‘The Sellout’, de Paul Beatty, vence o Man Booker Prize Award

26 OUTUBRO, 2016 -

O vencedor do Man Booker Prize Award 2016 foi anunciado e atribuído a Paul Beatty, o primeiro escritor americano a vencer o prémio, pelo romance The Sellout. Começa assim:

“This may be hard to believe, coming from a black man, but I’ve never stolen anything. Never cheated on my taxes or at cards. Never snuck into the movies or failed to give back the extra change to a drugstore cashier indifferent to the ways of mercantilism and minimum-wage expectations. I’ve never burgled a house. Held up a liquor store. Never boarded a crowded bus or subway car, sat in a seat reserved for the elderly, pulled out my gigantic penis and masturbated to satisfaction with a perverted, yet somehow crestfallen, look on my face. But here I am, in the cavernous chambers of the Supreme Court of the United States of America, my car illegally and somewhat ironically parked on Constitution Avenue, my hands cuffed and crossed behind my back, my right to remain silent long since waived and said goodbye to as I sit in a thickly padded chair that, much like this country, isn’t quite as comfortable as it looks.”

Sátira racial no seu máximo, o livro segue a personagem principal Me, que, vendo a sua terra natal de Dickens um “ghetto agrário”, apagada do mapa devido à gentrificação, decide reintroduzir a segregação racial (nomeadamente em autocarros e escolas) como forma de devolver um sentimento de comunidade e propósito às pessoas de Dickens. Ainda mais caricato, uma velha celebridade do bairro, Hominy – o último sobrevivente dos Little Rascals – obriga Me a aceitá-lo como escravo, apesar de este não o querer e das suas várias tentativas para o libertar.

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A explorar temáticas raciais e de segregação, que nos últimos anos têm tido maior projecção face ao trabalho de grupos como o Black Lives Matter, não há nada tão tremendamente engraçado quanto esta obra. E dá para percebê-lo, apenas por este resumo. Mas o incrível é mesmo como cada frase o consegue também ser, aparte da linha geral da narrativa, e como a isso se juntam referências que vão desde Tolstói ao Wu-Tang Clan. São diversas as vezes que nos desmanchamos a rir, e sabemos o quão constrangedor tal pode ser se tal acontecer em locais públicos. A certa altura a personagem principal está a tentar arranjar um motto para a comunidade negra e, sabendo ele latim, tenta traduzir todo o tipo de parvoíces que possam servir de motto, como:

“Act your age, not your shoe size … Factio vestri aevum, non vestri calceus amplitudo.”

ou então quando se queixa das suas origens:

“Sometimes I wish Darth Vader had been my father. I’d have been better off. I wouldn’t have a right hand, but I definitely wouldn’t have the burden of being black and constantly having to decide when and if I gave a shit about it. Plus, I’m left-handed.”

O livro não está ainda traduzido para português e não se sabe quando será editado em Portugal, mas, apesar do enorme trabalho que o tradutor terá pela frente dada a imensa complexidade, lírica, erudita, e ao mesmo tempo tremendamente afro-americana, do texto, esperemos que este prémio catapulte The Sellout para as livrarias portuguesas. Para a editora que o fizer, um conselho: não mudem a capa, esta é bem bonita.

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