‘The Lobster’: os solteiros são os outcasts da sociedade

4 MAIO, 2016 -

Lanthimos a usar câmara lenta? Lanthimos com uma voz-off?

Estes foram pensamentos que me passaram pela cabeça a ver a mais recente das suas criações, The Lobster. Sendo um ávido consumidor de filmes do cineasta grego, decidi apresentar resistência. O filme teria de me conquistar.
Apesar destas técnicas convencionais, relativamente pouco tempo depois do filme começar e da premissa ser posta na mesa, toda a resistência seria fútil.

Qualquer fã de distopias que se preze fica com água na boca ao ler a mera sinopse deste filme. Ora tomem lá: “Num futuro próximo… Qualquer pessoa solteira é apreendida, transferida para o Hotel e tem 45 dias para encontrar a alma gémea. Passado esse prazo, será transformada no animal que escolher. Para escapar a esse destino, um homem foge e, na floresta, junta-se a um grupo de resistentes; os Solitários.

A execução não desaponta. A aliança da história ao estilo de Yorgos Lanthimos será a relação mais genuína que encontramos ao longo do filme inteiro. Isto ocorre principalmente porque, neste mundo, os solteiros são como que os outcasts da sociedade, e então comportam-se de formas quase absurdas. Falam e agem de forma mecanizada, como marionetas do contexto em que se encontram, como as personagens a que o cineasta já nos tinha habituado em filmes como Dogtooth (2009) ou Alps (2011).
Aliás, há todo um conjunto de referências deliciosas aos seus filmes anteriores. Tome-se o exemplo do casal que faz amor enquanto cada um deles ouve música através de auriculares em Dogtooth; comparável à cena de The Lobster em que Colin Farrell e Rachel Weisz dançam juntos, cada um ouvindo música com os seus auriculares. Curiosamente, a última cena transmite muito mais amor do que a primeira.

Se se levanta alguma preocupação de que Lanthimos esteja a ficar demasiado meloso, é seguro dizer que não, pois o humor sádico característico dos gregos está bastante latente. O filme é consistentemente hilariante, seja por genuína graça ou por aquele desconforto que puxa a gargalhada.
O star power do elenco não coíbe as personagens de se humilharem ou parecerem quase maus actores, com um desempenho de quem está constantemente a aprender a viver, neste mundo tão estranho. É refrescante ver Colin Farrell num papel tão quotidiano, um homem com uma barriga dilatada e que só quer encontrar o amor da sua vida. Apetece enrolar numa mantinha e aconchegar num cestinho de verga, de adorável que é.

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Pode analisar-se o filme como sendo um exagero da cultura de relações que vigora hoje em dia, em que as pessoas se sentem quase obrigadas a ter um parceiro, como se isso fosse a única coisa que nos separasse dos animais. A personagem ‘sem sentimentos’ (interpretada pela excelente actriz grega Angeliki Papoulia) quase parece uma metáfora para a assexualidade, resignando-se a manter-se no Hotel através da caça (literal) de solteiros. Sente-se que há um grande simbolismo latente em tudo.

No final, todas as dúvidas se dissipam. A voz-off tem uma razão de ser. A câmara lenta estranha-se, mas depois entranha-se. O filme acaba por ser um tremendo êxito e deixa uma sensação de enorme satisfação, apesar do final aberto e agridoce.
Afinal, será que o amor é cego?

Texto de Bernardo Crastes

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