‘Thor: Ragnarok’, Taika Waititi reinventou os pré-fabricados da Marvel

2 NOVEMBRO, 2017 -

Taika Waititi pode ser desconhecido para boa parte do público, mas os filmes Hunt For The Wilderpeople  e sobretudo, o mocumentário What We Do In The Shadows que satiriza, por assim dizer, os filmes sobre vampiros (ficcionando o seu modo de vida), geraram um pouco habitual mas merecido buzz vindo de terras neozelandesas. Era por isso expectável que quem conhecesse parte do trabalho de Waititi antecipasse algo que fugisse ao convencional filme de super-heróis da Marvel que seguem, sem grande espaço para invenções, uma linha narrativa repetitiva há demasiados títulos atrás. Acertaram.

Os filmes da saga Guardians of the Galaxy, apesar de estarem inseridos no mesmo contexto temporal dos restantes, optaram – e bem – por um estilo próprio, refrescante, e isso vale-lhe o sucesso de bilheteira e de crítica reconhecido. No entanto, por isso mesmo, é um elemento estranho, é aquele tio divertido e meio louco que anima os sorumbáticos jantares de família, por assim dizer. Nesse âmbito, também este disruptivo Thor: Ragnarok se aproxima mais de Guardians of the Galaxy que de qualquer outro filme da Marvel.

Os paralelismos não se ficam por aqui. Também parte da estética e o (excelente) uso da banda sonora são pontos fortes reconhecidos em Guardians. Neste filme de Thor, as cores vivas e os sons techno anos 80 são influências vindas directamente de Flash Gordon onde Waititi admitiu ter retirado muita da sua inspiração.

Quando o filme começa com Thor a quebrar a quarta parede e a derrotar Surtur e o seu exército ao som da Immigrant Song dos Led Zeppelin, cedo passamos a saber minimamente o que esperar, mas este novo Thor vai ter capacidade para surpreender ao longo de toda a sua duração. Primazia para o humor e entretenimento puro em cenas de pancadaria já habituais mas de roupagem actualizada e acompanhamento musical a condizer. Longe vão os tempos de monotonia e luto imaginativo.

Outra das conquistas de Waititi é a forma como habilmente introduz outros personagens importantes ao longo da história como Doctor Strange ou Hulk, o sidekick perfeito para este Thor que com ele proporcionará momentos de hilariantes, sobretudo toda uma sequência passada nos aposentos de Hulk (longe da versão atormentada e desta vez mais em bipolaridade excesso de confiança/terra-a-terra), campeão invicto num planeta liderado pelo excêntrico Grandmaster, interpretado por Jeff Godlblum (admitamos, Jeff Godlblum já merecia controlar um planeta).

Ao lado de Hulk, o seu irmão Loki (Tom Hiddleston numa versão também ela mais descontraída e bem humorada que nos anteriores filmes) e Valkyrie (Tessa Thompson) os quatro juntam-se para tentar derrotar a vilã mais forte até à data, Hela (interpretada por Cate Blanchett). Não nos podemos também esquecer de Heimdall (Idris Elba) e Korg, um personagem a quem o próprio Taika Waititi dará voz, mostrando mais uma vez (após What We Do In The Shadows) ter um excelente timing humorístico e uma voz característica que até com um singelo “hey man!” é capaz de despertar gargalhadas (e não nos esqueçamos de Miek, o seu fiel companheiro em ecrã).

Apesar de um excelente filme de entretenimento, este novo Thor não é a perfeição que se parece querer vender. O uso do humor resulta até onde não vai o seu exagero, e a quantidade de piadas forçadas e em excesso só o desvaloriza, desgastando-o e desgantando-nos. As personagens femininas, são, infelizmente demasiado unidimensionais sentindo-se que Valkyrie tem muito mais background psicológico do que aquele que é efectivamente demonstrado, muito por culpa de Tessa Thompson ser uma excelente actriz. Quem também se poderá queixar é Cate Blanchett, que não terá culpa pela forma bruta como é introduzida na história, nem pelo seu penteado que virá capacete de guerra (uma excentricidade mal concretizada em ecrã). Um desperdício de actriz para o papel em questão. Além disto, a história é tão recortada que mais parece que assistimos a uma sequência de clips ou sketches humorísticos, desfasados e sem fio sequencial entre si. As etapas estão todas lá, a ordem das coisas também, mas falta ligação nas mesmas.

Tirando isto, Thor: Ragnarok tem o que lhe era exigível: boas cenas de acção, humor, boa música, bons actores e referências que nos fazem soltar um bom riso. Depois de The Dark World, já fazia falta à saga Thor que este soubesse rir-se de si mesmo (prova disso é a piada sobre ter sido “surfista” no filme The Incredible Hulk Returns, de 1988). Graças a Taika Waititi, não só isso aconteceu, como há legítimas esperanças que este filme possa ser um ponto de viragem na fábrica Marvel. Assim esperemos que aconteça. Imaginem Thor com cabelo cortado remixado com Stranger Things, Kung Fury, Flash Gordon e uma pitada ou outra de He-Man. O resultado final é Thor: Ragnarok.

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