Traduzir obra lírica de Bob Dylan tranformou-se em ‘obsessão forçada’

8 DEZEMBRO, 2016 -

Admirador de Bob Dylan desde os 13 anos, o médico Pedro Serrano tornou-se aos 53 tradutor do agora Nobel da Literatura, algo que viu como “transcendental” e que transformou numa “obsessão forçada

Em entrevista à Lusa após o anúncio da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, o médico do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e da Fundação Gulbenkian recordou como em 2005 o editor da Relógio d’Agua lhe propôs traduzir a obra lírica de Bob Dylan, com cerca de 400 canções.

Embora já tivesse recusado traduzir obras de outros músicos, o nome de Bob Dylan fê-lo considerar.

É uma aproximação a uma espécie de Deus ou a um mito da adolescência, uma espécie de ligação ao sagrado“, lembrou.

Perante o desafio, e consciente da dimensão e da dificuldade de traduzir as 600 páginas do livro original, Pedro Serrano apresentou uma contraproposta: faria a tradução, mas a meias, com a amiga Angelina Barbosa, especializada em literatura anglo-saxónica e de quem conhecia “a capacidade de trabalho e a obstinação pelo pormenor“.

Embora Dylan não lhe fosse estranho e já tivesse um fascínio pelo seu mundo musical, o tradutor embarcou numa jornada que se transformou numa espécie de “obsessão forçada“.

Comprou toda a discografia, encomendou livros de e sobre Dylan, embrenhou-se nos sites – há 500 mil páginas online com referências a Dylan – e dedicou-se a compreender o contexto geral e pessoal que permitisse compreender melhor as letras de cada uma das músicas.

O Bob Dylan, tal como é como pessoa, tem umas letras enigmáticas, nunca se sabe muito bem o que é que aquilo quer dizer ou a que é que ele se está a referir. Estudando a época, a vida dele e as musas (…) consegue-se que algumas decisões sobre palavras na tradução vão num sentido e não noutro“.

Durante dois anos e meio, recordou, a tradução tornou-se uma espécie de maldição, que tomava todas as horas livres dos dois tradutores.

Ainda tenho lá em casa os dossiês com os emails que imprimi, a troca de emails com a Angelina Barbosa. (…) Essa correspondência ocupa dois dossiês A4 cheios de mails e de coisas que íamos trocando“, lembrou.

A tradução de uma única canção, recordou, podia demorar três horas ou andar ou podia levar uma semana de trabalho. Tudo dependia da dificuldade.

Por vezes, quando havia dúvidas, os tradutores pediam ajuda a especialistas, um dos quais, Christopher Rollason, um inglês que vive em França e é um conhecido especialista da obra de Bob Dylan, acabou por ajudar em vários momentos e no final fez um elogio à tradução portuguesa.

No final, e após concluir os dois volumes de Canções, uma edição bilingue com cerca de 1.500 páginas, Pedro Serrano tornou-se “um bocadinho especialista à força” em Bob Dylan.

Conheço bastante sobre ele ou, pelo menos, sobre o aspeto superficial dele. Ele é uma pessoa enigmática“.

Pedro Serrano não se surpreendeu quando Dylan não atendeu as chamadas do comité Nobel a anunciar a atribuição do prémio ou quando deixou em aberto a incógnita sobre se estaria ou não na cerimónia de entrega.

Para o tradutor, as críticas à atitude do músico neste episódio mostram apenas desconhecimento sobre Bob Dylan.

Ele faz sempre o contrário do que esperamos que ele faça“, recordou Pedro Serrano, exemplificando que quando o público esperava um Dylan acústico ele aparecia elétrico e quando o mundo o via como cantor de intervenção ele aparecia romântico ou religioso.

Se a gente olhar para o Bob Dylan e para o seu comportamento, ele foi sempre assim desde os 20 anos. Nunca se sabe o que é que ele vai fazer a seguir e ele frustra sempre as expetativas das pessoas que estão a espera de alguma coisa“, afirmou.

Personagem “enigmático e muito construído“, Dylan “foge deliberadamente a revelar-se“, e isto “assume às vezes aspetos que parecem antipatia“, disse Pedro Serrano.

Para o médico, que gostava de ter sido músico, conhecer melhor Dylan não contribuiu para aumentar a sua admiração pelo músico.

Se por um lado o surpreendeu alguma irregularidade na qualidade da sua poesia – que na sua opinião tem coisas boas e outras medíocres -, Pedro Serrano admitiu que o impressionou um certo “azedume em questões que se percebe que foram relações pessoais dele e ele queixa-se amargamente do assunto“.

Texto de Lusa

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