Um casamento na Moldávia

23 FEVEREIRO, 2017 -

Ainda se lembram do Verão? Eu praticamente já não me lembro. Mas há experiências que nunca se esquecem e que ficam indelevelmente associadas ao período em que as fazemos. Como tal, este meu Verão passado ficou marcado por ter ido a um casamento na Moldávia. Vamos começar pelo início.

Na minha terra natal, na altura do meu ensino secundário, tornei-me amigo de uma rapariga moldava, cujos pais tinham emigrado para Portugal. Foram dois anos cheios de histórias que, por si, dariam mais uma crónica. Separámo-nos ao fim desses dois anos, mas ficou a amizade e a promessa. “Quando eu casar, vou convidar-vos para o meu casamento”.

Bem dito, bem feito. No final de Agosto (após umas desventuras que também dariam mais uma crónica) estava eu a aterrar no aeroporto de Chisinau, a capital de um dos países menos visitados do mundo por turistas.

Com um clima de extremos, uma topografia pouco acidentada e paisagens compostas por prados verdes e amarelos, quase se assemelha ao Alentejo. Um outro ponto de comparação é a cultura vinícola, ainda pouco difundida mundialmente, mas com imenso potencial para tal. Na Moldávia encontramos a maior adega do mundo, que se estende ao longo de 200 km de corredores subterrâneos e contém quase dois milhões de garrafas de vinho. Sendo um país relativamente recente, surgido com a dissolução da URSS, ainda está a construir a sua identidade. Na capital vêem-se traços de arquitectura imperialista misturados com edifícios modernos, vêem-se típicas igrejas ortodoxas, parques verdejantes e estradas em péssimo estado, mas a sofrer remodelações. Mais uma crónica poderia ser escrita para descrever a Moldávia, para além deste pequeno interlúdio (estou inspirado, hoje).

Mas vamos ao propósito da crónica. Domingo é o dia esperado, sendo o culminar de um preâmbulo que já vem durando há meses, incluindo muitas preparações e até uma pré-cerimónia religiosa. Esta é, no entanto, a data oficial.

O dia começa com a recepção dos convidados dos noivos na casa dos pais da noiva. Há uma mesa com comes e bebes, balões e flores. O noivo chega e é recebido pelos irmãos da noiva, que não o deixam entrar. Ele tem de lhes dar algo em troca para o poderem deixar desposar a sua irmã. É um teatro engraçado, que resulta numa oferenda do noivo aos irmãos, normalmente monetária. Nada mau!

Fazem-se brindes e tiram-se fotografias; toda a gente está feliz. No meio da comoção efusiva do grupo, perscruto a comoção comedida do avô da noiva, que observa a cena de longe, com um sorriso tímido e uma lágrima no canto do olho. Eu próprio me comovi.

Uma pequena frota de Mercedes chega para levar os convidados dos noivos para as sessões fotográficas que se seguirão. Somos acompanhados de perto por uma equipa de três elementos, dedicada a captar todas as fotografias e vídeos que consigam, para tal recorrendo a uma condução do estilo ‘Velocidade Furiosa’. Nada de novo para mim, que já estava familiarizado com o estilo de condução moldavo. Em apenas dois dias, havia visto mais carros a passar sinais vermelhos que no resto da minha vida.

Chegamos a Poiana Bradului, um hotel que possui algumas cabanas situadas na floresta e um lago com cisnes, um espaço extremamente agradável para se estar no Verão e, como pude comprovar, para fazer sessões fotográficas para casamentos. A equipa fotográfica saca de mais um dos seus trunfos – um drone – e eu fico, mais uma vez, pasmado. O dia é dos noivos; como tal, o foco das câmaras incide apenas sobre eles e os convidados ficam a conversar um pouco, e eu acabo por privar com alguns moldavos que opinam relativamente ao país, com o seu parco inglês. Parecem gostar e ter orgulho no seu país e na sua cultura, nomeadamente na comida, no vinho e na língua, mas consideram o custo de vida caro.

Um pequeno aparte: pessoas que venham de fora da Moldávia provavelmente ficarão estupefactas com o facto de almoçar por três euros, apanhar expressos por 85 cêntimos e autocarros por dois cêntimos, beber uma cerveja de meio litro por 65 cêntimos, entre outras situações. Nesse grupo, encontro-me incluído. Tal foi o meu espanto quando troquei os meus 60 euros por 1260 lei, a moeda do país. No entanto, para quem vive no país, as condições podem não ser as ideais, dado que a Moldávia ainda é a nação mais pobre da Europa e o salário médio ronda os 210 euros.

