‘The Young Pope’: um Papa (bem) à medida dos tempos que correm

2 FEVEREIRO, 2017 -

De Paolo Sorrentino, realizador de Youth e do belíssimo filme vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014, La Grande Bellezza, chega-nos este original para televisão, de seu título The Young Pope.

Se o nome escolhido e o seu criador não bastassem para aguçar a curiosidade dos mais exigentes no que à novíssima série concerne, a presença de Jude Law e Diane Keaton no elenco certamente que cumprirá tal propósito.

Se só o título já permite adivinhar algo distinto do regimental modo de funcionamento da Igreja e do Colégio dos Cardeais, o Papa Pio XIII, ou Lenny Belardo (ex-arcebispo de Nova Iorque), representado por Jude Law encarna essa contradição na sua plenitude: nesta ficção, o Sumo Pontífice é o primeiro Papa norte-americano da história da Igreja Católica, e por sinal, um dos mais novos.

Nos primeiros segundos vemos Pio XIII gatinhar, tentando libertar-se de uma pilha imensa de corpos de bebés. A cena inaugural é ilustrativa do que se vê pelos restantes dez episódios: para além do choque ocasional, a fotografia da série é arrebatadora, de uma monumentalidade indescritível e, porventura, das melhores que já viu no “pequeno ecrã”.

Inédito mesmo é assistirmos a um Papa que – no seu âmago – questiona a existência de Deus, talvez por ter sido abandonado pelos pais, ainda novo. Mas desengane-se quem julga que The Young Pope se debruça (só) pelos meandros da religião e suas vicissitudes: esta (também) é uma história sobre um ser humano profundamente confuso, quase contraditório, e em crise de fé. E sobre poder, sobretudo poder.

A forma como Lenny chega a Papa não é clara, e leva-nos a indagar se lá está por jogos políticos ou por indicação divina. O que é certo, e óbvio, é que se observa um Papa irreverente, manifestamente contra o modus operandi do seu antecessor e decidido a devolver à Igreja Católica a proeminência e o poder de outrora.
E, embora o seu fim seja sincero, os meios para o alcançar pautam por sinuosos: com a convicção profunda de que a re-emancipação da Igreja só se daria caso esta se voltasse a embeber em mistério, Pio XXIII recusa exibir-se em público, anula qualquer estratégia de propaganda/publicidade e não arreda pé do Vaticano, recusando visitas de Estado.

Porém, o que fica na retina é um Papa ambíguo: por um lado, submerso em dúvidas e capaz de movimentações horrendas e das demonstrações de força mais brutais; por outro, capaz dos milagres mais inesperados e de gestos de bondade embebidos na mais pura ternura. Impagáveis são mesmo os planos em que Pio XIII nos surge vestido a rigor, embora com rasgos de modernismo: não são raras as vezes em que passeia pelo jardim, com o solidéu à cabeça e os Ray-Ban Aviator no rosto, aspirando o fumo do seu cigarro, qual estrela de cinema.

Duas notas adicionais: Silvio Orlando que interpreta (e tão bem) o Secretário de Estado do Vaticano (Cardinal Voiello) e a banda sonora, que se primeiro soa estranha, se vai entranhando com o evoluir dos episódios, e que talvez tenha o seu ponto alto quando, a dada altura, “Sexy and I Know It” soa enquanto o Sumo Pontífice se veste.

Como já referido, a fotografia da série pauta por inenarrável, mas para isso também contribui – e muito – a atuação de Jude Law: é que para além das vestes (que são todas bordadas à mão, tendo levado meses a conceber) há toda uma atitude avant-garde em Pio XIII: os gestos, os olhares, o caminhar, a pausa e o silêncio.

Por isso, e se The Young Pope por vezes nos entedia por falta de um fio condutor mais sólido, compensa-nos em larga medida pelos momentos de rara beleza com que nos presenteia. É uma série para televisão que bem podia ser uma obra de arte.

Aqui fica a intro de The Young Pope:

Texto de Samuel Pinho

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