Trump S.A.

7 JUNHO, 2017 -

Ao escolher a Arábia Saudita como primeiro destino da sua visita, Trump incrementou de forma significativa as exportações do complexo industrial militar americano.

Donald Trump fez a sua primeira viagem oficial fora dos Estados Unidos, não como um homem de Estado, mas como um homem de negócios. Se prosseguir a estratégia, estou convicto de que serão os “maus negócios” a mobilizar a sociedade civil americana para gerar uma oposição crescente às suas políticas, como as fortes reações à denúncia do Acordo de Paris já indiciam.

Ao escolher a Arábia Saudita como primeiro destino da sua visita, Trump incrementou de forma significativa as exportações do complexo industrial militar americano, mas introduziu fatores graves de desequilíbrio regional, designadamente pelos sinais dados aos moderados no Irão que, se não forem corrigidos, custarão muito caro aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e à paz no mundo.

Em Israel, Trump aterrou enfraquecido pela “conexão russa” e pela desconfiança expressa dos velhos aliados. Essa penumbra cobriu toda a visita e gerou efeitos colaterais que podem ter impacto nas eleições de amanhã no Reino Unido.
A visita ao Vaticano e o encontro com o Papa Francisco foram os momentos mais consensuais da visita, com o foco no protocolo e nas expressões de sentimentos, abrindo uma nesga de sol antes de novos temporais na cimeira da NATO e no G7, em que a postura de Trump conseguiu a proeza de conciliar contra ele parcerias ainda há muito pouco tempo inimagináveis.

A União Europeia, para ter voz ativa nas decisões da NATO, tem de ter também um papel relevante no financiamento das suas atividades. Essa evidência e esse compromisso são anteriores a esta administração. O estilo de cobrança de Trump teve o condão de unir os europeus para um acerto de contas com mais parcelas em que, por exemplo, os esforços de cooperação e de ajuda ao desenvolvimento também entrem na contabilidade.

Não foi por acaso que o regresso de Trump aos Estados Unidos ficou marcado pelo anúncio da denúncia do Acordo de Paris e também não foi por acaso que os outros parceiros globais responderam a esse anúncio com voz grossa. É que deixar o Acordo de Paris significa para a economia americana um enorme retrocesso potencial, perdendo a pista da transição energética, da mobilidade inteligente e da organização sustentável – uma pista em que a China investe cada vez mais, retirando cada vez mais valor e riqueza.

Uma pista em que a UE também corre destacada e na qual tem agora uma escolha determinante. Ou se une e mobiliza para aproveitar o tropeção de Trump ou se deixa arrastar por esse tropeção e perde uma oportunidade-chave de viragem.
A saída dos EUA do Acordo de Paris é má para o mundo e um péssimo negócio para os americanos. O homem de negócios que escolheram para presidir aos seus destinos parece estar a falhar naquilo que é a sua especialidade.
George Schultz, secretário do Tesouro e de Estado de Nixon e Reagan, considerou no “New York Times” que será grande para a América o dano diplomático e económico da denúncia do Acordo de Paris.

Esperemos que Trump recue ou, então, que a União Europeia, as outras potências globais e a sociedade civil americana estejam à altura de preencher a ferida aberta, para que, citando Macron, “o planeta seja grande de novo”.

Crónica escrita pelo eurodeputado Carlos Zorrinho, publicada no nosso parceiro Jornal SOL

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