As sessões fotográficas são extensas e, como tal, somos levados para o edifício mais soviético que alguma vez vi na vida, que alberga um estúdio fotográfico onde se realizam sessões temáticas. Eu tive o privilégio de figurar numas dessas fotos, que envolveram mais poses do que aquelas com que me sinto confortável.

Por fim, somos levados para o local do copo-de-água. À chegada, os noivos vão para debaixo de um arco matrimonial, onde recebem oficialmente os seus próprios convidados, que lhes devem desejar felicidades para o futuro em conjunto e fazer uma pequena oferenda. À medida que os convidados caminham pela passadeira até aos noivos, são apresentados por uma verdadeira apresentadora, armada com um microfone e contratada para esse propósito. Na minha vez, consegui discernir “Portugalia”, por isso aceno e sorrio. O meu romeno não dá para muito mais.

Começa-se a servir alguma fruta fresca e um rol de bebidas, nas quais se inclui um conhaque moldavo. Muito bom, por sinal.

Entretanto chegam os convidados dos pais da noiva, que vêm num autocarro alugado pelos mesmos. Repete-se a recepção por parte dos noivos, repleta de felicidade e carinho. De seguida, chegam os convidados dos pais do noivo. E depois os convidados da parte dos padrinhos. Pelo que pude aferir, casamentos pequenos são coisas que não existem por aquelas bandas.

Uma boa parte dos convidados do casamento é composta por emigrantes que regressaram a casa para as férias. Uns quantos deles já haviam estado – ou estão – a viver em Portugal, sabiam falar português e alguns até conheciam os meus pais. Como o mundo é pequeno! A alegria do encontro é pontuada por alguma melancolia da minha parte, ao ver tanta gente arrancada da sua terra, as suas casas vazias durante grande parte do ano, aquela felicidade amarga de quem sabe que daqui a uns dias terá de regressar à sua segunda casa, a saudade.

Mas hoje é dia de festa, animada por um verdadeiro rol de figurantes, no qual se inclui um grupo de dançarinos vestidos com trajes típicos, e que dançam à moda moldava, de mãos dadas e em roda, ao som da música tocada pela banda de casamento mais dedicada que alguma vez vi. É uma verdadeira festa de final de Verão, e toda a gente se junta à animação.

O jantar é servido numa sala de eventos lindíssima, com o apoio dos empregados de mesa mais eficazes que tive o prazer de conhecer. O meu copo nunca esteve vazio e os caroços de azeitona ou talos de tomate que deixasse no prato desapareciam num instante. A comida foi familiar, incluindo maioritariamente travessas recheadas de misturas de salgados, doces e frutos secos: presunto, uvas, nozes, alperces desidratados, toranja, fatias de lombo assado frio, uma espécie de tarte com camadas de fiambre e queijo. Encontrei ainda saladas frias: fiambre e queijo com um molho que assumi ser maionese, atum com pimentos assados, entre outras. Mas o coup de grâce é um dos pratos mais tradicionais do país, chamado racituri, que essencialmente se prepara cozendo uma galinha num caldo saborosíssimo e deixando-a arrefecer posteriormente. A gordura solidifica e transforma-se numa espécie de gelatina, que é comida, juntamente com a carne. Provavelmente estão a fazer um esgar de nojo. Carinhosamente, chamo ao racituri ‘gelatina de canja’, e garanto-vos que, apesar de estranho, é delicioso.

A partir daí, a festa dura até altas horas da noite, com muita comida, bebida e dança, com canções que intercalam hits internacionais e moldavos, e canções típicas do país. A coreografia é quase sempre a tradicional, e é divertidíssimo fazer parte de uma roda dançante de 60 pessoas ou mais!

A simpatia abunda e, apesar das barreiras linguísticas, não há barreira para as relações humanas. Um senhor aborda-me e, em romeno, diz-me que toda a gente devia ter um amigo como eu e que acha muito bonito ter vindo de tão longe para o casamento. Menciono isto não para me dar palmadinhas nas costas, mas para salientar o valor da amizade e a importância que esta festa tem para o povo moldavo. Mais um momento de comoção.

O conhaque moldavo faz das suas e, a partir de uma certa altura, as memórias fundem-se umas com as outras, mas ao fim deste tempo, mantêm-se banhadas numa aura de extrema satisfação. Por mais que escreva, não há como conjurar exactamente o ambiente que se experiencia num casamento moldavo, pois as palavras são-nos familiares, mas as sensações são intransmissíveis. Deixo aqui as palavras, o resto fica a cargo da imaginação.

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