Um festival de cinema só para elites, com entrada completamente fechada ao público

21 OUTUBRO, 2016 -

O documentário “Manuel” não venceu os Golden Tree International Documentary Film, mas na verdade nem sequer competiu para os ganhar.
Foi pré-seleccionado primeiramente por um comité no Senegal, posteriormente passou por outro comité de selecção em Paris, e finalmente, pôde estar presente em Frankfurt nos Golden Tree Awards, mas por motivos alheios, que não vou falar aqui, não competiu para ganhar os prémios, apesar de teoricamente estar nomeado.

Quero-vos falar um pouco deste festival, um pouco da realidade que vi, e um pouco da realidade que conheci.
Mas retomemos às origens, e de onde surge este documentário. Quando filmei o “Manuel”, em São Tomé e Príncipe, conheci um mundo onde as pessoas trazem no bolso pouco mais do que nada, e nada é tudo aquilo que têm a perder.
No meu mundo, no nosso, andamos sempre nem que seja com 20€ no bolso, por isso, já temos algo mais a perder, um ego construído à base de muito pouco, um estatuto que pensamos ter de manter. Mas neste mundo que conheci em Frankfurt as pessoas andam com cartões de crédito com plafonds de centenas de milhares de euros, senão milhões. Gastam o dinheiro sem sequer olhar para isso, compram coisas em que a etiqueta do preço é meramente ilustrativa, e serve apenas, para pessoas como nós, sabermos que nunca as vamos poder comprar, mas andamos uma vida toda a pensar que um dia conseguiremos. São pessoas que decidem pegar em 500 mil euros para investir em documentários, só porque sim, acham giro; e interessa também referir que grande parte dessas pessoas são de nacionalidade chinesa.

Neste festival de documentários, na sua maioria de causas humanas e de histórias de pessoas de países subdesenvolvidos, como é o caso do “Manuel”; a entrada era completamente fechada ao público, e restrita apenas a convidados (para além destes milionários chineses, havia também altas personalidades do cinema europeu e mundial, como Jean Claude Carrière (vencedor de 2 Óscares); outros com produtoras que financiam filmes de Tarantino, Spileberg, e outros que tais; agências de aquisição de direitos de exibição de filmes, e tudo o mais que possam imaginar, e ainda um pouco mais). Curiosamente eu era o único português, e quando me perguntavam “where are you from?“, notava-se um grande espanto nas suas caras, aquando da minha resposta, que parecia dizer “que raio faz aqui um português?”, mas o que eles me diziam era outra coisa: “so you live in Portugal?” – “Yes!” – “Oh, Lisbon?” – “No, Leiria…“, e por eles a conversa acabava, mas eu era mais chato, e já que ali estava, aproveitava para os conhecer e me dar a conhecer, a mim e à cidade que “fica a pouco mais de 100km de Lisboa”, apenas para os localizar no mapa. Do cinema português, nem uma única referência, excepção feita a Pierre Henri Deleau, que tinha trabalhado com Manoel de Oliveira e Paulo Branco, por isso naturalmente estava mais familiarizado com o nosso cinema. De resto, as únicas referências que tinha quando falava de Portugal, era um que conhecia o Duarte de Bragança, outro que conhecia o antigo governador de Macau, e outro que tinha filmado no Brasil.

Quando lhes dizia que tinha filmado o “Manuel” em São Tomé e Príncipe, muitos deles nem conheciam a “cidade”. Pois é natural, São Tomé e Príncipe é um país.
Dos 38 filmes exibidos no festival, o “Manuel” era o único falado em língua portuguesa, a grande maioria dos restantes filmes era falado em inglês, francês, espanhol, mandarim ou indiano. No festival, as pessoas falavam mandarim, alemão, francês, e um pouco de inglês; consegui encontrar duas ou três pessoas, que diziam algumas palavras de “portunhol”, mas rapidamente a conversa retomava ao inglês.
Um dia uma chinesa veio ter comigo, e disse-me que queria comprar o “Manuel” só porque estava em exibição no festival, eu com toda a minha ingenuidade e completamente desprevenido para estas situações, mostrei-lhe o filme no telemóvel, e mesmo assim, ela ficou bastante interessada. Não sei ainda que rumo vai ter esta história, mas também não interessa, aqui a questão é perceber que afinal um filme de 7 minutos tem mercado, e pode ser vendido facilmente para o mercado chinês, porque na pior das hipóteses, deverá ter uma audiência de 100 milhões de espectadores (dados que assisti num seminário durante o festival).

Mas voltemos ao festival, e a toda aquela realidade que nunca imaginei existir. Pensava mesmo que não existia, mesmo que me contassem; mas é preciso estar lá e presenciá-la, para acreditar.
Ouvi muitos convidados dizer que o festival estava melhor que Cannes, Austin, Veneza ou Berlim; um círculo muito mais fechado de convidados e em que todos se podiam conhecer, beber, comer e fazer negócios. Mas melhor em quê? Ora em aparência e glamour, pois claro! Sim, aparência e glamour parecem ser os únicos parâmetros de avaliação para estas pessoas. Mas deixem-me contar-vos um coisa, o nosso querido LeiriaFilmFest, fica bastante acima, se optarmos por outros parâmetros de comparação, que não estes.
É claro que gostei de ficar instalado no Steigenberger Hof (façam um pequena pesquisa no google), gostei dos almoços e jantares buffet, das festas asiáticas, dos cocktails, do táxi sempre pronto, e principalmente de estabelecer contactos com algumas desta pessoas; mas parece-me que tudo isto deveria ser acessório e não essencial.

Fazendo um resumo deste meu, já longo, pequeno desabafo: estão a ver quando se ganha um prémio ou se é seleccionado para um festival e recebemos dezenas de mensagens no facebook e centenas de likes?! Isso são os Golden Tree Awards. Quando partilhamos o filme em causa e apenas recebemos meia dúzia de likes, isso é o LeiriaFilmFest, ou um outro festival feito com amor e paixão.

Aqui fica a curta-metragem “Manuel”:

Texto de Bruno Carnide

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