‘The Meyerowitz Stories’ é uma peça de entretenimento com muita qualidade

22 OUTUBRO, 2017 -

The Meyerowitz Stories (New and Selected) de Noah Baumbach é um retrato perfeito de uma família imperfeita, que obriga Adam Sandler e Ben Stiller a colocar mais nas personagens que representam do que o que lhes é habitualmente pedido. As histórias escolhidas para esta colectânea dos Meyerowitz têm em comum o patriarca da família que é ao mesmo tempo a principal causa de união e a de atrito entre os vários integrantes da mesma. A junção dos capítulos resulta numa comédia bem medida com uns toques dramáticos que potenciam o melhor de cada um dos intervenientes.

As histórias começam com Danny Meyerowitz (Adam Sandler) num carro com a sua filha Eliza (Grace Van Patten) à procura de um lugar para estacionar o carro nas ruas de New York. Cada vez que Danny olha para trás e pergunta se acabaram de passar por um lugar vazio, chega-nos a certeza de que aquela personagem é também alguém que passou uma vida a olhar para trás e a ver oportunidades perdidas. Eliza, estudante de cinema no colégio de Bard, por sua vez, é vista como a esperança de uma família que parece ter falhado a Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman), patriarca da família, escultor e importante professor por várias décadas na mesma instituição que a sua neta agora frequenta.

Torna-se perceptível pela impossibilidade de existir uma conversa apenas entre qualquer par de personagens nesta fase inicial que as relações entre aquela família não são fáceis. Por diversas vezes percebemos que a personagem extremamente bem interpretada por Hoffman vê o centro do mundo no seu umbigo e tem dificuldades em lidar com os seus filhos, levando-o a ter conversas paralelas, mostrando-se indiferente ao que lhe está a ser dito. As cenas com Harold geram tanto os momentos mais cómicos das histórias dos Meyerowitz como os mais trágicos, que surgem quando se juntam a Danny a sua irmã Jean (Elizabeth Marvel) e o seu meio irmão Matthew (Ben Stiller).

Tão frequentes como os diálogos paralelos são as transições repentinas entre cenas. São cortes que se seguem a momentos de maior tensão ou potencial cómico e que nos colocam imediatamente no centro de outro foco, sem tempo para respirar. Tanto um aspecto como o outro são, no entanto, utilizados em demasia, acabando por perder o efeito e tornando-se previsíveis e dispensáveis, retirando o espaço para assimilar devidamente alguns avanços na narrativa. Por outro lado, o modo como as personagens utilizam algumas expressões e piadas constantemente fora de contexto provoca momentos humorísticos deliciosos e reforça a falta de conexão que existe entre os diversos intervenientes.

A narrativa centra-se na família como um todo quando esta se tem de unir em volta de Harold, levando Danny, Jean e Matthew a reflectir sobre a influência que este teve sobre cada um deles e como cresceram com diferentes meios e em diferentes sentidos. São os capítulos que puxam a vertente dramática, mas também aqueles que mais acabam por cair em lugares comuns do género. Têm de se assinalar, ainda assim, as intervenções bem conseguidas por Sandler e Stiller, que tiveram aqui a tarefa pouco habitual de dar corpo a personagens mais densas, que cumpriram com distinção. As histórias dos Meyerowitz nunca deixam de ser bom entretenimento, mas nem sempre se conseguem manter como uma alternativa diferente da comum comédia de tarde de domingo.

As histórias desta família assentam na competitividade, na rivalidade e nos arrependimentos que cada uma das personagens demonstra. Harold Meyerowitz é o centro de tudo e age como tal, potenciando o melhor e o pior nos seus filhos e no modo como estes se relacionam. O filme de Noah Baumbach é uma peça de entretenimento com muita qualidade, fugindo por muitas vezes ao que já vimos inúmeras vezes em filmes de Adam Sandler e Ben Stiller. Ultrapassa as nossas melhores expectativas neste aspecto e mostra-nos um estilo próprio na representação que é feita 3da família imperfeita, com bons diálogos e bons momentos cómicos intercalados com uma vertente dramática, sempre à espreita. The Meyerowitz Stories (New and Selected) consegue estar acima de um mero upgrade aos filmes de domingo à tarde, mostrando uma forte identidade própria.

Crítica escrita por Sandro Cantante 

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