‘The Reagan Show’: a esperança intergalática na humanidade

27 OUTUBRO, 2017 -

Apenas por delito de imaginação se vê em “The Reagan Show” um banquete de cinismo. O documentário estreia esta sexta-feira em Portugal, no DocLisboa. 

Um cínico diria do cinismo que nunca lhe faltará alimento. E esse cínico muito encontraria em “The Reagan Show” com que se alimentar. O documentário, realizado por Sierra Pettengill e Pacho Velez, paira muito de cima sobre a presidência telegénica e teleobsessiva de Ronald Reagan, de quem não se ouve uma palavra honesta que seja inspiradora ou uma inspiradora que pareça honesta. Não há narração para além da que é costurada com retalhos de gravações aparentemente íntimas, algumas da Casa Branca, outras de Reagan em viagem, jornalistas e comentadores. Esses mais sabedores – calmos e éticos, parece – que os de hoje.

Um cínico diria de outro cínico que, mesmo não havendo alimento, ele encontrará sempre o que comer. Não há guião em “The Reagan Show” e, deixadas assim abertas as portas do banquete, o mais fácil é ouvir no filme que esta sexta-feira estreia em Portugal – na Culturgest e no DocLisboa – uma berraria de comparações e hífenes. Reagan, o presidente-ator; EUA, o país-ator; norte-americanos, os pacientes-espectadores; Guerra-Fria, todos os mesmos, apenas representando; televisão, o crack da Alegoria da Caverna. Dá-se um passo na direção da tela e nela quase se lê, em projetadas letras garrafais: Donald Trump.

“The Reagan Show” não é um mergulho profundo nas águas da representação política. Muito menos é uma imagem cristalina da mão de Reagan nos Estados Unidos, na Guerra-Fria, ou até na relação com Mikhail Gorbachev – embora passe lá muitos dos seus melhores momentos. O documentário de Pettengill e Velez não parece ter ambições de profundidade. Por intenção ou acaso, assemelha-se mais a uma caminhada sonâmbula de trecho televisivo em trecho, nunca detalhando ou parando a fita, como nas emissões contínuas de noticiários ou no poço sem fundo das redes.

O documentário alimenta-se das dezenas de horas de gravações com que os assistentes de Reagan preparavam o projeto White House TV. Se John F. Kennedy deu os primeiros passos governando pela televisão – e lá morrendo também –, Reagan moveu-se nela como um velocista. No decorrer da sua presidência, gravou-se cinco vezes mais tempo de fita que o dos seus cinco antecessores juntos. Reagan não era estranho à tela, assim como o público de hoje não é alheio a um governo disposto a trocar substância com a sua verosimilhança. O ex-presidente participou em 53 filmes, em papéis idênticos ao que levou para Washington.

Dizia-se então de Reagan que ele era um presidente essencialmente decorativo. O mito de hoje modificou-o e o “The Reagan Show” recorda-o de forma convincente. Se o ex-presidente é agora uma figura imaculada, as gravações recolhidas mostram-no na fragilidade de um homem que parecia tanto convidar as câmaras quanto temê-las. O Reagan filmado preparando-se para as cimeiras de desarmamento com Gorbatchev, e mesmo o líder momentos antes do discurso diante o Muro de Berlim, é também um homem indeterminado. Parece caído por acaso nas graças dos EUA e dificilmente se resiste nesses momentos à ideia de que era Nancy, a sua mulher, quem verdadeiramente manobrava o poder.

“The Reagan Show” usa-se da aproximação entre os líderes americano e soviético como um tipo de mostruário sobre como a política, mesmo a dos mísseis nucleares e dos três minutos para a meia-noite, é, essencialmente, uma cerimónia de acasalamento. “Estava zangado”, escreveu Reagan no seu diário, ao fim do primeiro encontro com Gorbachev, citado anos mais tarde por Nicholas Lemann na “New Yorker”. “Ele tentou dar ares de jovial, eu dei ares de zangado e isso deu para ver.” Sobre a mesa estavam os planos da destruição quase completa da espécie humana e isso não é detalhe que escape ao cínico.

O filme, no entanto, tem em si um raio de imaginação honesta, para lá dos jornalistas que, numa emissão televisiva, dizem estremecer ante a ideia de um presidente primordialmente avaliado pela televisão. Numa reunião secreta em setembro de 1982 – assim descreve o biógrafo Edmund Morris –, Reagan assistiu a uma apresentação de meia hora sobre o que o cientista Edward Teller chamava o Strategic Defense Initiative (SDI) e àquilo que essencialmente era o esboço de um escudo infalível de mecanismos galáticos que destruiriam qualquer míssil intercontinental ou balístico. A ideia ficou-lhe mais que entranhada.

Os Estados Unidos viram nas imagens espaciais uma paródia governamental de Star Wars. Reagan, aparentemente mais ingénuo que cínico, via nelas a esperança do desarmamento total: tratava-se aos seus olhos, e em termos simples, do fim do apocalipse súbito.

Nas palavras de Morris: “Teller colocou por toda a Sala Oval lasers de raios-x, reduzindo centenas de mísseis soviéticos que se aproximavam em poeira radioativa, enquanto Reagan, olhando para cima em êxtase, viu um escudo de cristal protegendo A Melhor Chance do Homem. Viu-o tão completo e perfeito que Gorbachev, três anos mais tarde, nada conseguiu fazer por convencê-lo que o SDI levaria os exércitos para o espaço. Nem conseguiu Gorbachev acreditar que Reagan falava a sério quando disse que pretendia que os soviéticos construíssem um escudo espacial também, com tecnologia americana, se assim fosse necessário.

Artigo escrito por Félix Ribeiro / Parceria jornal i

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