Um caso de amor chamado Sophia de Mello Breyner

6 NOVEMBRO, 2017 -

Apresentaram-me a Sophia em criança, no local onde segundo ela tudo deve começar, na escola. Dizia ela, em 1974, numa entrevista à Emissora Nacional, que começou a escrever livros infantis porque as crianças ainda não estavam divididas em “castas culturais”. Uma história infantil seria sempre uma história infantil, quer para o filho do operário, quer para o filho do professor universitário. Na escola, apresentaram a “Menina do Mar”, e que criança ficaria indiferente quando, por fim, alguém (fora de si mesmo) entende que “as coisas da terra são esquisitas, que há tristeza dentro das coisas bonitas“. Uma criança não esquece, especialmente quando aprende o significado da palavra mais portuguesa de todas as palavras portuguesas – saudade, que é essa “tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora“.

Se ela não tivesse escrito a “Menina do Mar”, teria demorado mais tempo a encontrá-la, mas gosto de pensar que esse encontro seria inevitável. Com ela, e por causa dela, a criança que fui ensinou à mulher que sou a gostar de poesia, a perceber que os poemas são “como que um elemento do natural, de que fazer versos é estar atento e o poeta é um escutador“.

Há, em Sophia, uma busca pela justiça, “porque os outros se calam mas tu não“, pela “paz sem vencedor e sem vencidos“, pela igualdade, onde “ganharás o pão com o suor do teu rosto e não com o suor dos outros“. Eis uma humildade de entendimento do que é importante, e uma falta de auto-importância que desarma. Para ela, “cultura não é só saber, não é só erudição, é uma educação do homem para a consciência“. Para a consciência de si, dos outros, do que o rodeia, aí reside toda a poesia e o conhecimento do que é a vida.

Há em Sophia, uma simplicidade para as coisas belas, e talvez por isso lhe aconteçam os poemas, porque sabe ouvir e ver a beleza, que considera “necessária ao homem, não é um luxo, não é um ornamento, é para estar na rua e na casa de cada um“. A mulher, para quem os poemas eram “palavras encantatórias”, ouve sobretudo silêncios, vindos da mar, o seu tema preferido, “onde me busquei no vento e me encontrei no mar“. Sempre o mar, como ponto de procura e encontro, de desabafo quando “odiei o que era fácil, procurei-te na luz, no mar e no vento“.

Com Sophia aprendi sobre as utilidades da poesia, para “preservar de decadência e ruína o instante real de aparição e surpresa“, para nos proteger da podridão do mundo, e preservar-nos os sonhos, quando a “força dos meus sonhos é tão forte que de tudo renasce exaltado e nunca as minhas mãos ficam vazias“.

Sophia é Amor. Avisa-nos de que o mundo é um lugar frágil para viver o amor, onde o “mal de te amar neste mundo de imperfeição onde tudo nos quebra e emudece, nos mente e separa“, mas, mesmo doendo, o amor é a prova de que “cada instante em mim foi vivo“; e só através dele, e com ele, se pode viver em “pleno vento”. Avisa-nos, ainda, de que o tempo perdido por nós, jamais regressa e que “cada dia te é dado uma só vez, não existe piedade para aquele que hesita“.

Sophia é uma prece, para “que nenhuma estrela queima o teu perfil; que nenhum Deus se lembre do teu nome; que nem o vento passe por onde tu passas“, que sussurramos ao ouvido daqueles que amamos, para afastá-los das trevas, e aproximá-los da luz.

Sophia ensina a ouvir, ensina a procurar pelo que é simples, claro e pelo extraordinário no vulgar, pela “beleza intensa e nua do que é frugal; pela claridade daquilo que é necessário, pela vida limpa de todo o luxo e de todo o lixo“.

Gostar de poesia é gostar de Sophia, é gostar da vida, é ousar “aventura a mais incrível – viver a inteireza do possível“.

Crónica de: Catarina Fernandes
Fotografia de António Pedro Ferreira

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