‘The Iceberg’, o jazz rap e a consciência de Oddisee

5 MARÇO, 2017 -

Ele é rapper, músico, produtor, poeta. De olhos bem abertos, ritmo na voz, e – embora a sua cara nem sempre o transpareça – sorriso na alma. Amir Mohamed el Khalifa, 32 anos, conhecido como Oddisee. É um dos músicos de hip hop alternativo mais relevantes da actualidade, e um dos que mais produz. Entre EP’s, mixtapes e álbuns de estúdio, o rapper soma já mais de duas dezenas de trabalhos, editados ao longo dos seus onze anos de carreira. Nos últimos anos, destacam-se o lançamento de The Good Fight (2015), que lhe traz mais atenção por parte da crítica; e The Odd Tapes (2016), álbum de hip hop instrumental enraizado no jazz. The Iceberg, lançado na semana passada, é o oitavo álbum de estúdio a solo, e apresenta-se como uma sucessão à altura. Há um contínuo ao nível da sonoridade, e regressam as despertas palavras de Oddisee, encaixadas de maneira criativa e improvável nos versos das canções.

É Oddisee o produtor do próprio álbum. Rodeado de músicos jazz muito competentes (guitarra, baixo, bateria: há momentos brilhantes de cada um dos instrumentos ao longo destes quarenta e cinco minutos), não dispensa a mistura de beats electrónicos na montagem dos ambientes. O jazz é base de trabalho do princípio ao fim, mas, numa produção de grande nível, são abertos novos horizontes. Por um lado, é difícil não ouvir a influência do jazz rap dos A Tribe Called Quest e de Common (a quem pisca o olho, numa referência indirecta, em “This Girl I Know”). Por outro, percebemos que os ritmos e sonoridades diversas com que brinca apelarão a diferentes públicos. Esta ambiguidade estilística não significa que Oddisee tem a ambição de ser o próximo grande sucesso do hip hop comercial: pelo contrário, é testemunho da liberdade criativa que cultiva e valoriza, e do nicho de ouvintes a que acaba por se relegar.

The Iceberg revela, a nível temático, um rapper desperto e consciente. A página de bandcamp do álbum lança a premissa: We all go through the trials & tribulations of life. Why is it we feel the need to individualize our shared experiences? If only we could see our concerns as others do, maybe they wouldn’t be so serious. E é interessante observar o posicionamento do músico americano de Washington D. C., filho de mãe afro-americana e pai sudanês, em tempos tão conturbados. Há referências à tensão racial, à injustiça social, à política americana. Fala-se de Trump (If you’re new to disrespect by your elected puppeteers / Well let me show you how to persevere, em “NNGE”), de discriminação de género (I make more than my sister / Cause I was born as a mister / And I ain’t never been to college, and she graduated honors / Yet the bosses think that I’m a better fit, huh, em “Hold It Back”), de tensão racial (How you make a film about Egypt with all leading roles caucasian / How you saying all lives matter when the stats say we are not adjacent, em “Like Really”, ou Why do my people spend more and have less than / No seat to eat the meal that I’m responsible for cheffing, em “Built By Pictures”).

Tudo isto é abordado de um ponto de vista suis generis, por meio de um apelo constante ao pensamento crítico, ao questionamento das fronteiras cinza entre o bem e o mal (“Rights and Wrongs”). Esta atitude acaba por dar título ao álbum: o iceberg que representa o muito que fica por dizer; e, muitas vezes, o muito que fica por pensar: Thinking critically is really on a decline / Please read between the lines. Oddisee refere-se a estes desafios com uma postura positiva, que rejeita o ódio e a discórdia, e propõe exercícios de auto-aceitação e empatia para com os problemas dos outros. É um caso de amor-próprio, o que encontramos numa das músicas mais bonitas do álbum: “Want to Be”, um quase-funk – muito na onda de “i”, single de Kendrick Lamar, e até um pouco como o último álbum de Chance The Rapper. E as duas primeiras faixas, assim como a quinta – “You Grew Up” – estão recheadas de versos interessantes, que colocam o outro num lugar de destaque.

The Iceberg é comentário social inteligentemente construído, conscious hip hop; uma banda-sonora que a América precisa; que esgravata com profundidade a actualidade, por meio de uma identidade musical versátil, dinâmica, e refrescante. As letras importam; mas mesmo quem não consiga descortinar, sem ler, as palavras por trás do estilo acelerado de Oddisee, consegue apreciar esta viagem musical, que cruza elementos de jazz, soul, funk, r&b e disco. Nota-se algum desequilíbrio qualitativo entre versos e refrões – estes últimos acabam por ficar frequentemente aquém, revelando-se por vezes como o calcanhar das músicas. Não é pecado exageradamente grave. Estou em crer que The Iceberg poderá vir a afirmar-se como um dos álbuns mais positivos, balanceados, e socialmente relevantes do ano. Deixemo-nos contagiar pelas provocações que nos deixa: I’d rather die than be complacent with the way that it goes / Apathy is a disease and we’re just steady sharing needles / Unaffected people carry evil.

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