Tupac: no princípio era o verbo, o ícone veio depois

21 JUNHO, 2017 -

Esteve para o rap dos anos 90 como Kurt Cobain para o rock. Ícone das ruas, viveu tudo entre a arte e a guerra em apenas 25 anos.

Quando Tupac Shakur foi alvejado a caminho de uma saída à noite, após uma rixa num hotel-casino, ainda estava a dois anos de entrar para o clube dos 27. Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Amy Winehouse, e porque não ele? Sempre que se fala de iconografia pop, de vozes geracionais maiores que a vida, ainda nem todos os artigos ou enciclopédias pop conservadoras da memória – instrumento essencial para explicar quem somos e de onde vimos – se lembram dele.

Razões? Durante décadas, o hip hop não foi levado a sério pelo mundo do pensamento. Só o que tempo deu-lhe uma expressão tão ruidosa nas ruas e entre gerações nascentes que os pensadores foram obrigados a olhá-lo como um fenómeno não só musical como com fortes implicações sociais – para muitos, o novo rock’n’roll pela capacidade de gerar energia e por seguir o real nas suas mais variadas formas, desde a combatividade política à iconografia visual.

Shakur foi tudo isso e muito mais. Quando o vice-presidente da administração George Bush, Dan Quayle, o criticou por inspirar novas gerações a reproduzir os atos relatados nas rimas, a mãe e ativista dos Panteras Negras, Afeni Shakur (descendente do mártir “Geronimo” dos Panteras Negras), alertou-o. “Eles vão dar-te todas as ferramentas para te autodestruíres.” E não se enganou. A fama não veio sem proveito. E a fatura foi cara. Tupac conquistou o estatuto de megafone de um povo sem voz a disparar rimas em vez de balas. Quando o jogo se descontrolou e o territorialismo passou a dominar a ação, arrastou o lado negro da fama, apesar de tudo compreensível na afirmação de uma geração de rappers criada com pouco e que, pela primeira vez, se viu de Rolex no pulso, a guiar um Rolls-Royce e a ser o tipo mais bonito do bairro.

Dos 0 aos 100 num ápice, Shakur foi, como nenhum outro, o Cristo do rap. Descendente de uma família problemática, não conheceu o pai, viu “manos” serem espancados pela polícia, o padrasto ser perseguido e a mãe cair nas teias do ilícito. Sacrificado numa adolescência em fuga, foi obrigado a trabalhar para sobreviver, mas o talento sobrava-lhe para ter feito tudo o que fez por gosto. Herdou de Malcolm X princípios e valores, mas foi fortemente influenciado por Shakespeare. Como agitador de palco, percorreu milhas com os Digital Underground até chegar a hora de se emancipar.

No xadrez da vida, foi rei no palco e fora dele. Foi cortejado, teve as mulheres que quis e fumou. Muito. Tudo isso está nos versos. Ou devemos chamar-lhes barras pesadas? Nos seus escritos encontramos cartas de amor e declarações de guerra. Foi acusado de objetificar o sexo feminino e de violação, mas a sedução na forma mais poética e charmosa é omnipresente. Talvez inspirado pela luta da mãe pela sobrevivência. Em 1971, Afeni Shakur estava grávida de Tupac quando foi detida por alegada conspiração bombista do grupo Panteras 21 em Nova Iorque. Na justiça, não venceu só o caso. Derrotou um sistema opressor das minorias. E prometeu um mundo melhor para o rebento.

Afeni sobreviveu à acusação. Tupac resistiu a um primeiro baleamento. A uma prisão de alta segurança. E à traição à lealdade. Notorious B.I.G., de quem fora cúmplice na afirmação, queria ser maior. E daí nasceu uma rivalidade geográfica entre Costa Este e Oeste, com custos de vida demasiado altos para serem sustentados. Tupac sempre quis usar o voto popular em prol das comunidades, do espírito associativo e da comunhão. Ator pela vida fora, e músico com ouvidos além do rap, era dotado de teatralidade e energia que fortaleceram o ícone – musical e visual, já que, em paredes e murais de todo o mundo, o seu rosto está pintado; em camisolas oficiais ou contrafeitas, estampado.

Tupac pavimentou como nenhum outro a estrada do rap até à cultura pop. Vendeu milhões, conquistou discos de platina, fundou uma editora, mas não a tempo de viver um tempo em que o hip hop é a cultura mais influente. Talvez o seu desígnio de construir pontes fosse apenas o de contribuir para uma sociedade mais inclusiva e igualitária mas, como sempre acontece nestes casos, o mito tomou conta do homem. Tupac foi deus, mas a vida nunca o deixaria ser santo. E tudo isto em apenas 25 anos.

Artigo escrito por Davide Pinheiro, publicado no nosso parceiro Jornal SOL

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