira considera mais provável esse tratar-se de um poço de água «que fosse frequentado por escravos negros que lá iam buscar água para os seus senhores».

Terreiro do paço e cais das colunas

Era por aqui que desembarcavam os escravos vindos de África, depois de uma viagem de duração imprevisível e em condições horríveis. «O espaço era pequeno, a alimentação era irregular, a água muitas vezes faltava. Juntemos a isto uma acumulação de corpos, muito acima da capacidade do navio», explica Arlindo Caldeira. Muitos dos escravos «vinham do interior e nunca tinham visto o mar», por isso enjoavam com facilidade. A taxa de mortalidade rondava os 20%, mas podia chegar aos 50%. Os que sobreviviam chegavam doentes, tendo os traficantes técnicas para lhes melhorar a aparência.

Praça do Município

Depois de desembarcados, os escravos seguiam para a Casa dos Escravos, uma dependência da Casa da Guiné, que por sua vez estava ligada à casa da Índia. «Era aí que ficavam armazenados e que se cobravam os impostos. Só depois de pagarem os direitos os senhores podiam levantar os escravos», diz Arlindo Caldeira. «E ainda ficavam lá outros que eram os da própria Fazenda Real». A maioria destes eram vendidos em leilão no Terreiro do Pelourinho Velho, que corresponde grosso modo à atual Praça do Município. A Casa da Guiné também se encontrava na mesma zona.

Igreja da conceição velha

A sua fachada, da autoria de Jerónimo de Ruão, corresponde à antiga capela funerária de D. Simoa Godinho, que se encontrava na Igreja da Misericórdia e foi transferida para a Rua da Alfândega após o terramoto. Natural de S. Tomé, D. Simoa era proprietária rural e casou com um nobre, Luís de Almeida, sobrinho de Baltasar de Almeida, feitor do trato dos escravos na ilha de S. Tomé. Em 1578 o casal mudou-se para Lisboa, a partir de onde continuou a gerir as suas propriedades e negócios. A sumptuosa capela foi construída graças aos proventos resultantes da utilização de mão-de-obra escrava.

Artigo escrito por José Cabrita Saraiva, parceria jornal SOL

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